A pergunta põe-nos a pensar quantos e quem são os nossos amigos. Haverá, talvez, um ou mais gabarolas a dizer que são uns 300, 400 ou mais até. E outros tantos a esforçarem-se para preencher os dedos de uma só mão. A quem, entre estes dois extremos, já está a pensar que pertence ao primeiro ou ao segundo clube, os cientistas avisam: sejam as pessoas mais ou menos populares, o número raramente ultrapassa a meia dúzia. Muitas vezes, nem isso. Se formos rigorosos, a conta fica algures entre 5 e 8.

O nosso coração até pode ser enorme e espaçoso como um hotel de 100 pisos e a nossa vontade mais elástica do que o estômago de uma baleia. O problema é o nosso cérebro. Ele tem um espaço limitado. Só há lugar para poucos. Mas bons.

A esta altura, já haverá uns quantos a pensarem que tudo isso não passa de conversa da treta. Então e os miúdos e as miúdas rodeados de amigos na escola ou no bairro? E as festas de aniversário? Algumas até têm de ser organizadas em jardins e pavilhões porque são tantos os convidados que não há casa grande o suficiente para pô-los todos lá dentro.

Ok, há uma certa dose de razão nesses argumentos. Na verdade – dizem mais uma vez os cientistas – os amigos do peito, ou seja, aqueles capazes de tudo para nos ver felizes e vice-versa, são cinco, um pouco mais ou um pouco menos. Mas há muitos outros de quem gostamos. São aqueles com os quais passamos um bom bocado à conversa ou na brincadeira, mas depois somos capazes de estar semanas ou meses sem os ver.

Os quatro círculos de amizade

 Por não conseguir dar a mesma atenção a todos, o cérebro arranja círculos especiais para cada tipo diferente de amizade. 

Sim, estes também podem ser chamados de amigos, mas é preciso separar as águas. Neste caso, os círculos para usar o termo científico correto. Todos nós podemos ter dois ou mais círculos de amizades, segundo o modelo de Robin Dunbar, antropólogo e psicólogo evolucionista da Universidade de Oxford. Um interior – onde estão os tais 5, 4, 3, 2 ou apenas 1 amigo. E três externos onde cabe muita mais gente.

Se o primeiro nível é para o grupo de cerca de 5 amigos próximos, o nível seguinte é para as cerca de 15 pessoas com as quais também partilhamos confidências. Ao descer mais um patamar, encontramos outros 50 amigos num outro círculo e com as quais nos encontramos algumas vezes por ano. No último nível, o círculo mais largo de todos com aproximadamente 150 amigos ocasionais.

Fora destes círculos estão os conhecidos, que podem ser à volta de 500. E, finalmente, aquelas caras que já vimos em algum lugar, mas não estamos bem a ver onde, e que podem ser até 1500 rostos, o máximo que o nosso cérebro consegue identificar.

É claro que estes números podem variar, dependendo da idade e do feitio de cada um. Há quem tenha mais amigos e quem tenha menos amigos. Mas AMIGOS DO PEITO é que não são mais do que meia dúzia ou nem tanto. O nosso cérebro é como uma mochila de tamanho único. Há um momento em que não é possível enfiar nem mais um lápis lá dentro. Se quisermos mesmo guardar um novo amigo especial, alguém vai ter de saltar para o círculo seguinte. É cruel, mas é mesmo assim.

Novos e velhos amigos

 À medida que crescemos, conhecemos mais pessoas e a atualizamos o catálogo das nossas amizades. 

À medida que crescemos, vamo-nos apercebendo que há qualquer coisa de verdade nisso. Perguntem aos vossos pais o que é feito dos amigos deles da infância. Uns mudaram de escola e desapareceram. Outros mudaram de cidade ou de país e também desapareceram. Alguns é bem provável que, depois de adultos, tenham deixado de ser interessantes.

Há bastantes motivos para os amigos ficarem pelo caminho. A principal razão é que estamos sempre a conhecer mais e mais pessoas, no trabalho, nas festas, nas casas dos amigos, a passear o cão, a viajar, no ginásio, enfim, oportunidades não faltam. Quando um amigo entra, por exemplo, no círculo interior, há outro que sai, ocupando um lugar num dos círculos exteriores.

E há um único motivo para não conseguirmos ter 20, 30 ou mais amigos no nosso círculo mais íntimo. Só um ou dois grandes amigos dá trabalho. E muito. É preciso estar por perto nas horas alegres, mas também nas horas tristes. É preciso ajudar, nem que seja só com um abraço apertado (é o suficiente, muitas vezes). É preciso aceitar que eles não são perfeitos e que, tal como nós, têm também dias maus. É preciso bastante empenho, razão pela qual o nosso cérebro não consegue despender tanta energia, procurando assim concentrar o esforço em poucos.

Amizades que nunca se esquecem

 Há amigos que nunca mais vemos, mas deixam marcas. Um dia, algo far-nos-á lembrar dele. 

É verdade que os amigos e as amigas podem desaparecer e não deixar rasto. Mas o tempo que passarem juntos deixará marcas. Há uma parte dele ou dela que fica contigo. E uma parte tua que o teu amigo ou amiga leva com ele ou com ela.

Um dia, algo te fará lembrar da vossa amizade. Uma pessoa, uma comida em particular, uma frase solta ou um lugar – é o suficiente para saber que, sem ele ou ela, a tua vida teria tido muito menos piada.

Não nos esqueçamos também que há amigos capazes de sobreviver a tudo. Amigos que crescem connosco e ficam cada vez mais próximos, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância. Mas, agora, não vale a pensar se será o Manuel, a Anabela, a Catarina, o João ou outro amigo ou amiga com um nome diferente. Podem ser todos até, nunca se sabe.

Como é impossível adivinhar, o melhor é aproveitar enquanto a amizade dura. Venha ela de 5, 4, 3, 2 ou um único amigo. Se é AMIGO, AMIGO, daqueles AMIGOS do peito, é o suficiente. Mais do que suficiente.

Ilustrações: Lilliput Lyrics (1899) | Charles Robinson

Fontes consultadas: Independent | BBC Future