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Paganini. A maldição de um talentoso violinista

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Aviso geral à criançada: esta história não é para medricas. Depois não digam que não conseguem adormecer sem a luz acesa. Almas penadas, risadas diabólicas e maldições pairam por aqui. São lendas que ensombram a memória de um dos mais talentosos músicos e compositores de sempre. Ainda hoje, ninguém consegue tocar violino como Niccolò Paganini. É tão veloz e ágil que o público estava convencido de que só com um pacto com o diabo poderia alcançar tamanha perfeição.

 

A primeira vez que vi Niccolò Paganini, um calafrio subiu-me pelo corpo, deixando-me uns bons segundos paralisado no meio da rua. Foi numa noite gelada de dezembro de 1831 que ele surgiu coberto por uma longa capa negra, deixando ver apenas os cabelos ondulados sobre os ombros.

Saiu da sua carruagem puxada por quatro cavalos também eles negros. Uma multidão esperava-o com o olhar tão assombrado como o meu. Uns benziam-se como se tivessem visto uma alma penada, outros tentavam tocar-lhe com a bengala para terem a certeza de que era um homem de carne e osso como eles.

Paganini ignorou-os e entrou apressado na Ópera Garnier, em Paris. Veio gente de todas as partes da cidade e arredores. Não sobrou um único lugar vazio. Um burburinho percorria a plateia, mas não era aquele bulício próprio que o público faz antes de os concertos começarem. Era antes um murmúrio nervoso, como se quisessem fugir, mas fossem incapazes de quebrar o feitiço que os prendia às cadeiras.

Assim que as luzes se apagaram, o silêncio engoliu os últimos rumores a ecoar ainda pelo salão. Uma claridade iluminou a figura de Paganini. A assistência gelou. O fato preto apertava-lhe o corpo magro, os olhos eram escuros e encovados, os lábios quase não se viam, as bochechas chupadas, o nariz afiado como o bico de uma águia e a cabeleira desgrenhada.

Era uma visão aterradora que Paganini gostava de perpetuar, atrasando o início do espetáculo com uma pausa de vários segundos. Mas, assim que encaixava o violino debaixo do queixo, o foco deixava a sua silhueta escanzelada e centrava-se na música e nos gestos arrebatados de fúria. 

Veloz como nunca antes visto

 

 

 

 Paganini usa técnicas e ritmos nunca antes vistos, deixando as plateias boquiabertas com as suas proezas 

Com os seus dedos finos e compridos como ponteiros de um relógio, Paganini conseguia tocar 12 notas por segundo, velocidade nunca alcançada antes ou depois dele. Não raras vezes, deixava o público estupefacto ao tirar uma tesoura do bolso e cortar três cordas do violino, continuando a improvisar unicamente com a corda sol.

Não é, portanto, do nada que tantos rumores surgem à volta dele. Paganini toca com entusiasmo e mestria de cortar a respiração. É divinal, acham uns. Ou diabólico, dizem outros. Nenhuma criatura de Deus conseguiria tocar assim. Só pode ter um pacto com o diabo para atingir tamanha perfeição. Aqui, em Paris, chamam-lhe de Cagliostro, um alquimista charlatão que diz ter poderes sobrenaturais.

Em Praga passou por judeu errante, figura mítica da tradição oral cristã, condenada a vaguear pelo mundo até ao fim dos tempos. Na Irlanda disseram que tinha chegado num Holandês Voador, um navio fantasma saído de lendas oceânicas que navega pelos mares sem nunca atracar em terra firme.

Sempre que chega a uma cidade, Paganini arrasta multidões, mas também ajuntamentos de beatos a protestar à entrada dos teatros e das óperas. Ganha fortunas com as tournées, mas não é o único a fazer dinheiro com a sua fama. Os comerciantes usam o nome dele para vender desde perfumes, pacotes de cigarros e até pares de botas.

A perseguição do diabo

 

 
 

 Se, no início, o violinista achou piada às fantasias do público, mais tarde fez de tudo para livrar-se da maldição 

A Europa só viria a descobri-lo já com 42 anos, ao dar um concerto memorável em Viena, em agosto de 1828. O espetáculo continuou por outras cidades da Alemanha, da Polónia ou do Reino da Boémia. Os públicos de Paris, de Londres e de Estrasburgo receberam-no logo a seguir com o mesmo entusiasmo. E a partir daí, a fama, mas também as lendas, acompanharam-no sempre, mesmo quando tentou livrar-se dessas histórias.

O que antes o ajudara a tornar-se numa celebridade virou, nos últimos anos, uma maldição que o enredou como uma teia de aranha. Talvez por ter nascido e crescido num meio católico ou por estar fraco e doente, já não achava piada aos delírios do público. 

Numa carta escrita a Luigi Germi, seu advogado e melhor amigo, confidenciou: «Lamento muito que a opinião geral entre todas as classes seja a de que estou em conluio com o diabo.» Chegou a publicar em revistas musicais vários desditos e até uma carta da mãe, Teresa Paganini, para demonstrar que fora gerado como qualquer comum mortal. Mas tudo o que fazia para contrariar essas ideias tinha o efeito contrário.

O raio do diabo não o largava nem por nada e acabou por desistir, pelo menos em vida: «Tenho uma esperança que depois da minha morte os caluniadores abandonem por fim a sua presa e aqueles que tão cruelmente vingaram os meus triunfos deixem as minhas cinzas descansar em paz», escreveu noutra carta publicada na imprensa francesa. A triste história deste homem é que nem a sua morte fez a lenda desaparecer.

Renegado até à morte

 

 As lendas continuaram muito depois da sua morte. Só agora a ciência descobriu a causa para o seu génio 

Quando morreu, a 27 de maio de 1840, doente com tuberculose, a igreja negou-se a sepultar o seu corpo num cemitério cristão porque ele recusara os sacramentos finais, pensando que a sua hora não chegara.

A decisão só fez crescer ainda mais o mito. Para uns, foi a confirmação do contrato com o diabo, para outros, a prova de que ele acreditaria piamente que seria imortal. Os seus restos mortais foram guardados até o filho, Achille Paganini, obter autorização do Papa para enterrar em 1896 o corpo do pai no cemitério Della Villetta, em Parma.

A lenda do diabo continuou por décadas e muito para lá da minha morte. Não é que os factos da minha vida sejam importantes, mas talvez seja de bom-tom apresentar-me aos leitores que andarão a questionar quem será o narrador desta história. Castil-Blaze, um vosso criado, além de estudioso e crítico de música. Nasci na região de Avignon e morri em Paris, quase 20 anos depois de Panganini e, até essa data, a memória dele permanecia ensombrada.

Só a ciência trouxe algumas respostas para a genialidade de Paganini. A medicina, em finais do século XIX, até evoluíra bastante com a descoberta de vacinas e de doenças como a Síndroma de Marfan, identificada em 1896 pelo pediatra francês Antoine Marfan. Mas, só muito recentemente, os investigadores começaram a ligar uma coisa à outra. Os sintomas encaixam-se na perfeição. A doença provoca o alongamento dos braços, das pernas ou dos dedos, esticando também outras partes do corpo como os pulmões, os olhos, o coração e os vasos sanguíneos.

As doenças, por regra, impossibilitam-nos de trabalhar, mas no caso de Paganini parece ter aprimorado ainda mais um talento já de si invulgar. Foi uma bênção, mas também uma assombração. O que fica no fim é a arte dele que o tornou imortal e inspirou outros grandes compositores como Liszt, Brahms, Rachmaninov ou Lutosławski. Isso é o que importa.

VÍDEOS

1 Caprice N.º 24 em A Menor

É considerada uma das peças mais difíceis alguma vez compostas para violino. Exige técnicas altamente avançadas como oitavas paralelas, arpejos, passagens rápidas de cordas ou pizzicato esquerdo.

https://www.youtube.com/watch?v=h6LKYiE0d9E

2 Perpetuela (Sonata Movimento Perpetuo)

O que é mais veloz do que uma bala, mais acelerado do que um foguete, ou mais rápido do que própria luz? Não, não é o Super-Homem. É Niccolò Paganini!

https://www.youtube.com/watch?v=xWrbeGYk498
Fontes consultadas: CarcasseMundo Laza FornazaWikipediaThe Famous PeopleIn Mozart’s FootstepsEncyclopaedia Britannica
Ilustrações

1 Caricatura de Hetty Krist, via wikimedia commons
2 Caricatura de autor desconhecido (1831)
3 Desenho de Leon Bakst do figurino que Gabriele d’Annunzio desenhou para Paganini vestir em «A Noite Encantada» – via wikimedia commons
4 Desenho de Richard James Lane, publicado em 1831, via National Portrait Gallery

 

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