Ninguém cuidou tanto e tão bem da nossa saúde como Henrietta. Durante quase 60 anos muita gente julgou que foi apenas uma descendente de escravos. O livro de Rebecca Skloot, contudo, mostrou que a medicina moderna não seria nada do que é hoje sem ela. Esta lavradora americana ajudou a descobrir curas, tratamentos e vacinas para as doenças mais ameaçadoras. Como é que isso aconteceu? Se ainda não sabes, está na hora abrir um frasquinho de laboratório e conhecer a história de Henrietta Lacks.

O cemitério de Clover, nos Estados Unidos, é um lugar sossegado, como quase todos os cemitérios, mas não esta manhã. É sábado, as ruas ainda estão sossegadas e os habitantes desta cidade do estado de Virgínia só agora começam a preparar-se para o pequeno-almoço. Um grupo de visitantes levantou-se bem cedo para colocar uma lápide numa campa que, durante 60 anos, não teve nem nome nem data.

A pedra de mármore tem a forma de um livro onde está gravado o nome Henrietta Lacks e uma frase em memória dela: “Dedicado a uma mulher fenomenal, esposa e mãe que tantas vidas tocou.” E com esta lápide, oferecida pelo médico Roland Pattillo, no dia 29 de maio de 2010, todos os que passarem por ali ficam a saber agora que, debaixo daquele palmo de terra, está alguém que merece ser recordado. Como tantos outros que morreram, mas continuam vivos na memória dos amigos e da família, dirão muitos e com razão.

Ainda assim, vale a pena conhecer a história dela. Não viveu muito, aos 30 anos, sentiu uma pontada aguda e um nó no abdómen, mas escondeu as dores. Não podia ficar doente. Tinha cinco filhos para alimentar e o salário que tirava das plantações de tabaco era tão importante como o dinheiro que o marido trazia da fábrica de aço, em Baltimore. Disfarçou o mal-estar até não aguentar mais e, quando chegou ao Hospital Johns Hopkins, já era tarde.

Howard Jones diagnosticou-a com cancro no colo do útero e tentou tratá-la com radioterapia e terapia de raios-x, práticas recomendadas nas décadas de 1940 e 1950. Nada disso adiantou. Os tumores na barriga de Henrietta cresceram tão rápido que o médico nunca vira coisa igual. Howard ainda recolheu algumas amostras de tecido para serem analisadas, mas antes sequer de chegar a uma conclusão ela morreu, oito meses depois de ser internada, no dia 4 de outubro de 1951, com 31 anos.

Henrietta foi enterrada perto de casa, sem cerimónias fúnebres nem campa.

David, o marido, não tinha dinheiro e as flores dos baldios foram a única homenagem que os filhos conseguiram prestar. Poder-se-ia pensar que a história dela fica por aqui, pelo menos para quem não a conhecia. Mas a história dela continuou naquele bocado de tecido que lhe tiram para fazer exames.

As 1001 viagens das células HeLa

 As células de Henrietta viajaram pelo mundo sem ninguém desconfiar a quem pertenciam. 

As células de Henrietta foram para o laboratório do hospital e o médico George Otto Gey quase caiu da cadeira quando reparou que não eram normais, daquelas que ao fim de um tempo também acabam por morrer. Mantidas em temperatura e condições especiais, elas continuaram a multiplicar-se durante dias semanas e sempre a uma velocidade alucinante.

Pareciam dar ouvidos às preces do médico que há mais de 30 anos tentava manter as células vivas em laboratório para descobrir como se comportam e assim conseguir perceber o que provoca o cancro e como combatê-lo. Já tinha experimentado tudo, até misturar tecidos humanos doentes com sangue de corações de galinha ainda a palpitar, esperando que as células cancerosas sobrevivessem e pudessem ser estudadas. Nenhuma das tentativas resultou até examinar as células de Henrietta e concluir que eram imortais.

George separou as duas primeiras letras do nome de Henrietta e juntou às duas primeiras letras do apelido dela, Lacks, batizando assim a sequência celular de HeLa.

Seria uma maneira de homenagear esta mulher, mas o certo é que nunca mais ninguém perguntou quem estaria por trás daquelas 4 letras.

As células de Henrietta viajaram, entretanto, para todo o lado. Um dos primeiros lugares foi o laboratório de Jonas Salk, médico americano que durante anos a fio trabalhou sem descanso para encontrar a vacina contra a poliomielite. Era a doença infeciosa que atingia sobretudo as crianças e de que todos tinham pavor. Basta dizer que na década de 1950 matou milhões em epidemias pela Europa, Estados Unidos e por todo o mundo.

Em Portugal, por exemplo, provocou quase três mil casos de paralisia e centenas de mortes em apenas uma década. Foi preciso uma campanha nacional de vacinação em 1965 para, no espaço de um ano, erradicar praticamente esta doença.

E esta foi só a primeira de muitas mais descobertas que a medicina fez com as células de Henrietta, tornando-as mundialmente famosas. Assim que os cientistas descobrem que elas são imortais, todas as experiências se tornam possíveis.

As 1001 vacinas de Henrietta

 A vacina contra a poliomielite foi a primeira de muitas que as células HeLa ajudaram a produzir. 

As linhas celulares HeLa permitiram ver ao vivo e a cores a divisão celular ou como se comporta um vírus dentro das células. Os cientistas nem precisam preocupar-se com as questões éticas porque elas não estão dentro de um corpo humano. Puderam fazer tudo, desde bombardeá-las com carcinógenos, testarem-nas com as mais variadas drogas ou até sujeitá-las a experiências nucleares.

As células de Herietta foram divididas em centenas e centenas de milhares de lotes e enviadas para laboratórios de todos os cantos do planeta. Desde 1951, foram expostas aos efeitos da radiação, ajudando a encontrar técnicas de combate ao cancro como a quimioterapia ou enviadas para o Espaço para descobrir os efeitos no tecido humano em situações de microgravidade. O seu estudo ajudou a produzir drogas para numerosas doenças, incluindo Parkinson, leucemia, sida ou gripe, permitindo também a clonagem, o mapeamento de genes, a fertilização in vitro, o transplante de órgãos ou até vacinas para cães e gatos.

E muito, muito mais, centenas ou mesmo milhares de novos conhecimentos surgiram com o estudo destas linhas celulares.

A medicina deu passos gigantes e, ainda hoje, continua a depender dos frasquinhos onde as células de Henrietta estão mergulhadas.

São quase uma centena de milhar de artigos científicos com base em pesquisas de células HeLa. Tantas voltas deram por esse mundo que um dia entraram também numa numa escola americana. Rebecca Skloot ficou muito curiosa quando a professora de biologia explicou à turma que os avanços da medicina muito se devem ao estudo de células vindas de uma mulher chamada Henrietta Lacks.

Mal a aula acabou e todos os alunos saíram, ela foi ter com a professora cheia de perguntas. «Quem era essa mulher? De onde ela era? Tinha filhos?». A professora apenas sabia que Henrietta era descendente de escravos, trabalhava em plantações de tabaco no estado de Virgínia e morrera com um cancro no colo do útero. As respostas souberam a pouco, mas por mais que Rebecca procurasse informação, pouco ou nada encontrou.

Mesmo assim, não deixou nunca de pensar naquela mulher. Muitos anos mais tarde, depois licenciar-se em Biologia, e enquanto jornalista na área de ciências, publicou, em 2010, «A Vida Imortal de Henreitta Lacks», onde desvenda quem está por detrás das células HeLa. O mais surpreendente é que nem marido nem filhos sabiam que as células de Henrietta andavam por aí nas mãos de cientistas de todo o mundo, muito menos que ajudaram a revolucionar a medicina.

O livro de Rebecca revelou à família e a toda a gente o enorme legado da mãe para a ciência moderna. Mais do que isso, mostrou algo que os cientistas não estão muito habituados a pensar. Um frasquinho ou um tubinho de ensaio nunca é só um tubinho ou um frasquinho. Há sempre alguém com uma história que merece ser contada. E foi isso que Roland Pattillo ou tantos outros médicos descobriram depois de lerem o livro de Rebecca Skloot.

Sem as células de Henrietta, Roland não poderia nunca ter feito as descobertas que vieram ajudar no tratamento de cancro dos ovários ou tantas outras experiências. E, como tal, nada mais justo do que oferecer a Henrietta e à família dela uma campa com uma lápide para que toda a gente ficar a saber quem foi esta mulher.

Não é que Henrietta precise dessa homenagem para continuar a fazer o que sempre fez. As células dela não param de reproduzir-se. Há quem estime que juntas pesariam qualquer coisa como 50 milhões de toneladas e, colocadas uma ao lado da outra, dariam pelo menos três voltas à Terra com os seus 100 milhões de metros. O que é espantoso, dado que cada célula é minúscula e pesa menos do que um fio de cabelo.

Fontes consultadas: The Guardian | The New York Times | Wikipédia | Fundação Henrietta Lacks | The Star |