Inicio BICHOS NO SÓTÃO Alguém viu o leão de Rio Maior?

Alguém viu o leão de Rio Maior?

-

 

Há 46 anos, a história de um leão à solta pelas redondezas da então vila de Rio Maior sobressaltou os habitantes, que se fecharam em casa e organizaram caçadas sem nunca encontrar a fera. A notícia correu o país, aparecendo na televisão e nas primeiras páginas dos jornais. O leão de Rio Maior ainda hoje vive na memória dos mais velhos, mas será que tudo não passou de um mito?

 

 

 

As portas estão trancadas e de noite ninguém sai à rua. Mesmo durante dia, só se põe o pé fora de casa quando é preciso e sempre com todas as cautelas: passo apressado, coração aos pulos e o olhar de esguelha. Pior é para quem vive nas aldeias e vilas rurais rodeadas de montes e descampados sem vivalma e que ninguém ousa atravessar. 

Os habitantes de Rio Maior, uma vila do Ribatejo encostada à região do Oeste, vivem atormentados desde o dia em que um pastor fugiu desvairado por esses campos, gritando que um leão andava à solta lá para os lados de Estranganhola. Desde então, ninguém quer ter o azar de se cruzar com a fera.

Na verdade, poucos o avistaram, mas as carcaças de cabras, jumentos e ovelhas devoradas e largadas no meio do nada são provas mais do que suficientes para as gentes de Rio Maior passarem as noites em branco, temendo pela segurança dos filhos, dos vizinhos, do carteiro ou do padre da paróquia.

A notícia corre como um rastilho curto, jornais e televisão enviam repórteres para o local. Rio Maior, que nunca aparece nas notícias, surge nas primeiras páginas dos jornais e até o senhor Fernando Pessa, digníssimo jornalista da RTP, se desloca à terra, percorrendo de bicicleta os campos para entrevistar pastores e agricultores que terão avistado a fera. Juram todos a pés juntos que o leão existe e anda pelos campos a esquartejar o gado, refugiando-se depois nas matas.

História verdadeira ou inventada?

 

 

 De há uns tempos para cá, parece que o animal se evaporou. Os habitantes perderam o medo e voltaram a pôr o pé na rua 

Viver com medo não é vida para ninguém, muito menos para quem é do campo e não se deixa encolher por tudo e por nada. Os moradores de Rio Maior querem voltar a dormir sem sobressaltos, nem que para isso seja preciso enfrentar a fera olhos nos olhos. Organizam-se caçadas com centenas de voluntários que, armados com espingardas, varas, cacetes e tudo o que encontram à mão, partem à procura do leão.

Mas nem sinal do leão. Dizem que o rugido dele ecoa a dezenas de quilómetros de distância, mas até agora o único rugir felino que se ouve é dos gatos vadios a miar junto dos caixotes de lixo. Será que o animal não passa de uma fantasia do povo de Rio Maior? – Perguntam os restantes portugueses que acompanham a novela na imprensa e na TV.

O país está impaciente por não haver prova do crime e ri-se da história mirabolante. Comenta-se o caso na padaria, no talho, ao balcão dos cafés ou entre os colegas do escritório. Essa agora! Um leão a rondar uma vila portuguesa…

Custa a acreditar, é verdade, principalmente porque de, há uns tempos para cá, até parece que o animal se evaporou. Ninguém mais o viu e a GNR já nem se dá mais ao trabalho de rondar as matas. Os jornalistas deixam de aparecer, as trancas das portas abrem-se, os habitantes vão perdendo o medo e voltam a por o pé na rua, seguindo com a vida, como de costume.

O leão de Rio Maior não passa de uma historieta, rumores que ninguém sabe quem começa, mas todos vão atrás.  É como aquele caso dos ratos gigantes que habitam os subterrâneos do convento de Mafra. Ou dos fantasmas que pedem boleia nas estradas de Sintra e na curva do Mónaco, em Oeiras.

O leão de Rio Maior nunca mais apareceu e virou um mito urbano. Nunca se percebe bem como e porquê essas histórias ganham vida. Os entendidos dizem que são fruto dos nossos medos e ansiedades. São como contos tradicionais, só que mais modernos, mas que também se propagam de boca em boca.

Alguns destes mitos são inofensivos, mas outros podem prejudicar alguém, como aquele caso na década de 1980 em que toda a gente pensava duas vezes antes de entrar numa loja dos chineses com medo de desaparecer por uns dias e ser mais tarde encontrado num beco sem um rim e com uma cicatriz na zona do abdómen. Ou como os hambúrgueres do MacDonald feitos de minhocas. Vá lá saber-se quem inventou tais histórias… O problema é que causaram muitos prejuízos entre os comerciantes chineses ou na cadeia americana de fast food.

Um cachorro que virou leão

 Até hoje, há quem não saiba que o leão de Rio Maior foi apanhado na estrada quando era ainda bebé 

Durante muito tempo, acreditou-se também que o leão de Rio Maior seria mais um mito a juntar-se a outros. Há quem se lembre desta história, passada algures em janeiro de 1973, e ainda hoje esteja convencido de que tudo não passou de uma grande treta. 

Mas, onze anos mais tarde, veio a descobrir-se que a história do leão de Rio Maior é verdadeira e tem um fim triste. José Diogo, um comerciante do Cidral, ganhou coragem e, em 1984, contou finalmente à imprensa local que durante quase um ano tomou conta da fera. Encontrou-o perdido na berma de uma estrada. Seria provavelmente a cria de uma leoa de um circo que escapou por entre as grades da jaula e se perdeu. Era tão pequenino, que José Diogo julgou ser um cachorrinho de uma raça esquisita. O leãozinho passou a viver com ele, alimentado nas primeiras semanas a leite e restos de comida. Foi crescendo, ficando cada vez maior, até o dono perceber que de cão não tinha nada.

Podia ter alertado a GNR, podia ter chamado os tratadores de um zoo qualquer, mas José já não conseguia viver afastado da fera, afeiçoara-se a ele como se de um animal de estimação se tratasse. Só que o leão era grande de mais e ele não podia mais tê-lo em casa. Levou-o, então, para um antigo forno de uma aldeia próxima. O local estava há muito abandonado e José Diogo julgou que o seu leão e os habitantes estavam em segurança.

Mas os animais selvagens não são feitos para viverem em cativeiro e o leão de Rio Maior não aguentou muito tempo enclausurado. Um belo dia, o dono foi visitá-lo como de costume e ele desaparecera sem deixar pistas. Começaram então os avistamentos, aparecia e desaparecia aqui e ali, deixando muitas vezes a sua marca, no gado esventrado pelas goelas.

Do medo à gratidão 

 

 O leão continua a rondar a cidade, seja como nome de rua, de doce regional ou como mascote para atrair turistas 

 

José Diogo ficou aflito com os relatos que chegaram sobre o seu leão de estimação. Nem conseguia mais dormir, pensando que um dia ele poderia atacar um habitante e então seria uma tragédia. Agarrou numa caçadeira e saiu à procura da fera. Andou horas a chamar por ele, até que ele veio ter com o dono.

José apontou a arma à cabeça dele, hesitou por uns segundos, e depois disparou, acertando-lhe em cheio. Poder-se-ia dizer que o matou a sangue frio, mas só ele saberá o que lhe custou tirar a vida ao seu companheiro e queimar o cadáver para não deixar vestígios. José Diogo foi para casa desalentado e desarmado, levando com ele o segredo.

O leão de Rio Maior desapareceu, mas, com o passar do tempo, os habitantes acabaram por ganhar-lhe também afeição e até gratidão. Foi graças a ele que a cidade saiu do anonimado. E ainda hoje ele continua a rondar a povoação, que passou a cidade em 1985, seja como nome de beco de rua ou de queijada típica da região. Até já foi mascote que, durante uns anos, promoveu o turismo dentro e fora do país.

Rio Maior ambiciona ser hoje muito mais do que a terra do leão. Tem parques naturais, salinas e, como muitas outras cidades, tenta seduzir turistas e empresas para não passar ao lado progresso. A história do leão faz parte do passado, mas ninguém esquece o leão.

 

Vídeo: excerto do programa da RTP A Alma e a Gente: ver e pensar em Rio Maior, de José Hermano Saraiva (2007)

 

 

Fontes consultadasCidadania Rio Maior | O Mirante | Turismo Rio Maior

Deixe um Comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here

A não perder

Qual é coisa, qual é ela?

As adivinhas fazem parte da tradição oral. Os mais velhos contaram aos mais novos e os mais novos não as deixaram morrer.