Esta é uma pergunta que deixa o Bicho-Que-Morde bastante curioso, como devem calcular. Quantos primos diretos ou afastados terá ele por esse mundo fora? Há muita gente com a mesma dúvida, mas nem os próprios entomologistas – especialistas no estudo dos insetos – sabem ao certo quantas espécies diferentes existem. São tantas as variedades que só é possível fazer estimativas – à volta de 5 milhões e somente uma ínfima parte já foi catalogada.

Aproximadamente 1 milhão de espécies são conhecidas – 20 mil das quais também existem em Portugal O número, contudo, está sempre a subir, com cerca de 20 mil novas espécies descobertas todos os anos, principalmente nas florestas tropicais húmidas. Por esta amostra já dá para perceber a loucura que seria contar todos os insetos do planeta.

Só as formigas são tantas que pesam mais do que todos os humanos do planeta.

Se juntarmos todos os insetos de todas as espécies, os cálculos feitos pelo Instituto Smithsoniano rondam os 2 mil milhões de insetos por cada humano.

Há uma razão simples para eles serem tantos e de espécies tão variadas. Estamos perante as primeiras criaturas a conquistar a terra. O fóssil mais antigo está datado de 396 milhões de anos. Trata-se do Rhyniognatha hirsti, uma espécie de lagarta, que não terá sido muito diferente da traça dos livros.

Os insetos tiveram, portanto, tempo mais do que suficiente para colonizar todos os cantos do planeta, desde as planícies geladas do Ártico, às dunas escaldantes do Sara, passando pelas densas florestas do Equador ou mergulhando nas profundezas dos oceanos. Ao longo de milhões de anos, passaram por inúmeras mutações genéticas. Algumas espécies ficaram pelo caminho, outras aperfeiçoaram as suas habilidades e foram selecionadas pela natureza como as mais aptar para cada habitat.

Estas são as espécies mais antigas:

Libélulas e libelinhas

Ordem Odonatos (inclui cerca de 6000 espécies).
idade 300 milhões de anos.
Características Corpo alongado e um par de asas com dimensão a variar entre os 2 e os 20 cm. As antenas são muito curtas e possuem dois olhos compostos, que lhes dão excelente capacidade de visão.
Habilidades Podem bater as asas até 50 vezes por segundo e atingir cerca de 90 km/h, com condições de se manterem no ar por aproximadamente 5 horas diárias.
Antepassados A Meganeura monyi viveu há aproximadamente 300 milhões de anos e tinha 75 centímetros de envergadura.

Besouros e escaravelhos

Ordem Coleópteros (350 mil espécies conhecidas).
idade 300 milhões de anos.
Características Têm dois pares de asas, mas apenas as asas posteriores são usadas no voo.
Habilidades Vivem em qualquer ecossistema, árido ou muito húmido, sobrevivendo também em zonas montanhosas com mais de 5 mil metros de altitude.
Antepassados O besouro do tempo dos dinossauros tem o tamanho do bico de um lápis, é preto, tem as pernas curtas e antenas enormes e ultrassensíveis ao ambiente.

Moscas, moscardos, melgas e mosquitos

Ordem Dípteros (150 mil espécies).
idade 250 milhões de anos.
Características Com dois pares de asas, apenas um serve para voar, enquanto o outro ajuda a equilibrar e controlar o voo. Estão organizadas em duas subordens, os braquíceros e os nematóceros, a primeira composta principalmente por mosquitos e melgas e a segunda pelas diversas famílias de moscas.
Habilidades Durante o voo, as moscas atingem, no máximo, 8 km/h, apesar das asas baterem 20 mil vezes por minuto.
Antepassados A mosca da pré-história tinha um chifre na testa e três olhos na cabeça que lhe permitia ter um amplo ângulo de visão. Apesar do aspeto medonho, era dócil, alimentando-se do pólen e néctar das flores.

Borboletas e mariposas

Ordem Lepidópteros (220 mil espécies).
idade 100-120 milhões de anos.
Características Têm dois pares de asas e o corpo coberto de escamas. Habitam os mais variados pontos do planeta, exceto a Antártida.
Habilidades A boca é formada por uma espirotromba: uma palhinha enrolada em espiral debaixo da cabeça, que se desenrola quando está a sugar água e néctar das plantas.
Antepassados O Protocoeliades kristenseni, achado nos sedimentos com 55 milhões de anos numa ilha da Dinamarca, é o fóssil de borboleta mais antigo até agora encontrado.

Formigas, abelhas e vespas

Ordem Himenópteros (200 mil espécies).
idade 400-480 milhões de anos.
Características Dois pares de asas com poucas nervuras (alguns insetos, como as formigas, podem não apresentar asas).
Habilidades Principais polinizadores e controladores de pragas.
Antepassados Há cerca de 35-40 milhões de anos, as abelhas apresentavam características comuns às vespas. Só algumas dezenas de milhões de anos mais tarde é que elas se separaram das suas antepassadas.

Conhecidas as características dos insetos mais antigos, o Bicho-Que-Morde convocou um de cada espécie e fez as perguntas que todos nós gostaríamos de fazer.

Formiga: quanto peso consegues carregar?

Uma formiga pesa cerca de 3 miligramas e levanta qualquer coisa que tenha até 20 vezes o seu peso. Significa que 300 mil formigas conseguem transportar 20 quilos. E que cerca de 86 milhões de formigas seriam capazes de levantar um elefante com 5 toneladas e meia. Mais impressionante do que isso, só mesmo as abelhas que conseguem levantar um peso 300 vezes superior ao seu.

Barata: é verdade que sobrevives a uma guerra nuclear?

Perto do impacto da explosão morria esturricada, disso não há dúvida. Mas, posso sobreviver a radiações 10 vezes maiores do que as suportadas pelos humanos. Contudo, os bichinhos da farinha (da família dos besouros) e as mosquinhas da fruta é que detêm o recorde, segundo os resultados de uma experiência feita pelo Discovery Channel.

A maior proeza da minha espécie está, no entanto, na capacidade em sobreviver vários dias (ou até semanas) sem cabeça. Mesmo decapitadas, continuamos a respirar por buraquinhos minúsculos do corpo. Por sermos animais de sangue frio, não gastamos energia para regular a temperatura, podendo ficar vários dias sem comer. É claro que, mais tarde ou mais cedo, acabamos mesmo por morrer à fome.

Borboletas: porque têm tantas cores?

As cores ajudam os machos e as fêmeas a reconhecerem-se uns aos outros. Tão importante é também o efeito camuflagem que serve para confundir os predadores. Entre outras funções, destaco igualmente os tons garridos, como laranja, vermelho e amarelo, que funcionam como um aviso aos caçadores: “Cuidado! Se me comeres, vais morrer envenenado com as minhas toxinas”. As escamas sobrepostas a cobrir o nosso corpo é que são as responsáveis pela variedade de cores. Num só milímetro quadrado da minha asa chegam a acumular cerca de 600 escamas, cada qual com um pigmento diferente.

Desculpa lá, formiga, lembrei-me de mais uma pergunta:

vocês dormem ou estão sempre a trabalhar?

O trabalho nunca para, mas nós organizamo-nos por turnos para assegurar as tarefas do formigueiro em permanência. Mas, sim, é verdade que não dormimos. O nosso repouso consiste em desacelerar o metabolismo e entrar num estado de letargia. Mais alguma questão?

Não, obrigado. 😉

Pirilampos: como acendes e apagas as luzes?

A luz é produzida por uma substância química chamada luciferina que, ao reagir com o oxigénio, oxida e resulta na oxiluciferina. Esse processo liberta energia, refletida no brilho que emitimos. A cor e o ritmo da luz variam de espécie para espécie. Todos nós somos capazes de controlar não só a produção como também a duração e o pisca-pisca da luz. A sua função é emitir um aviso para afastar os inimigos, mas também atrair a fêmea para o acasalamento.

Moscas: porque desaparecem à noite?

Somos insetos de hábitos diurnos, alimentamo-nos do lixo, fezes e todo o tipo detritos durante o dia. À noite, procuramos frechas nas paredes, janelas, móveis ou chão para tirar uma soneca. Mas, assim que surge a primeira luz da manhã, acordamos cheias de energia para dar cabo dos vossos nervos.

Mariposas: porque voam à volta das lâmpadas?

Tal como outros insetos noturnos, orientamo-nos pela luz da Lua, mas ficamos desorientadas quando encontramos uma fonte de luz mais forte. Para mantermos constante o ângulo em relação à luz e podermos regressar ao nosso habitat, precisamos corrigir a rota de voo. Por isso, voamos em espirais cada vez apertadas até colidirmos com a lâmpada.

Desculpa lá formiga, mais uma pergunta para ti:

para que servem as vossas antenas?

À semelhança de outros insetos, as nossas antenas servem para farejar comida. Como a maioria das espécies de formigas são cegas, elas são ainda mais úteis para tatear os lugares por onde caminhamos. Já reparaste com certeza que passamos boa parte do tempo a limpá-las, certo? A limpeza serve para remover a sujidade e aguçar os sentidos.

E, agora, uma pergunta para todos:

qual a vossa maior utilidade?

Pode responder a abelha.

Somos de uma importância vital para o funcionamento dos ecossistemas e, quiçá, da própria sobrevivência de todas as espécies do planeta. Somos responsáveis pela propagação das plantas, através da polinização e também pela dispersão das sementes. Fazemos igualmente a manutenção dos solos e das coberturas vegetais, decompondo e reciclando os nutrientes ou mantendo a cadeia alimentar que permite a existência de muitas comunidades de animais. Melhor que tudo, todos estes serviços são oferecidos à natureza com um custo zero.

Falando em concreto da minha espécie – as abelhas domésticas –, se fôssemos recompensadas pelo trabalho que fazemos nos pomares e em tantas outras culturas, poderíamos receber todos os anos qualquer coisa como 150 mil milhões de euros. Isto sem contar com as várias centenas de milhões de euros pelos lucros adicionais com a produção de mel.

Por tudo isso, pensem muito bem da próxima vez que quiserem esmagar um inseto que se cruzar no vosso caminho. Muitos de nós, aliás, estamos em vias de extinção. Cerca de 40% de todas as espécies conhecidas podem estar ameaçadas nas próximas décadas. E cerca de 41% tiveram declínios populacionais nos últimos dez anos. O principal fator conhecido é a perda de habitat, devido às más práticas agrícolas, urbanização e desmatamento.

Créditos das ilustrações da galeria: Rawpixel, Ldt rawpixel.com  – CC BY 2.0 

 

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