A última vez que vimos Calvin e Hobbes foi no dia 31 de dezembro de 1995. Foi numa manhã gelada de inverno e eles acabavam de descobrir que a neve cobria tudo lá fora. “É um mundo mágico, Hobbes, meu velho companheiro. Vamos explorá-lo!», solta o rapaz. Com este final cheio de possibilidades, Bill Watterson fechou uma década de uma das BD mais populares de sempre. Foram 3160 tiras publicadas em 2400 jornais, traduzidas para mais de 40 línguas e ainda cerca de 30 milhões de livros vendidos em todo o mundo.

Mas, voltemos ao princípio desta história, publicada pela primeira vez no dia 18 de novembro de 1985, nos Estados Unidos. Calvin é um rapaz de seis anos e Hobbes um tigre de peluche. O que eles fazem juntos, só as crianças conseguem fazer – viajam no tempo, procuram ossos de dinossauros no quintal, constroem exércitos de abomináveis ​​homens da neve ou enfrentam mutantes feitos de folhas caídas das árvores (para desespero do pai que passou a tarde inteira a amontoá-las).

O mundo pelos olhos de Calvin

© Bill Watterson (OSU Exhibit)

 Ao embarcar na fantasia de Calvin, o leitor viaja para planetas distantes e entra em dimensões longínquas do passado. 

É uma bela história de amizade. E também é mais do que isso. Calvin e Hobbes são uma fantasia de Bill Watterson, mas também são reais. Depende de quem os vê. O truque é muito parecido com uma ilusão ótica. Hobbes, por exemplo, só é um tigre matreiro ou meiguinho – consoante os dias – quando está a sós com Calvin. Na presença de outros não passa de um peluche. Os leitores podem então optar por ver o mundo através dos olhos de Calvin ou dos adultos.

Não é uma escolha complicada. Com eles, viajamos para planetas distantes, somos transportados para o período jurássico e acompanhamos as aventuras do Homem Estupendo, do astronauta Spiff ou do detetive Tracer Bullet. Mas não se iludam: as dúvidas deste rapaz são bem reais. Tão reais que nos põe também a pensar nas nossas próprias inquietações.

Todos as manhãs, durante uma década, houve uma nova história que Bill Watterson contou em três ou quatro quadrados (ou retângulos) a ocupar um quarto de página do jornal. Uma breve oportunidade, à hora do pequeno-almoço, para pensar fora da caixa. Deve ter sido por isso que muitos milhares de leitores nunca mais esqueceram estes dois amigos. Calvin e Hobbes continuam vivos nos ensaios literários, nas teses académicas, exposições, documentários, livros, blogues, sites ou páginas de Facebook.

Uma ideia por dia, 365 ideias por ano

© Bill Watterson (OSU Exhibit)

 A única maneira de as ideias virem ter connosco é deixar a mente vaguear por territórios desconhecidos. 

Há ainda muito para explorar. Bill Watterson deixou um legado que nunca mais acaba. Foram 365 ideias por ano, durante 10 anos. Como é que ele conseguiu? Não há grande mistério à volta disso. Pelo menos foi o que garantiu, em 1990, no discurso dirigido aos finalistas do Kenyon College, universidade de Ohio, onde também ele se licenciou, 10 anos antes, em Ciência Política.

«A única maneira de escrever todos os dias, dia após dia, é deixar a minha mente livre para vaguear por novos territórios», contou ele. Só assim é que as ideias vêm ter connosco. De outra forma, as rotinas, as expetativas dos outros ou os entretenimentos parvos tomam contam de tudo, impedindo-nos de pensar e de questionar.

Precisamos de encontrar formas para a nossa mente se expandir, seja na leitura de um bom livro, numa conversa estimulante, na arte, na música e no pensamento solto: «Relaxar, para muitos, significa ficar frente à televisão, deixando a idiotice derreter o cérebro.» Julgamos que, para recarregar energias, precisamos de esvaziar a cabeça. Mas, diz Bill, a mente é como a bateria de um carro: «Só carrega quando corre.»

A fantasia é que faz girar o mundo real

© Bill Watterson (OSU Exhibit)

 Na escola, no trabalho, em casa ou entre amigos, teremos de encontrar soluções para problemas grandes e pequenos. 

Cada um de nós terá de encontrar motivação para procurar ideias por nossa conta e risco. Não julguem que é apenas um escape para nos manter longe desse mundo real. No dia-a-dia, no trabalho, em casa, com os amigos, na escola, em todo lado, seremos desafiados a ter novas ideias e soluções para resolver todo o tipo de problemas, simples ou complicados.

«Para mim, foi libertador colocar-me todos os dias na cabeça de uma criança imaginária de seis anos», confidenciou ele. Ao deixarmos a mente à solta, uma simples ideia gera carradas de outras ideias. Muitos anos depois de deixar a escola, Bill Watterson reaprendeu com Calvin como a curiosidade é uma brincadeira divertida.

E, um dia, sem ninguém estar minimamente preparado, acabou com as histórias de Calvin e Hobbes. Bill anunciou que precisava vaguear por novas histórias e encontrar outros ritmos, longe do corrupio diário dos jornais, para continuar a expandir a mente. Que remédio tiveram os leitores senão respeitar a decisão dele. Consolaram-se nos recortes colecionados ao longo de anos ou nos livros, entretanto, publicados. E nada mais. Nem filmes, nem t-shirts, nem canecas, nem peluches, nada.

A inocência das crianças não está à venda

© Bill Watterson (OSU Exhibit)

 Watterson nunca cedeu os direitos da sua obra por acreditar que o seu objetivo não é «vender coisas, mas dizer coisas». 

Bill Watterson nunca vendeu ou cedeu os direitos da sua obra, embora a pressão fosse muita. Ele esteve cinco anos em conflito com a sua agência, passando mais tempo a «gritar com os executivos do que a desenhar», contou ele no livro Parabéns Calvin & Hobbes – edição comemorativa do 10º aniversário.

Mas nunca abriu mão das suas convicções. Houve quem achasse que era capricho de um artista excêntrico. Afinal quem é o doido que recusa uns largos milhões de dólares não tendo sequer de mexer um dedo para ganhá-los? A quem pensava assim, Watterson respondeu:

O mundo da banda desenhada é mais frágil do que a maioria das pessoas imagina ou está disposta a admitir. As personagens credíveis são difíceis de desenvolver e fáceis de destruir. Quando um cartoonista autoriza a sua utilização com outros fins, a voz é instrumentalizada pelos fabricantes de brinquedos, os produtores de televisão e os anunciantes.

O seu trabalho deixa de ser o reflexo de um pensamento original, passando a destinar-se a manter as personagens rendíveis. Estas tornam-se «celebridades» que promovem empresas e produtos, que evitam controvérsias e que dizem tudo o que lhes pagam para dizerem.

Atingida este ponto, a BD deixa de ter alma. Desprovida de integridade, perde o seu significado mais profundo. As minhas tiras são acerca das realidades privadas, da magia da imaginação e do que há de especial em certas amizades.

Quem acreditaria na inocência de uma criança e do seu tigre se estes se aproveitassem da respetiva popularidade para venderem bugigangas caras que não fazem falta a ninguém?Bill Watterson

A vida discreta de Bill

Quase nada se ouviu sobre ele desde que encerrou o capítulo dedicado a Calvin e Hobbes. Deu umas poucas entrevistas, raramente apareceu em público e, fotos dele, há esta que vemos aqui e pouco mais. Acredita-se que vive ainda em Hudson, em Ohio, com a mulher Melissa e três gatos: Sprite e Pumpernickel, que são normais, e Juniper Boots, que rosna e ataca ao mínimo movimento. Diz-se que ele gosta de dormir até tarde e desfrutar de momentos lentos. Longe das multidões, dos holofotes da imprensa e dos milhões de dólares que recusou da indústria do entretenimento.

Fez precisamente o que há 30 anos incentivou os alunos do Kenyon College a fazer também: «Todos temos desejos e necessidades diferentes, mas, se não descobrirmos o que queremos de nós próprios e o que defendemos, viveremos passivamente e não realizados.» Cada um terá de descobrir o quer. E saber que «há muitos tipos de sucesso». Não é só dinheiro, legiões de fãs e entrevistas na televisão.

Glossário de Calvin & Hobbes

Calvin e Hobbes

O nome de Calvin foi inspirado no teólogo do século XVI, Jean Cauvin (João Calvino). Hobbes recebeu o nome de Thomas Hobbes, matemático, teórico político do século XVII e filósofo inglês.

Transmogrificador

É uma invenção de Calvin feita a partir de uma caixa de cartão e usada para o transformar a ele e a Hobbes numa grande variedade de criaturas, desde enguias, babuínos, sapos ou dinossáurios.

Astronauta Spiff

É um explorador espacial e luta com alienígenas, que geralmente encarnam a professora de Calvin a tentar extrair dele informações sobre as suas armas ultrassecretas, mas muitas vezes ineficazes.

Homem-estupendo

Super-herói com poderes para resolver uma prova difícil em poucos segundos (sem forçosamente acertar em alguma resposta) ou enfrentar os seus arqui-inimigos.

Cerebral Enhance-O-Tron

Inventada para melhorar o cérebro de Calvin quando ele escrevia um relatório sobre como o Tiranossauros Rex era um predador temível e um carnívoro repugnante. Os efeitos desaparecem quando tarefa fica concluída.

Tracer Bullet

Detetive privado capaz de resolver qualquer crime como, por exemplo, quem partiu o vaso da mãe ou uma questão supercomplicada no teste da escola.

Pistola do transmogrificador

É uma versão portátil do transmogrificador, modelada a partir de uma pistola de água e projetada para trabalhar em telepatia. A arma lê a mente do alvo, transformando-o naquilo que está a pensar.

Calvinbola

É um desporto inventado por Calvin e Hobbes. Os jogadores criam as suas próprias regras à medida que avançam, mas não podem repeti-las no mesmo jogo nem em jogos futuros. A única regra fixa é a obrigatoriedade de usar máscaras.

Calvin, o Tyrannosaurus

Pesa 7 toneladas e é o mais temido entre a sua espécie e em todo o reino animal. Como consequência, viu-se obrigado a enfrentar grandes presas, um esforço que, segundo Calvin, acabou por provocar a sua própria extinção.

Fontes consultadas:

«Alguns pensamentos no mundo real por alguém que o visitou e fugiu», Bill Watterson (1990).

Parabéns, Calvin&Hobbes (1995) – Edição  comemorativa do 10º aniversário – Gradiva

Ilustrações e créditos

© Bill Watterson – Ohio State University exhibis  (OSU Exhibit) – CC BY-NC-SA 2.0