Em qualquer cidade, há sempre grandes avenidas com muitos prédios – uns antigos, outros não tão antigos, alguns bonitos, outros feios e outros nem bonitos nem feios. Quem apanha o metro ou o autocarro, entra no escritório ou sai de casa não repara nessas diferenças.

As pessoas descem e sobem a rua todos os dias sem virar a cabeça para cima ou para os lados. Ninguém vê os prédios bonitos. A não ser que haja um ou mais turistas pelas redondezas. Eles não têm pressa, nem hora para almoçar, chegar a casa ou ir trabalhar. Passeiam pelas cidades com o nariz no ar, tiram fotos e acham piada a tudo porque tudo é diferente: os azulejos nas fachadas, as portas de madeira trabalhadas, as floreiras, os estendais, os gatos à janela, as velhotas nas varandas.

E nós, que andamos todos os dias pelas nossas cidades, não reparamos no que está mesmo à frente (ou por cima) do nosso nariz. Às vezes, basta atravessar o passeio para descobrir uma nova perspetiva da rua que julgávamos conhecer de olhos fechados. Os lugares, os objetos, os sabores e até as pessoas quando se entranham nas nossas rotinas, tornam-se muitas vezes invisíveis. Entramos em modo automático e desligamos o sensor para aquelas coisas que sabemos estarem ali à mão todos os dias.

Quem se dá ao trabalho de sentir sabor da água da torneira? Seria preciso um paladar muito apurado para detetar o cálcio ou magnésio usados no seu tratamento, certo? Mas, quem diz a água, diz também o cheiro da roupa acabada de sair da máquina de lavar, os microtremores do metro a passar por debaixo da terra, os corredores de luz solar a atravessar a cozinha pela manhã, os arbustos floridos junto à estrada ou as janelas dos prédios iluminadas quando anoitece.

No dia-a-dia, essas pequenas coisas passam ao lado. Olhamos sempre para os mesmos sítios, repetimos mais ou menos os mesmos gestos, usamos as mesmas palavras e fazemos quase sempre os mesmos caminhos.

Há quem se levante da cama e a primeira coisa que faz é calçar as pantufas e correr para a casa de banho esvaziar a bexiga. Quem chegue a casa depois da escola e faça primeiro os TPC e depois vá lanchar. Quem beba um café em chávena escaldada depois do almoço. Ou quem leve o cão a passear sempre pelas mesmas ruas e sempre ao mesmo jardim (esperemos também que apanhe sempre os cocós que eles largam na rua).

É mesmo assim e nada de errado com isso. Há uma série de comportamentos programados no nosso cérebro para facilitar as decisões que precisamos tomar todos os dias. Que canseira seria todas as manhãs pensar se primeiro lavamos os dentes ou comemos o pequeno-almoço. Se tomamos banho de manhã ou à noite. Se calçamos as meias antes ou depois das cuecas. Ou ainda se vamos para a escola pelo caminho do jardim ou pelo caminho da padaria. Loucura, verdade? Agora imaginem como seria se tivéssemos de tomar estas pequeninas decisões do princípio ao fim do dia…

O nosso inconsciente usa os hábitos repetidos dia após dia para tomar esse tipo de decisões, libertando-nos para tarefas mais importantes como atravessar a estrada com cuidado, tomar atenção durante as aulas, fintar um colega ou uma colega e marcar um golo, não chegar atrasado ou atrasada a um compromisso e outras tarefas.

A vida todos os dias

 Se não tivermos cuidado, as rotinas adormecem os sentidos e deixam escapar as boas coisas da vida. 

As rotinas são muito úteis. Em alguns aspetos, tão úteis como as secretárias e os secretários administrativos que organizam o dia-a-dia de escolas, de instituições ou de empresas. Só que é preciso cuidado para não deixar adormecer os sentidos por essas mesmas rotinas. Elas criam uma falsa sensação de monotonia, deixando escapar aqueles detalhes que, à primeira vista, parecem insignificantes.

E, depois, só damos por falta delas quando acabam ou são interrompidas. Imaginemos que, por absurdo, os nossos avós decidem que já somos crescidos para nos lambuzarem com aqueles beijinhos sonoros e melosos? Ou que o Jacarandá da nossa rua adoecesse e tivesse de ser cortado? Ou que o café da Alzira, na esquina do bairro, fechasse para sempre.  Como diz Winnie the Pooh, esse grande sábio da literatura infantil, «as coisas pequenas são aquelas que ocupam mais espaço no nosso coração.»

Só que as coisas pequenas desaparecem num instante. Não lhes prestamos a devida atenção porque desconfiamos que estão sempre a repetir-se. Não escutamos os passarinhos pela manhã, não damos grande importância aos sorrisos de bom dia, de boa tarde e de boa noite que nos oferecem a torto e a direito, não perdemos tempo a olhar o céu estrelado na varanda ou não saboreamos demoradamente os ovos mexidos ao pequeno-almoço dos sábados.

Que importância têm essas miudezas? Muita, por acaso. Experimentem pensar em todas as boas miudezas que acontecem todos os dias ou quase todos os dias. Agora imaginem viver sem elas.

Podemos até programar o nosso cérebro para tomar decisões simples, mas não somos robôs. Sabemos que a vida é feita de momentos grandes, mas principalmente de infinitos momentos pequeninos. É preciso, por isso, estar atento: nunca se sabe quando o melhor momento das nossas vidas está mesmo à frente do nosso nariz.

 

Já que estamos a falar de nariz, mete o bedelho também nestes dois artigos: 

Porque cheiram tão bem os livros?

Porque dão os esquimós beijinhos com o nariz?