Nascida numa aldeia do norte, Rosa Ramalho só ficou internacionalmente conhecida perto dos 70 anos. Poderíamos lamentar o desperdício de tempo. Mas, muito melhor é lembrar as centenas de peças de barro que ela moldou até quase aos 90 anos. Não eram perfeitas, tinham caras que pareciam marcianos, línguas de fora, olhos desorbitados ou patas a quadruplicar. Querem saber de onde vinha a imaginação desbravada dela? Então, deixem o Bicho Que Morde contar esta história do princípio.

Esta é a história que começa com uma criança, nascida a 14 de agosto de 1888, numa aldeia de Barcelos com o nome de São Martinho de Galegos. Ela nunca foi à escola, nunca teve livros, nem sequer brinquedos. Rosa Ramalho, filha de um sapateiro e de uma tecedeira, passou a infância a cuidar das hortas, das cabras, dos porcos e das galinhas. E, ainda assim, aproveitou todas as oportunidades para brincar.

Os dias de chuva eram os preferidos dela. Costumava agarrar na terra molhada dos campos e moldá-la, como hoje fazem os miúdos com a plasticina colorida. Com as mãos enterradas no barro, tirou de lá cãezinhos, burrinhos ou outros seres esquisitos com cabeças grandes, narizes pencudos e bocas desdentadas.

 Boca torta e focinho de porco

 As criaturas de barro de Rosa vinham das missas de domingo, dos animais do campo ou das romarias da aldeia. 

Rosa Ramalho cresceu e, sempre que pôde, continuou a trabalhar o barro, dando vida a criaturas que escapavam da sua imaginação, mas também de tudo o que lhe despertava curiosidade na aldeia. Dos sermões do padre, nas missas de domingo, vieram os anjinhos e os demónios com os olhos desorbitados, nariz torto ou chifres na testa.

Das procissões religiosas e das romarias da aldeia chegaram os santinhos, a Nossa Senhora e o Cristo modelados como se tivessem sido desenhados por crianças. E dos campos e pastagens chegaram as vacas, os bois ou os galos com corninhos, focinhos, cristas ou orelhas a sobressaírem do resto do corpo. Tinha jeito a miúda, diziam as comadres e os compadres lá da terra. E até lhe compravam as estatuetas que ela vendia com a família na feira, por dois ou três tostões.

Entre tantos afazeres, nunca lhe sobrou muito tempo para se dedicar a essas figurinhas que viviam na cabeça dela. E, quando se casou, aos 18 anos com António Mota, com menos tempo ficou. O marido, oleiro da aldeia, passava o dia a tirar da roda pratos, tijelas, cântaros ou travessas de barro. Rosa ficava à volta do forno a cozer a loiça, na horta, na cozinha e a cuidar dos sete filhos que tiveram.

Ela ajeitou-se à nova vida e deixou a bonecada da infância quieta num canto.

Se bem que, de vez em quando, foi regressando ao barro, só mesmo para matar saudades ou, então, se calhar, para se certificar que as figurinhas não se esqueciam dela. O tempo passou, os filhos cresceram, estudaram, casaram e tiveram os seus filhos.

E Rosa enviuvou. Foi nesse momento que os santinhos, as vaquinhas e as cabrinhas chamaram por ela. Passaram-se, entretanto, 50 anos, e já não havia nenhum pretexto para ela não ir ter com a bonecada da infância.

Novas personagens juntaram-se à festa, ganhando formas e dimensões ainda mais esquisitas. Mulheres com corpos de animais, padres com cornichos, galinhas com cabeças de homens, gigantones, vendedeiras ou tocadores de guitarra vendidos como bolinhos de mel em dias de feira.

O encontro com o pintor

 Foi o pintor António Quadros que um dia descobriu Rosa numa feira e levou as figuras dela para Lisboa. 

A arte de Rosa foi viajando por outras terras ali à volta. Um dia, António Quadros – pintor e poeta muito conhecido nessa época – passou pela banca dela na feira das Fontaínhas, no Porto. E de lá não conseguiu mais sair. Foi um cavaleiro de barro nas mãos dela que chamou a atenção dele, uma daquelas figuras que sobrou dos tempos de solteira. O artista pediu-lhe então para fazer uma fornada de figuras – podia ser o que ela quisesse – para o mês seguinte.

Foi a primeira de muitas mais encomendas que se seguiram a pedido dele. E foi também a partir daí que as cidades como Lisboa, Porto, Coimbra ou Cascais ficaram a conhecer o trabalho de Rosa Ramalho. Pouco tempo depois, era a RTP – a única estação de televisão – a ir a Galegos entrevistá-la.

Rosa estava nas bocas do país e também do estrangeiro, recebendo na sua oficina comitivas de estudantes de Belas Artes e de muitos outros artistas a perguntar tudo sobre a arte e a vida dela.

Por essa altura, até o Presidente da República, o almirante Américo Tomaz, quis conhecê-la. E lá foi Rosa para Lisboa. Arrumou as suas figurinhas de barro na mala de viagem e partiu para a capital, para receber a medalha «As Artes ao Serviço da Nação».

Logo depois, foi a grande atração da Feira de Artesanato de Cascais e convidada especial no almoço oferecido pelo rei Humberto II de Itália, exilado no Estoril. O regresso não podia acontecer sem antes visitar o Jardim Zoológico.

Era plano que já vinha na cabeça de Rosa desde que saíra da aldeia, não podia deixar escapar. É certo que já tinha visto os macacos na televisão, mas vê-los ao vivo foi o melhor da passagem por Lisboa.

Artistas do barro

 O figurado de Barcelos é a arte do barro que, com Rosa Ramalho, saiu das feiras para entrar nos museus e galerias. 

Rosa continuou a trabalhar praticamente até ao dia em que morreu, a 24 de setembro de 1977. Quatro anos mais tarde, foi o então Presidente Ramalho Eanes a reconhecer o trabalho dela com o grau de Dama da Ordem de Sant’Iago da Espada.

As peças de Rosa Ramalho estão hoje em museus e coleções particulares, algumas valem umas boas fortunas.

E o nome dela está numa rua de Barcelos, noutra de Cascais e ainda numa escola básica da freguesia de Barcelinhos. Não é por acaso que há muita gente a fazer de tudo para a memória de Rosa Ramalho não desaparecer.

Ela foi a primeira mulher artista portuguesa a ganhar notoriedade internacional e, com isso, a chamar também a atenção para muitos outros artesãos que chegaram antes e depois dela. Os barristas de Barcelos ganharam com Rosa estatuto de artistas, deixando as feiras e entrando nas lojas e galerias de arte.

O artesanato em barro – conhecido como o figurado de Barcelos – é hoje uma das principais atrações turísticas da cidade. Por isso, se um dia passarem por lá, entrem no Museu de Olaria. Além de único no país, tem um acervo de 9 mil peças, 250 das quais de Rosa Ramalho.

Ficha biográfica
Nome completo: Rosa Barbosa Lopes (ficou conhecida por Rosa Ramalho por ser assim tratada pela família, mas só aos 82 anos, quando tirou o Bilhete de Identidade no Registo Civil, descobriu o seu nome oficial).
Alcunha: Ti Rosa
Nasceu em: São Martinho de Galegos (concelho de Barcelos) a 14 de agosto de 1888.
Morreu em: São Martinho de Galegos, a 24 de setembro de 1977, com 89 anos.

A propósito de anjinhos e diabretes, espreita também este artigo: Querubim Lapa. Um anjo a espalhar arte pelas ruas.

Foto de abertura: Ganesh1 – domínio público