Hoje e, principalmente agora que estamos fechados em casa, é impensável passar um único dia sem WhatsApp, Skype, Zoom ou FaceTime. Mas houve um tempo – não tão distante -, em que só existia um telefone ligado à tomada da sala. Era preciso ficar especado em casa, à espera daquele telefonema superimportante para combinar uma ida ao cinema ou a uma festa de aniversário. Nem sempre foi fácil, mas toda a gente sobreviveu. Espreitem como era complicada a vida do adolescente dos anos 1980. 😉

 

Até meados da década de 1990, o telefone lá em casa só fazia triiiimtriiim! Não havia toques com sons divertidos, assobios ou passarinhos a chilrear. Não havia centenas de toques com batidas latinas, ritmos do hip-hop, do reggae ou do pop rock. Muito menos mensagens, emojis 😁😜😒 ou chats do Facebook, do WhatsApp ou do Hangouts. Só triiiimtriiim! Nada mais.

Era como uma campainha de bicicleta, mas 10 ou 20 vezes mais alto. Tão alto que se ouvia no apartamento ao lado e, se calhar, no prédio inteiro. E tão barulhento que, não raras vezes, saltávamos do sofá com o coração aos pulos ao ouvir o triiiimtriiim que disparava no silêncio da sala. Não dava para ignorar: quando o telefone tocava, tínhamos de atender. Quem fala? Era um mistério e fazia todo o sentido fazer a pergunta.

O som do telefone (o tal triiiimtriiiim!)

O telefone fixo não tinha ecrã e a chamada não identificava o número ou tinha sequer os nomes gravados na nossa lista de contactos.  Tínhamos de decorar os números mais importantes, o de casa, os dos nossos melhores amigos, do trabalho dos pais, dos avós, dos vizinhos e de quem mais fosse preciso.

Tantas vezes marcávamos os números, que acabavam por ficar gravados na nossa memória.

Os outros contactos iam para a nossa agenda de papel, escrita à mão, com caligrafia bonita e organizada por ordem alfabética. Havia agendas grandes, guardadas ao pé do telefone, ou pequeninas, para levar na mala ou no bolso. Com o uso continuado, ficavam todas gastas e rabiscadas com mais nomes e mais números encavalitados por falta de espaço.

A nossa agenda era a única coisa verdadeiramente portátil. Estava sempre connosco, não fosse preciso ligar de um café ou de uma cabine telefónica na rua.

Toda a gente saía para o trabalho ou para a escola…deixando o telefone em casa.

Hoje, fica tudo aflito, se se esquecer do telemóvel. E agora, se alguém ligar? O que é que eu vou fazer?  Dá vontade rir quando olhamos para trás e percebemos que, antes, isso acontecia todos os dias e ninguém ficava em angústias.

Tinha os seus inconvenientes, é claro. Secas monumentais à espera de um amigo que vinha de autocarro e ficou empatado no trânsito, sem poder avisar do atraso. Aguardar por ele, sem saber sequer se iria aparecer, não era tão fácil como hoje, em que basta agarrar no smartphone para o tempo passar a correr.

Naquela altura, as pessoas tinham de inventar para não se aborrecerem de morte. Folhear o jornal que transportavam debaixo do braço, ler um livro, ouvir as conversas do lado, contar telhas ou azulejos, observar tudo o que se passava à volta ou olhar para o relógio de dois em dois minutos.

Um telefone para toda a família

No tempo do telefone fixo, e quando estávamos fora, tínhamos de ligar para a nossa casa para perguntar se alguém havia ligado para nós. Ou, então, ao chegar a casa e, ainda antes de tirar a mochila das costas, perguntar:

_ Mãe, alguém ligou p’ra mim?
_ Ligou, sim, filho.
_Quem?
_ Um tal de Frederico. Não! Espera, acho que era Fernando. Ou seria Francisco?
_Mãe!
_ Filho, tem lá paciência, não me lembro, era um deles.

Ou quando um miúdo queria falar com uma miúda para combinar uma ida ao cinema ou uma tarde no jardim. Ligava para a casa dela e, por azar, atendia o pai.

_ Tou sim? A Raquel está?
_ Quem fala?
_ É o Paulo, da turma dela.
_ O que quer com a minha filha?
_ Precisamos combinar um trabalho de grupo.
_ Ai, sim? Um trabalho de grupo?
_ Sim, um trabalho para a escola.
_ Certo, eu dou o recado.

O problema do telefone é que só havia um, o de casa. O mesmo telefone para o pai, para a mãe, para o mano e para a mana. Ainda por cima preso por um fio ligado a uma tomada. Para o transportar da sala para o quarto, por exemplo, eram precisos uns 5-6 metros de fio. Era o mais longe que um telefone conseguia ir.

Linhas cruzadas

 As chamadas tinham muitas interferências por causa dos fios condutores misturados ou descascados. 

Vistos a esta distância, os telefones parecem hoje objetos estranhos. Ainda antes dos botões, tinham um disco que girava, uma roleta com 10 buraquinhos, um para cada algarismo, de 0 a 9. Além de servir para falarmos com a nossa família, amigos ou colegas, os telefones de então tinham outras funcionalidades muito modernas para a época.

Havia um número para onde ligávamos para saber se ia chover ou fazer sol no dia seguinte, outro para pedir que nos acordassem à hora certa, outro ainda para perguntar por contatos de restaurantes, empresas ou pessoas.

Funções que hoje a internet veio tornar perfeitamente inúteis. Mas, tinha também cenas de arrepiar, como as “linhas cruzadas”. Estávamos nós no meio de uma confidência com um amigo e, de repente, ouvíamos a voz de mais alguém na linha. Das duas, uma: ou o intruso pedia desculpa e desligava ou armava-se em parvo e intrometia-se na conversa.

As “linhas cruzadas” sempre foram um mistério, mas, sabendo como funcionava um telefone fixo, não é difícil perceber o que acontecia.

A voz é transformada num sinal elétrico que viaja numa onda até ao outro lado da linha. Assim que chega ao destino, converte-se outra vez em voz. Essa viagem, contudo, pode ser atribulada e cheia de interferências. Basta os fios condutores estarem muito próximos ou descascados para as ondas de uma ligação se misturarem com ondas de outras ligações e provocarem linhas cruzadas. Isso era quando a rede telefónica era analógica e não digital, como agora.

Era o que o telefone tinha de mais imprevisível. De resto, não havia grandes variações, quase sempre era preto, existiam outras cores como verde, vermelho, branco ou bege, mas tinha-se de pagar uma taxa extra aos TLP ou aos CTT, as empresas fornecedoras do serviço.

Só mais tarde é que apareceram os pagers, aparelhos muito populares na década de 1990. Tinham o tamanho de uma caixa de fósforos e usavam-se à cintura, emitindo um «bip» sempre que alguém precisava falar connosco.

Apesar de pouco usuais, os primeiros telemóveis chegaram nos anos 1990. Eram tão grandes e pesados que ficaram conhecidos como tijolos. Custavam uma fortuna e, ainda por cima, não funcionavam lá muito bem na maior parte das vezes. Um luxo, tal como o telefone fixo também foi no princípio.

O sucessor do telégrafo

Quando começou a ser vendido, na década de 1870, o telefone fixo era apenas usado por médicos, advogados, homens de negócios e pouco mais. Toda a gente achava que era pouco prático e nunca seria tão popular como o telégrafo. Mas, em menos de nada, entrou nas casas das famílias, nos escritórios e em todas as lojas.

Instalação de cabos de telefone no bairro de Alvalade (Lisboa)/FPC

Em Portugal, o primeiro serviço de telefone automático foi inaugurado em 1930.

No ano seguinte, chegaram as primeiras cabines públicas de telefone, instaladas no Rossio, em Lisboa. Sete anos mais tarde, a operadora de telefones, conhecida nessa altura por APT, inaugurou uma estação automática no bairro da Estrela, em Lisboa.

Muito antes disso, os primeiros telefones estavam ligados a uma central manual. Para fazer uma ligação, era preciso rodar duas vezes a manivela dos aparelhos – que eram pregados à parede -, originando um toque para a telefonista, que solicitava o número para o qual deveria ligar.

Ela conectava depois os fios aos respectivos terminais e pedia ao cliente para girar a manivela para frente. Era o gesto que permitia, finalmente, falar com a pessoa. Desligar o telefone também tinha a sua ciência: de um lado e do outro, ambos tinham de girar a manivela uma vez para trás. Depois disso é que vieram as centrais automáticas.

E pronto. Chega de rodar a manivela para trás. Quem quiser saber mais sobre como era a vida antes do telemóvel, tem muita gente a quem perguntar, pais, avós, tios ou amigos de família. Parece que foi há uma eternidade, mas, acreditem, não foi assim há tanto tempo.

3 perguntas sobre a história do telefone

1 – Quem inventou o telefone?

Atribuir a autoria de uma invenção nem sempre é tarefa fácil e, no caso do telefone, mais difícil é. Ainda hoje, é comum dizer-se que Alexander Graham Bell é o pai do telefone, o que não é incorreto, considerando que o protótipo do seu telefone foi o primeiro a ser registado, em Nova Iorque, a 14 de fevereiro de 1876. Só que ele não foi o primeiro, nem o único, a ter a mesma ideia.

Cerca de 20 anos antes, Antonio Meucci, imigrante italiano, começou a desenvolver o modelo de um telégrafo falante depois de descobrir que a voz podia ser transmitida à distância através de um fio de cobre. Mas Meucci atravessava muitas dificuldades financeiras e só conseguiu pagar a patente provisória da sua invenção. Os obstáculos foram aumentando e ele acabou não conseguir registar a patente.

Anos mais tarde, Meucci envolve-se numa longa batalha judicial contra Bell para recuperar a sua ideia, mas acaba por morrer antes da decisão judicial, em 1889. O julgamento não avança e Bell continua a ser reconhecido como o autor do telefone e continuando também a aperfeiçoar o aparelho.

Só 113 anos depois da morte de Meucci, é que o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução, a 11 de junho de 2002, reconhecendo o seu contributo para a invenção do telefone.

E para tornar esta história ainda mais intrigante, alguns investigadores estão convencidos de que Elisha Gray, engenheiro eletrotécnico, solicitou a patente do telefone no mesmo dia que Bell, mas apenas com algumas horas de atraso. Os dois também andaram engalfinhados em processos judiciais, com um a acusar o outro de roubar as suas ideias. Em causa estava um transmissor líquido e também um recetor eletromagnético que foram usados por Bell no seu telefone, mas que teriam sido desenvolvidos por Gray.

2 – Como funciona o telefone fixo?

O telefone fixo está ligado a uma tomada especial que faz a ligação a uma linha telefónica. Os fios que passam por essa tomada estão, por sua vez, ligados a uma central que, através de outros fios, se conecta a outras centrais. Ao fazermos uma chamada, a central identifica o número para o qual queremos ligar e estabelece as ligações necessárias, até chegar ao seu destino. Este processo acabou por passar a ser feito por computadores, mas, no início, era uma tarefa desempenhada por telefonistas.

3 – E, já agora, quem inventou o telemóvel?

Martin Cooper, engenheiro eletrotécnico, inspirou-se na famosa série de ficção científica da década de 1960, Star Trek (O Caminho das Estrelas), para inventar o primeiro telemóvel. Foi ao ver o capitão Kirk a usar um aparelho portátil para comunicar com a sua tripulação, que o inventor americano teve a ideia de como desenvolver um protótipo. Em 1973, quase 100 anos depois da invenção do telefone, a marca Motorola mostrou em Nova Iorque o primeiro telefone móvel, o DynaTAC (DYNamic Adaptive Total Area Coverage).

Em plena Sexta Avenida, e ainda antes de entrar para a conferência de imprensa no Hotel Hilton, Cooper fez a primeira chamada num aparelho que pesava quase um quilo, tinha uma bateria com autonomia para 20 minutos e demorava 10 horas a carregar. Para estrear o telemóvel, Cooper escolheu como destinatário da chamada o seu maior rival, Joe Engel, engenheiro que trabalhava para a concorrente Bell Labs.

«Olá Joe! Sabes de onde estou a ligar? Da rua e queria saber se me consegues ouvir bem desse lado».

Esta foi a primeira conversa tida num telemóvel e que, certamente, deixou Engel muito maldisposto. Nos anos seguintes, o aparelho conquistou pouco mais de 5 mil clientes em todo o mundo. Uma insignificância perante os 4.700 milhões que hoje usam o aparelho, ou seja, quase dois terços da população mundial.

 

Tal como o telefone, também a máquina de escrever tem uma história que vale a pena descobrir: «A barulhenta revolução das máquinas de escrever».

Crédito foto Martin Cooper: Rico ShenCC-BY-SA-3.0 

Fontes consultadas: Ordem dos Engenheiros | restosdecoleccao.blogspot.pt | Destination innovation | Ciência Viva | The Guardian | Fundação Portuguesa das Comunicações |