Até parece que o tempo faz de propósito. Quando queremos que corra, arrasta-se como um condenado a riscar os dias no calendário. Esperamos pelas férias e elas nunca mais chegam, por um amigo, 10 minutos atrasado, mas mais parece meia-hora. Vinte minutos na cadeira do dentista é uma eternidade. O mesmo no sentido contrário. Damos tudo para o tempo parar, mas ele escapa sem que o consigamos agarrar. A festa acabou e soube a pouco, uma manhã de praia que voou ou pipocas e algodão doce na feira dos livros que se evaporaram.

As horas, os minutos e os segundos são elásticos e têm várias velocidades. Uma coisa é o tiquetaque que nunca pára e outra é como sentimos o tempo a passar. Por quais destes relógios devemos então acertar os nossos ponteiros? Bom, não podemos esquecer que as horas são para respeitar: o toque de entrada na escola (e do recreio!), a pausa para almoço e jantar, a hora de ir para a cama e por aí fora.

Mas, quem julga que o tempo é um ditadorzinho a impor onde devemos estar, com quem e o que fazer, está enganado. Sem nós, ele não é nada.

O tempo é sobretudo algo que acontece na nossa cabeça. Parece um disparate? Pois, mas é isso mesmo que diz Carlo Rovelli, o físico italiano que anda nas bocas do mundo com o seu best-seller «A Ordem do Tempo».

Ao ler o livro dele, o Bicho-que-Morde descobriu que, afinal, não são as leis da física que regulam o ritmo do tempo. É sim o cérebro com a sua capacidade de criar memórias e expetativas em relação ao futuro.

O tempo nem sequer está ligado à realidade. Pelo menos à realidade que acontece longe da Terra. Na vastidão do Universo, as suas regras não se aplicam porque tudo está em permanente transformação, acontecendo a uma velocidade que não conseguimos registar e nem sequer temos consciência.

O tempo não tem sentido no Universo

Charles Robinson (1896)

 O tempo ajuda a organizar o mundo, mas longe da Terra, não há passado, presente ou futuro. 

Ninguém consegue acompanhar a transformação de uma pedra, de um meteorito ou de um planeta, desde que é poeira até à sua formação grão a grão, camada a camada. É um processo que demora milhares de anos, mas na lógica do Universo o tempo não tem sentido. Uma pedra, um meteoro ou um planeta é apenas uma pedra, um meteoro ou um planeta em mutação contínua e a caminho de alguma outra forma.

Se o tempo para nós parece uma sequência ordenada de acontecimentos é unicamente porque vivemos neste planeta, explica Rovelli. A Terra gira à volta do Sol, fixando os dias e as noites numa sucessão que parece caminhar do passado ao presente.

O Universo, contudo, é muito mais complicado do que uma simples linha cronológica. Basta contemplar uma noite estrelada para entender que não há distinção entre presente, passado e futuro.

Quantas estrelas vemos a cintilar no céu? Destas, quantas, já nem sequer existem, embora o brilho delas continue a chegar ao nosso planeta?

A luz que se vê da Terra quando se olha para uma estrela que já não existe é um acontecimento do passado que acontece no nosso presente, transmitindo algo a uma distância de 100, 200 ou mais anos-luz.

Bizarro, não é? Mas, com as devidas distâncias, é mais ou menos isso que acontece também quando, por exemplo, a televisão transmite «em direto» a noite dos óscares de Hollywood.

Em Los Angeles, na Califórnia, a cerimónia começa às 6 horas da tarde, mas, neste lado do mundo, já é uma da madrugada. Significa que, para nós, a entrega dos prémios no Dolby Theatre tem início 7 horas mais tarde.

E isso sem contar com o tempo necessário para as câmaras captarem as imagens, transmitirem-nas por cabo (ou por satélite) até serem capturadas pelo nosso ecrã de televisão, processadas no nosso cérebro e chegarem por fim aos nossos olhos.

Sim, é verdade, tudo isso é super-rápido, cerca de um milissegundo de diferença. Ainda assim, demora o seu tempo e o «agora» que os espectadores em Portugal veem «em direto» pela TV já não é o «agora» transmitido em direto de Hollywood.

O tempo nas montanhas

Arthur Hughes (1893)

 O relógio acelera se estiver no alto e abranda se estiver em baixo, onde a gravidade é mais intensa. 

Este é só um ínfimo exemplo que nos faz pensar como o tempo é relativo e nem sequer passa à mesma velocidade em todo o lado. Há lugares onde ele, de facto, passa mais depressa e lugares onde demora a passar.

Albert Einstein chegou a essa conclusão há 100 anos, mas, não tendo instrumentos para comprovar a teoria, usou a imaginação para presumir que, tal como o nosso corpo dentro de uma piscina desloca e retarda o movimento da água em seu redor, também o Sol e a Terra ao movimentarem-se modificam o espaço e desaceleram tempo à sua volta.

Da mesma forma, Einstein estimou que, quanto mais próximo se está da Terra, mais o tempo custa a passar. E quanto mais longe, mais depressa se move o tempo. Foi preciso esperar quase um século para essa teoria ficar finalmente comprovada em laboratório.

Em 2010, os físicos do Instituto Nacional de Tecnologia em Boulder, no Colorado (Estados Unidos), usaram relógios atómicos para confirmar que os ponteiros correm a velocidades diferentes quando estamos parados ou em movimento. E até quando o nosso apartamento fica no primeiro ou último piso do prédio.

Os ponteiros rodam mais depressa se estiverem no alto e abrandam se estiverem em baixo e mais próximos da Terra, onde a gravidade é mais intensa e maior é a tração que exerce à sua volta.

Um relógio no chão corre mais devagar do que um relógio em cima de uma mesa. Em baixo, aliás, tudo é mais lento do que em cima.

O tempo passa mais rápido nos picos das montanhas do que ao nível do mar. E, como tal, quem o vive na Serra do Marão envelhece mais depressa do quem vive nas planícies do Alentejo. O mesmo se aplica a quem mora no rés-do-chão e no último andar de um edifício.

As velocidades do tempo

John Tenniel (1865)

 O tempo na cabeça corre mais depressa do que aos nossos pés. O efeito só é percetível nos relógios de alta precisão. 

E até as diferentes partes do nosso corpo envelhecem a ritmos diferentes, consoante a distância que estão do chão. O tempo nas nossas cabeças corre mais solto do que aos nossos pés. O efeito é mínimo e só é percetível quando os físicos usam relógios atómicos para fazer os cálculos. A diferença a um metro de altura em 100 anos seria cerca de 100 nanossegundos, ou seja, cem bilionésimos de segundo.

Seriam precisos, por exemplo, um milhão de anos a viver numa torre de 800 metros para ficar apenas alguns segundos mais velho do que os que vivem numa casa à beira-mar. São quantidades muito pequenas, é certo, mas a diferença está lá.

***

John Tenniel (1865)

_Quanto tempo é para sempre?” – Pergunta Alice.
_Às vezes, apenas um segundo – responde o Coelho Branco

«As Aventuras de Alice no País das Maravilhas» (1865), Lewis Carroll

Segue a espiral do tempo e carrega com o cursor no sinal [+] para ler a legenda de cada época. Usa as duas setas no canto inferior direito, se quiseres ampliar o painel.

Atenção: esta apresentação só resulta em pleno no desktop, portátil e tablet. Em alguns smartphones, os textos podem aparecer cortados.