Porque estamos tristes é uma boa resposta. Mas medo, ansiedade e raiva são argumentos igualmente válidos. Porque a saudade quase mata, temos de a incluir nesta lista. E o coração que, tantas vezes, quase rebenta de alegria? Mais um, bem visto, sim senhora. Como os nossos tecidos não são sintéticos, choramos também quando cortamos o polegar, partimos um osso ou levamos com um soco no estômago. É tudo? Calma…  Faltará, pelo menos, acrescentar que choramos a rir, agarrados à barriga e implorando por uma pausa só para respirar.

Causas há muitas. Muitas mesmo! Mas o motivo é só um. Os humanos são os únicos à face da Terra capazes de chorar. Chorar – entenda-se – é ter os olhos embaciados, as lágrimas a escorrem pela cara e o nariz mergulhado em lenços de papel. É a definição que importa aqui analisar.

A imagem é um bocadinho repulsiva, há que reconhecer, mas absolutamente necessária para nos distinguirmos dos chimpanzés. Os primatas também gritam de dor, de raiva ou de angústias. As únicas lágrimas que soltam, no entanto, são para limpar e lubrificar os olhos.

E nós choramos porque as emoções são próprias da natureza humana. Não nos é possível construir paredes de tijolo para bloquear os sentimentos. Nem guardamos no armário um colete à prova de choro para usar em casos de emergência. Ou sequer conseguimos encher a garganta de calhaus para impedir as lágrimas de escaparem.

Somos piegas, temos de aceitar o nosso destino. Ou melhor, a nossa condição de humanos.

Choramos ao ver que o melhor amigo de um velho cão é um gato vadio que o visita todos os dias. Choramos, nestes dias, porque queríamos estar com os nossos avós e com os nossos amigos e o raio do novo coronavírus não nos deixa sair à rua. Choramos quando ouvimos uma música bem lamechas. Choramos quando nos surpreendem com uma festa surpresa. Ou choramos quando um herói sem capa nem máscara (ou, melhor, agora com máscara cirúrgica) ajuda um estranho no meio de uma aflição. São tudo bons gatilhos para libertar, pelo menos, uma lagrimazita, certo?

Um sopro de alívio

@Rui Barros
 
Diamantina chorava tão bem que as pessoas vinham de longe e lhe pediam: ― Chore por mim, Diamantina.Mia Couto - As Lágrimas de Diamantina
 

Não há que ter vergonha. Dizem que rir é o melhor remédio para todo o tipo de males, o que também é verdade. Mas chorar é bom para libertar substâncias que reduzem o stress e a ansiedade, explicam os cientistas. É praticamente o mesmo que inspirar uma boa golfada de ar, desembaciar a vista, ganhar fôlego e recarregar as baterias. Além de, obviamente, manter os olhos lubrificados e limpos de partículas nocivas.

Mas isso pouco interessa aos psicólogos e antropólogos evolucionistas. Estes senhores e senhoras não estão muito interessados nos benefícios que o choro tem para cada um de nós. Não lhes levem a mal. A perspetiva deles é diferente da nossa.  Estão sempre à procura das funções que as emoções e os comportamentos desempenham para a humanidade e esquecem-se das necessidades individuais.

Por exemplo, se para nós o medo é, muitas vezes, provocado pelas nossas inseguranças, para os evolucionistas é uma reação para ajudar a proteger dos perigos que ameaçam a espécie humana. São assim estes investigadores, em vez de estudarem os motivos, estão sobretudo focados nas respostas que ajudam a humanidade a sobreviver.

Só que, mesmo neste capítulo, eles percebem muito pouco à cerca do choro.

Os processos fisiológicos ou as funções que as lágrimas desempenham para a continuidade da espécie são um quebra-cabeças difícil de desmontar.

O que nós sabemos, à custa de muitas lágrimas, é muito mais do que os investigadores descobriram sobre este mecanismo de sobrevivência, acreditem. O que há, por enquanto, é só uma mão-cheia de teorias.

Lágrimas no laboratório

@Rui Barros
 
O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia. O choro vem quase chorando como a onda que toca na praia.Cecília Meireles - Viagem
 

A tese de Oren Hasson é a que, até agora, reúne o maior consenso entre os seus colegas. O estudo do psicólogo evolucionista da Universidade de Tel Aviv, em Israel, sugere que o choro é um «comportamento evoluído» nosso para baixar a guarda. Ao mostrar o seu lado humano, quem chora dá um sinal aos outros de que precisa de ajuda. Muitas vezes, um abraço apertado é o suficiente. Outras vezes, será necessário paciência e doses sucessivas de miminhos até o mau bocado passar.

É caso para perguntar: foi preciso um estudo para chegar a esta conclusão? Pelos vistos, sim. Mas, a principal descoberta desta investigação está, mais uma vez, na função que este pedido de socorro desempenha na sobrevivência da espécie humana. A outra caraterística única do choro humano é a possibilidade de partilhar as lágrimas e o sofrimento com os outros. E é justamente isso que permite unir um grupo de amigos ou uma comunidade inteira, fortalecendo a coesão social – que é, ao fim e ao cabo, o que garante a nossa sobrevivência.

E, depois disto, dá mesmo vontade de voltar a perguntar: é preciso uma investigação para validar algo tão óbvio? Pelos vistos, sim, mas não vem mal nenhum ao mundo confirmar o que nós já desconfiávamos: chorar não é capricho dos mariquinhas. É o que, afinal, nos torna mais fortes. 😉

5 (in)certezas sobre o choro

Os animais também pedem ajuda

Apesar de não verterem lágrimas, os animais também pedem ajuda quando estão tristes ou ansiosos através de gemidos ou sons aflitivos. Estas vocalizações já foram observadas em chimpanzés, cães e até nos filhotes de passarinhos.

Rir também faz chorar

Os cientistas ainda não percebem muito bem porque isso acontece. O que se sabe é que, a mesma parte do cérebro que controla o choro é também responsável pelo riso. Uma das explicações é que as lágrimas são resultado de fortes movimentos, como é o caso das gargalhadas. São as chamadas lágrimas reflexivas, que resultam de fatores externos e não das emoções.

O gás por detrás do choro da cebola

A resposta para este tipo de choro está no sulfóxido de tiopropanal (também chamado de sin-propanetiol-S-óxido), um gás que a cebola solta quando é cortada e que, em contacto com os olhos, se transforma num ácido. Embora fraquinho, este gás provoca um ardor forte o suficiente para soltar as lágrimas. O que só piora a situação: quanto mais líquido há, mais ativo se torna o sulfóxido de tiopropanal. Uma dica para fugir a estas lágrimas é usar uns óculos de mergulhador. É uma triste figura, é certo, mas bem melhor do que chorar por causa de uma cebola.

O choro dos portugueses

O inquérito que o psicólogo Armindo Freitas-Magalhães publicou no seu livro «A Psicofisiologia do Choro: O Efeito das Lágrimas na Experiência Emocional» mostra que os portugueses choram, em média, duas a três vezes por semana.

As mulheres choram mais do que os homens

O estudo do holandês Ad Vingerhoets, publicado no livro «Why Only Humans Weep: Unravelling the Mysteries of Tears», sugere que as mulheres choram 30 a 64 vezes por ano, enquanto os homens choram 6 a 17 vezes por ano (pelo menos, é o que eles dizem). Uma das principais razões para esta diferença é o peso cultural que, ao longo dos séculos, transmite essa ideia parva de que «homem que é homem não chora».

Vingerhoets também estudou a duração média do choro através de um inquérito feito a 5 mil pessoas a viver em cerca de 30 países. E, mais uma vez, são as mulheres que ganham este campeonato: elas dizem que choram mais ou menos durante seis minutos e eles garantem que nunca demoram mais do que 2 ou 3 minutos. Será?

Se estás preparado/a para mais emoções fortes, experimenta ler também este artigo: «Quantos amigos conseguimos ter?»

Fontes consultadas: Live Science | Global Oup |