Para quem sente na pele a dor de uma ferida, a recuperação pode demorar uma eternidade. Mas se o tempo cura todos os males, as feridas também precisam de tempo para cicatrizar.

Um corte ou uma queimadura é muito mais do que um golpe ou um rasgão à superfície. São tecidos e vasos sanguíneos que ficaram danificados e precisam de ser reconstruídos. É um processo complicado, envolve vários tipos de células a trabalhar em simultâneo ou em etapas a variar entre segundos e meses. Em média, duas semanas é o que o nosso corpo pede para limpar, tratar e fechar uma lesão.

Esse tempo pode, no entanto, variar, dependendo da gravidade do ferimento, da idade, do estado de saúde ou até mesmo se o acidente aconteceu de dia ou de noite. Sim, leram bem, se nos magoarmos durante o dia, o nosso corpo responde duas vezes mais rápido do que quando é de noite. A descoberta foi feita por investigadores ingleses em 2017 depois de monitorizarem a velocidade de cicatrização em ratinhos e humanos.

As queimaduras noturnas (ocorridas entre 20h00 e 8h00) levaram 60% mais tempo para cicatrizar e só ficaram curadas ao fim de 28 dias.  Em contrapartida, as que aconteceram durante o dia sararam em 17 dias.

 Nas horas de maior claridade, as células movem-se mais depressa para a zona da ferida e são mais rápidas a repará-las

Diversas proteínas envolvidas como, por exemplo, a actina demoram menos tempo a atuar durante o dia. Do mesmo modo, o organismo deposita na zona afetada uma maior quantidade de colágeno, a principal proteína reparadora da pele.

A explicação para esta diferença entre o dia e a noite está no relógio biológico. Ele tem ciclos de 24 horas e regula o sono, as horas das refeições ou a secreção de hormonas. É um mecanismo que todos os seres vivos têm para ajustar as funções do corpo às mudanças do dia ou das estações do ano.

Na verdade, existem vários relógios, o principal está no cérebro, alojado no hipotálamo. É ele o grande relojoeiro que sincroniza os outros relógios mais pequenos plantados em todos os órgãos, tecidos e células. Como as células têm maior atividade nas horas de luz solar, o nosso corpo também se cura mais depressa durante o dia. O que faz sentido, pois é quando estamos mais ativos e é maior a probabilidade de os ferimentos ocorrerem.

Viagem completa à cicatrização de uma ferida

De cada vez que uma parte do corpo se magoa, um exército de plaquetas, anticorpos, nutrientes, proteínas, enzimas ou glóbulos brancos vêm em nosso socorro. Juntos coordenam esforços para estancar o sangue, limpar e combater as bactérias, regenerar e fortalecer os tecidos e, por fim, fechar a ferida.

O Bichinho das Contas vestiu um impermeável e entrou no polegar cortado de um cozinheiro com azar. Se vocês também estiverem curiosos venham daí, há lugar para mais alguns. Vestiam os fatos especiais e preparem-se para uma alucinante viagem.

Há quatro paragens pelo caminho, mas nem sequer dá tempo para respirar. Mal acaba uma etapa, começa logo outra ou, então, nem sequer uma etapa está terminada e já outra tem início. Apertem os cintos, não percamos mais tempo, que o desgraçado do cozinheiro está aflito.

FASE 0 – Hemostasia

Início e duração estimada Inicia-se no momento da lesão e pode prolongar-se até 72 horas.

Mantenham os cintos apertados porque vão sentir um ligeiro abanão. Não se assustem, é apenas um espasmo vascular. Os vasos sanguíneos danificados contraíram-se diminuindo, assim, o fluxo sanguíneo para começar a travar a hemorragia. Não é muito diferente do trabalho de um canalizador chamado de emergência por causa de uma inundação na cozinha. A prioridade é cortar água e vedar a rotura. É mais ou menos isso que acontece na fase da hemostasia.

Com a hemorragia estancada, são as plaquetas a assumir agora o controlo. Chegam rapidamente e em abundância, alojando-se junto à ferida. Expandem-se e, logo de seguida, formam uma cobertura pastosa – trombo plaquetário – que bloqueia todas as saídas. Uma série de proteínas, adormecidas na circulação sanguínea, acordam e dão início à coagulação do sangue, que vai deixando de ser líquido para se tornar gelatinoso.

FASE 1 – Inflamação

Duração estimada  Entre 48 e 72 horas.

A brigada de intervenção rápida parou a hemorragia, mas agora é que o corrupio vai começar. As células essenciais – anticorpos, nutrientes ou células brancas – deixam os seus quartéis e dirigem-se em marcha de emergência para o local do sinistro. A missão é preparar a cicatrização propriamente dita.

Há muitas tarefas a acontecer em simultâneo, mas o palco pertence sobretudo a dois batalhões de leucócitos (ou glóbulos brancos): os neutrófilos e os macrófagos. Ambos estão munidos de retroescavadoras, pás e contentores de lixo para remover os tecidos desvitalizados, defender as células de bactérias e preparar a ferida para receber a cobertura definitiva.

Com a limpeza feita, os neutrófilos desaparecem ou são engolidos pelos macrófagos que continuam o trabalho de limpeza e convocam outras células para a fase seguinte. Por esta altura, o cozinheiro começa a sentir uma comichão no polegar. Apetece-lhe tirar a ligadura e esgravatar a crosta, mas contém-se porque sabe que os sintomas são normais e significam que a cicatrização está a fazer o seu caminho.

FASE 2 – Proliferação/Reparação

Início e duração estimada Começa aproximadamente entre 4 a 12 dias após a lesão e dura entre 12 e 14 dias.

Por volta do terceiro ou quarto dia após a lesão, começa uma intensa movimentação de células especializadas na reparação de tecidos e vasos sanguíneos. Saem de todo o lado e concentram-se na zona envolvente da ferida. São como formiguinhas operárias, levam consigo materiais de construção e trabalham sem pausas. O objetivo é regenerar os vasos sanguíneos e linfáticos para que o sangue volte a circular sem obstáculos e as defesas do organismo possam recuperar e combater infeções.

Se as lesões forem profundas ou extensas, as células constroem uma barreira protetora que pode demorar várias semanas a ficar concluída. Mas, se os estragos não forem muito graves, as camadas normais da epiderme são restauradas em três ou quatro dias. É o tempo que elas precisam para construir um novo tecido e uma nova rede de vasos sanguíneos.

FASE 3 – Maturação

Tempo estimado Duração indeterminada, podendo prolongar-se por anos.

Esta viagem está a chegar ao fim. Não é que o processo de cicatrização esteja concluído, mas as coisas agora são muito mais lentas e o Bichinho das Contas tem mais que fazer. O corte no polegar está oficialmente fechado e o cozinheiro já consegue usar todos os dedos para trabalhar. Nesta fase, é só deixar a natureza seguir o seu curso.

O processo pode demorar entre alguns meses a muitos anos, dependendo da gravidade da ferida. O importante é deixar o tecido amadurecer lentamente até ficar outra vez forte e resistente.

Fontes consultadas: NewsScientist | Enfermagem Esquematizada | Vuelvo Pharma | Advence Tissue (1) | Advence Tissue (2) |