O que se passa na cabeça de um burro quando empaca a meio do caminho? O dono bem pode puxar pela trela durante horas que o animal não se mexe nem um milímetro. E quem achar que resolve o assunto com umas palmadas ou um chicote, leva um coice tão grande que então é que não vai a mais lado nenhum.

É este feitio danado que fez com que o burro e a mula ganhassem fama de casmurros e de estúpidos. A má reputação vem de tão longe que se perdeu no tempo, mas continua bem viva nos ditados populares. Vozes de burro não chegam ao céu, burro velho não aprende línguas, andar de cavalo para burro ou dar com os burros na água. Nada disso é abonatório para este animal, que não merece ser destratado desta maneira.

Somos apressados a criticar o burro, sem parar para pensar que ele pode ter os seus motivos para se recusar a fazer tudo aquilo que o dono quer.

Essa teimosia, na verdade, não é mais do que uma tentativa para evitar o perigo. Os zoólogos dizem que o burro tem um sentido apurado de autopreservação. Se no caminho surge um obstáculo que eles julgam impossível ultrapassar, então não arredam o pé na sua estratégia de defesa.

Parece perfeitamente razoável, certo? Seria o mesmo que alguém nos dissesse para percorrer um caminho à beira de um penhasco, passar uma ponte periclitante ou atravessar um rio cheio de correntes traiçoeiras. Quem é o corajoso que avança sem hesitar? O burro até é capaz disso, mas primeiro precisa de confiar no seu dono. Com os humanos também não é diferente. Se tivermos ao nosso lado alguém em quem confiamos, sabemos que estamos seguros.

Cautelas de burro não são para ignorar

 O burro empanca ao pressentir perigo no caminho e só vence o medo quando confia no dono. 

E para confiar é preciso tempo. Os burros têm uma excelente memória e guardam tudo, as boas e as más experiências, que depois vão condicionar o seu comportamento. Por isso, se o dono quer um animal obediente, terá de provar que gosta dele e que tudo fará para o afastar dos caminhos perigosos.

Conquistada a confiança, os burros entregam-se de corpo e alma à sua missão. Trabalham que se fartam, percorrem centenas ou milhares de quilómetros com o dorso carregado de fardos sem nunca se queixarem. Não é por acaso que foram dos primeiros animais de carga a serem domesticados, há cerca de cinco ou seis mil anos, no continente africano.

Foi o burro e não o camelo, por exemplo, que, há cinco mil anos, abriu o caminho pelo deserto do Saara, permitindo o comércio entre o Egito e a Mesopotâmia – corresponde hoje a partes do território do Iraque e do Kuwait, além de zonas orientais da Síria e regiões fronteiriças entre Turquia e Síria e Irão e Iraque.

Os burros foram os pioneiros das rotas comerciais de longa distância, embora nenhum animal sozinho tenha feito estes trilhos do princípio ao fim.

A mistura de raças, aliás, começou durante esses trajetos, com acasalamentos não planeados, dando início à diversidade de espécies que hoje temos.

Os egípcios ficaram tão gratos aos burros que lhes concederam a maior das considerações. As sepulturas descobertas em 2002, próximo da cidade de Abydos, no Nilo, são a prova de que estes animais tinham estatuto igual à dos altos funcionários encarregues de controlar o sistema judicial ou cobrar os impostos. Dez esqueletos de burros foram encontrados em câmaras funerárias estrategicamente ligadas ao túmulo de um dos primeiros reis do Egito, mostrando como eram tão importantes.

O pioneiro no deserto do Saara

 O burro abriu o comércio entre o Egito e a Mesopotâmia. Os egípcios ficaram-lhe tão gratos que os sepultaram junto ao rei. 

A capacidade de trabalho do burro tornou-o também popular no Império Romano, que o usava principalmente nas vinhas, algumas plantadas até ao norte de França e da Alemanha. Na Grécia foi igualmente considerado o melhor animal para carregar cachos de uvas nos estreitos caminhos entre as videiras. O seu uso para o cultivo em vinhedo espalhou-se depois pelos países do Mediterrâneo, como Itália e Espanha.

Mais do que um bom vindimeiro, o burro é um camponês robusto pronto para qualquer tarefa agrícola. Foi assim que ele entrou nas povoações rurais, em Portugal. Mas, apesar da sua enorme importância para a economia do Interior, foi durante séculos considerado como o parente pobre do cavalo.

Só assim se justifica não ser tão estudado como o seu primo afastado. Nem sequer conseguimos conhecer que percursos teve para dar origem às raças que hoje habitam o território português. O pouco que se sabe é que o burro mirandês, raça originária dos concelhos de Miranda do Douro e parte de Mogadouro, é proveniente do tronco europeu Zamorana-Leonesa.

É principalmente o pelo que o distingue de todos os outros burros. A pelugem cumprida e grossa de cor castanha escura (com exceção para as três manchas brancas à volta do focinho e dos olhos), é o que lhes permite enfrentar a terra fria transmontana. Ele foi durante muito tempo usado como animal de transporte de carga e de pessoas, assumindo um papel tão importante que as feiras de burro eram um dos grandes acontecimentos das vilas e aldeias da região.

Hoje, tal como acontece com as restantes raças, os burros de Miranda perderam o seu estatuto no campo, com o uso das máquinas agrícolas.

Mas, ao contrário de boa parte de outras raças -, esquecidas com a vinda de camiões, comboios ou barcos de carga -, estes animais têm vindo a ser, nos últimos anos, mais valorizados pelos mirandeses. A sua preservação é aliás considerada um grande trunfo no ecoturismo ligado à conservação da natureza e património cultural.

O guardador de rebanhos

 Se tiverem sob o seu cuidado ovelhas ou vacas, os burros são capazes de virar feras para os proteger. 

Os mirandeses estão a perceber que o seu fiel companheiro de trabalho não serve apenas para transportar carga e é tão inteligente que se adapta ao mundo moderno. Quem se der também ao trabalho de conhecê-los melhor, verá que continuam tão úteis como antes.

Nos últimos anos, têm sido usados na Europa ou nos Estados Unidos para proteger o gado e os rebanhos, tal como já acontece há mais de um século em países africanos como a Namíbia.

Se tiverem sob a sua responsabilidade ovelhas, cabras ou vacas, são capazes de virar autênticas feras para os defender. Como são também meigos e pacientes, tornaram-se nos melhores terapeutas de qualquer humano que precise dos seus cuidados para recuperar as capacidades sensoriais, emotivas, motoras ou sociais. A sua técnica é tão eficaz que ganhou o nome de asinoterapia.

Não é qualquer um que se torna um especialista nesta terapia, só mesmo o burro tem as qualidades certas. Temperamento dócil, excelente memória, forte, estável a nível físico e emocional e com movimentos lentos e seguros. Digam lá quem se atreve agora a chamá-los de casmurros e estúpidos? Pois, bem parecia…

Duas perguntas essenciais para fazer aos burros

1 – De onde vêm e onde vivem?

Nós pertencemos à família dos equinos e temos como parentes próximos o cavalo e a zebra, mas separamo-nos destes dois grupos há qualquer coisa como quatro milhões de anos. Somos conhecidos por sermos animais resistentes, podendo viver entre 20 a 30 anos e em qualquer parte do planeta. As regiões mais frias, contudo, são mais agrestes e, como tal, já não é tão comum encontrar familiares nossos.

2 – Quantos burros há no mundo?

Não é muito fácil saber ao certo, mas uma contagem feita pela organização do Reino Unido, Santuário do Burro, diz que juntos somos à volta de 50 milhões de burros. Apesar de parecermos muitos, os de raça pura são mais raros, com vários à beira da extinção. É o caso das 17 raças oriundas da Europa, que nos últimos 20 anos tiveram um declínio de 50% nas suas populações.

O burro de Miranda não é exceção, correndo o perigo de desaparecer nos próximos 50 anos, segundo uma investigação da Universidade dos Trás-os-Montes e Alto Douro. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, o burro selvagem africano está criticamente em perigo e o asiático está classificado como quase ameaçado.

 

 

Se tens um carinho especial pelos animais mal-amados, espreita o artigo: «Porque gostam os abutres de cadáveres?»

 

 

 

Ilustrações: The runaway donkey, and other rhymes for children (1905) de Emilie Poulsson, 1853-1939

Fontes consultadas: Santuário dos Burros | Live Science | The New York | Observador