Estamos em contagem final para entrar em agosto. É o mês clássico das férias, aquele em que o ritmo desacelera. O melhor do verão é o tempo para reparar nas coisas curiosas sem a pressão do relógio a mandar na nossa vida. Aproveita, por isso, para prestar atenção aos sinais da natureza. Plantas, animais, ventos ou correntes de água estão sempre a dar-nos pistas sobre a hora, o local ou a temperatura do nosso planeta.

O voo de um pássaro indica o tempo que está para vir, as raízes de uma árvore mostram a direção do sol, uma duna de areia revela o vento predominante e uma flor a desabrochar aponta para o sul. Se estiveres atento ou atenta aos sinais da natureza, ela guiar-te-á tão bem ou melhor do que a bússola ou o GPS que guardas no telemóvel. Por isso, esquece as tecnologias e parte à descoberta.

Faz exatamente aquilo que, durante séculos, fizeram os agricultores, as tribos de índios ou os pescadores, que nunca precisaram destas engenhocas para sobreviver nos campos, nas florestas ou nos mares. Muita dessa sabedoria para se orientarem ou preverem o tempo transformou-se em provérbios. A maioria é divertida, mas sem base científica. Uma boa parte desse conhecimento, contudo, foi ao longo dos anos sendo confirmado pelos investigadores.

Na direção das árvores

 Se olharmos com muita atenção para uma árvore, ela mostra-nos onde está o sul. 

Há um livro espetacular de um escritor e explorador britânico, que ensina uma série de truques para nos orientarmos pelo sol, pelas estrelas, pela lua, pelas plantas ou pelos animais. Tristan Gooley é o autor de «The Lost Art of Reading Nature’s Signs» (A Arte Perdida de Ler os Sinais da Natueza), que infelizmente não está traduzido para português, mas que dá mais de 800 pistas.

É ele que nos ensina, por exemplo, a usar as árvores para distinguir o norte do sul. Quando dedicamos algum tempo a olhar para elas, reparamos que as copas têm um lado mais frondoso e pesado do que outro. Essa é a parte que recebe mais luz solar e essa é a forma de encontrar o sul. A razão é que, estando nós no Hemisfério Norte, o Sol passa a maior parte do dia no lado sul do céu.

A descoberta, em alguns casos, pode não ser imediata e um dos cuidados a ter é dar umas quantas voltas e observar a árvore sob vários ângulos para ela revelar os seus degredos. Nas florestas, pode ser mais complicado, uma vez que todas elas estão em permanente competição por um bocadinho de sol. Mas os galhos das árvores também são bons indicadores, revela Tristan. Os que estão na parte sul tendem a subir em busca do sol, enquanto os que apanham mais sombra são propensos a crescer na vertical.

Alinhados com o campo magnético

 O alinhamento do corpo com o eixo magnético da Terra já foi encontrado em muitos animais. 

Outras formas de descodificar os sinais da natureza é observar o comportamento dos animais. Os investigadores já descobriram que as vacas gostam muito de posicionar o corpo na direção norte-sul. Não acontece sempre, mas é o mais comum. Tal como os cães, que usam também o mesmo eixo norte-sul para largar os cocós que fazem ao ar livre – não é piada, é mesmo um facto comprovado pela ciência.

Há uma razão para isso e é a mesma que leva também as aves marítimas, como patos ou gaivotas, a escolher o norte para aterrarem sobre as águas. É o alinhamento com o eixo magnético da Terra, que já foi encontrado em muitos animais, desde abelhas, moscas da fruta, morcegos, alguns roedores ou raposas.

Prever o tempo é bem mais complicado. Pois se até os meteorologistas, por vezes, se enganam…. Agricultores, criadores de gado ou índios, no entanto, aprenderam a decifrar os comportamentos dos animais para tentar salvar as colheitas e protegerem-se das chuvas, secas ou invernos rigorosos. Neste capítulo, o «The Older Farmer’s Almanac» é, à semelhança do livro de Tristan Gooley, o guia que revela uma enormidade de sinais da natureza.

A publicação americana, editada desde 1792, tem tal como a revista portuguesa «Borda d´Água», previsões meteorológicas, tabelas de marés ou gráficos sobre as melhores alturas para semear ou colher frutos, cereais ou tubérculos. Como também recupera a sabedoria popular para mostrar como os animais e as plantas sabem melhor do que os humanos antecipar os problemas que o tempo pode provocar nas suas vidas.

Prever o tempo com os animais

Jim Bendon | CC BY-SA 2.0

 Pássaros, gado, castores ou cavalos têm um sentido especial para antecipar mudanças no clima. 

A quantidade de gordura corporal, a espessura do pelo, onde escondem a comida ou os lugares onde estão os esconderijos eram alguns dos indicadores a que os nativos americanos prestavam atenção. Eles acreditavam, por exemplo, que quanto mais sólidos eram os diques construídos pelos castores, mais rigoroso seria o inverno. E, como tal, o melhor era porem-se a caminho do sul.

Muitos outros sinais da natureza podem ser encontrados neste almanaque. O Bicho Que Morde selecionou alguns:

Invernos longos e rigorosos

  • Abelhas escolhem locais protegidos para fazer as colmeias (no interior de um armazém ou de um celeiro, por exemplo);
  • coelhos gordos em outubro e novembro;
  • Cascas de maçã duras ou cascas de cebolas grossas;
  • Uivos de lobos antecedem tempestades;
  • Silêncio na floresta é também sinal de tempestade a caminho.

Bom tempo

  • Morcegos a voar pela noite dentro, até quase de madrugada;
  • Pássaros a voar alto no céu (quando voam baixo, é de esperar mudança brusca no tempo);
  • Pássaros a cantar.

Chuva

  1. Cavalos e gado esticam o pescoço e cheiram o ar;
  2. Gado deita-se no pasto;
  3. Porcos ficam inquietos;
  4. Andorinhas voam baixinho ou pousam nos beirais.

O termómetro da natureza

 A cadência do cricri dos grilos é uma ciência exata para calcular a temperatura no exterior. 

Quem, no entanto, quiser saber qual a temperatura exata só tem de ouvir os grilos com muita atenção. O barulho que eles fazem ao roçarem as asas e as pernas umas sobre as outras nada mais é do que o canto dos machos, atraindo as fémeas para o acasalamento. Mas o ritmo do cricri é mais preciso do que um termómetro.

Quem descobriu isso foi o físico americano Amos Dolbear, em 1897. Foi ele que propôs a teoria de que a temperatura no exterior condiciona a cadência dos cricris dos grilos. A tese já foi cientificamente testada pela meteorologista americana Margaret (Peggy) LeMone, a mesma que também já calculou o peso de uma nuvem, como o Bichinho das Contas mostrou aqui. Uma das poucas fórmulas traduzidas para graus celsius está também no «The Older Farmer’s Almanac».

Para converter o barulho dos grilos em graus celsius, é preciso contar o número de sons emitidos em 25 segundos. De seguida, dividir esse valor por três. E, por fim, adicionar o número quatro.

Exemplo: 48 cricris ÷ 3 + 4 = 20 °C.

Quem tiver ouvido e paciência para escutar os grilos nunca mais precisará de consultar a meteorologia no smartphone.

Antes de partires, espreita este curioso artigo: Porque é a natureza (quase) toda simétrica?

E, já agora, se quiseres descobrir os incríveis segredos das árvores e das plantas, lê também o artigo Porque é bom falar com as plantas?