Quem quiser mesmo contar quantas rugas têm os avós, vai ter de seguir estas linhas com os olhos ou com o indicador. Todas juntas, formam um labirinto. São confusas, é verdade, mas há uma razão para estarem desalinhadas: elas guardam, misturam e marcam todas as histórias na pele. Tantas são as experiências, que transbordaram e se espalharam pelo corpo, desenhando rios, ondinhas na praia, sorrisos rasgados ou olhos tristes.

Na hora de encarar as rugas, toda a gente diz o mesmo. Já tem barbas brancas essa velha história de que cada ruga conta uma história. Toda a gente está careca de saber que elas são sinais de que estamos a ficar mais velhos. À medida que a idade avança, a produção de colagénio diminui, tornando a pele mais fina, menos elástica e… com rugas.

Essa é a explicação científica. Agora vamos à versão original. Essa mesma, com barbas brancas e tudo. Não é por acaso que toda a gente a conhece. Por mais rigorosa que a ciência seja, ela nem sempre conta a história toda.

Aqui, entre nós – e, aproveitando que os cientistas estão ocupados com o coronavírus -, convém esclarecer uma coisa:

há detalhes muito importantes que nem a observação microscópica nem as fórmulas matemáticas são capazes de descobrir.

É que, para os dermatologistas, as rugas têm nomes que não lembram a ninguém – periorais (ao redor da boca) ou periorbitais (pés de galinha). E tanto podem ser dinâmicas (de expressão) como estáticas (envelhecimento natural). Para a ciência, as rugas são vincos, são veios ou são pregas a enrugar a pele.

É tudo muito educativo, sim senhora, mas basta prestar atenção para saber que elas são mais do que isso. Observem-nas de perto. Peçam ao avô ou à avó para estender o braço, ou levantar o pescoço, ou simplesmente mostrar a testa e as mãos.

Vão ver que as rugas são linhas, desenhando rios, montanhas, ondinhas na praia, caminhos estreitos por entre a floresta, sorrisos rasgados ou bocas tristes. Quem quiser mesmo contar quantas rugas têm os avós, vai ter de seguir estas linhas com os olhos ou com o indicador, tanto faz. Qualquer que seja o método, o resultado é o mesmo. Todas as linhas vão dar a lugar nenhum.

Um labirinto de rios e montanhas 

 As rugas estão desalinhadas porque guardam, misturam e marcam todas as histórias na pele. 

As rugas todas juntas são um labirinto. Não têm entrada nem saída, tanto descem como sobem, inclinando para a direita, mas também virando para a esquerda. São confusas, é verdade, mas há uma razão para estarem desalinhadas: elas guardam, misturam e marcam todas as histórias na pele.

Se afastarem os olhos para terem uma perspetiva aérea, vão perceber que, vistas do alto, as rugas são um mapa. Está lá tudo cartografado, como uma linha do tempo para que nada fique esquecido. Os lugares onde se esteve e tudo pelo que já se passou. Elas mostram-nos que a vida não é somente o que acontece agora, mas já aconteceu e está sempre a acontecer.

Rugas à volta dos olhos indicam risadas, muitas risadas – com as primeiras traquinices dos filhos, as proezas dos netinhos, os abraços dos amigos, as festas, os piqueniques e as almoçaradas em família. Risotas de manhã, à noite, com e sem hora marcada.

Rugas na testa mostram preocupações, muitas preocupações. Noites em branco por causa de febres, viroses, otites e alergias da criançada. Coração apertado porque o dinheiro não esticava, a saúde não ajudava e o filhote não estudava.

Pregas no pescoço por choros, erros e arrependimentos. E vincos nos braços pelo cansaço com o trabalho ou com as dores no corpo. Sol na praia e poluição na autoestrada também deram o seu contributo, é preciso não esquecer.

Todos colecionamos histórias, os avós é que começaram mais cedo.

Acumularam tantas que transbordaram e se espalharam pelo corpo, abrindo rios, vales, montanhas, alegrias e tristezas.

Há quem tenha horror à pele enrugada. Ao primeiro sinal, usam cremes de manhã, à noite, ao redor dos olhos, nas bochechas, no pescoço e em movimentos circulares. Ou então correm ao cirurgião para lhes fazer um peeling, injetar um botox ou receitar umas vitaminas.

O ritmo lento das rugas

 É precisamente por causa das rugas que o teu avô e a tua avó conseguem dizer que «vai passar» quando estás a chorar. 

Nada contra a pele lisa e macia. E nada contra quem não gosta de rugas. Nada mesmo. Mas é precisamente por causa delas que o teu avô e a tua avó conseguem dizer que «vai passar» quando estás a chorar. Ou que errar não é o fim do mundo se servir para aprender. Ou, então, que muitos dos nossos dramas são pequenos nadas quando temos colo e amor.

As rugas não surgem da noite para o dia, demoram anos a aparecer. Mas quando chegam, trazem finalmente a lentidão, um luxo neste mundo stressado e maluco dos adultos. Aproveitem, por isso, a lentidão dos avós.

Passem uma tarde com os avós a conversar só por conversar, a jogar no tabuleiro ou a escrever com papel e caneta. Os teus avós podem ser mais velhos do que tu, mas quando estão felizes, o riso é o mesmo de quando eram crianças.

Aqui fica mais uma sugestão de leitura: «Quantas memórias cabem no cérebro?»