Yayoi Kusama. As bolinhas curam todas as infâncias difíceis

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Yayoi Kusama pinta, faz esculturas, usa lâmpadas, espelhos ou bolinhas para espantar as alucinações que a perseguem desde criança. Pintar foi para ela uma cura, mas também para milhares de fãs que descobrem na sua arte os bocadinhos de felicidade que há em todas as infâncias, por mais difíceis que sejam.

 

– De onde vieram tantas pedrinhas, tão bonitas e de tantos tamanhos?  – Pergunta Yayoi, apanhando só os seixos mais lisos e redondinhos.

_ Olha esta tão pequenina! Vou pô-la aqui entre estas duas mais crescidas – diz ela, enquanto constrói um caminho de pedras ao longo do rio que corre nas traseiras da casa.

_ Filha, vem ajudar-me a pôr a mesa do jantar – grita a mãe da janela.

Yayoi detesta ir para a casa, mas obedece para não levar um sermão. Ela não percebe porque é que, dos quatro filhos, é a única a ouvir tantos ralhetes. A mãe está sempre a dizer que uma menina tem de ser bem-comportada para mais tarde arranjar um bom casamento, mas ela não acredita nessas tretas. Basta ver como o pai nunca está em casa.

_ E que culpa tenho eu? – pergunta Yayoi baixinho, para a mãe não escutar.

A última coisa que quer é apanhar com os gritos, os beliscões e os castigos dela. À primeira oportunidade, foge para junto das pedrinhas. São as únicas que não se importam com boas maneiras, não gritam, nem esperam que ela saiba fazer arranjos florais ou cozinhar. Junto ao rio, tudo seria perfeito, não fossem uns metediços que do nada começaram a meter-se com ela.

_ Não te aproximes muito, que eu mordo!

Yayoi dá um pulo com o susto, mas não vê vivalma. Será que está alguém escondido atrás das árvores?

_ Estou mesmo aqui – diz a vozinha irritante.

_ É mesmo uma abóbora que está a falar comigo?

_Não é a única – avisam as florzinhas da amendoeira –, e nós também mordemos!

Yayoi sai a correr do rio e entra em casa ainda com os pés molhados.

_Não bastava a mãe, agora também as florzinhas e os legumes implicam comigo?

A perseguição das florzinhas vermelhas

 

 

 As alucinações não deixam Yayoi em paz: animais, plantas e flores ganham vida e vão atrás dela 

 

A cada dia que passa, Yayoi vê coisas mais estranhas. São tudo fantasias, mas muito assustadoras para ela. Por vezes, são relâmpagos a disparar no horizonte, iluminando os objetos à volta dela. Outras vezes são cães a conversar ou então anéis de luz a envolverem plantas, árvores e animais.

As alucinações perseguem-na onde quer que esteja. Até na cozinha, quando as flores vermelhas escapam da toalha de mesa e se multiplicam. Yayoi foge, mas as florezinhas vão atrás, fazendo-a tropeçar nos degraus e torcer o tornozelo.

Ela está muito assustada e só quando agarra no caderno e começa a desenhar é que tem sossego. Ao passar as fantasias para o papel, as visões deixam de ser reais e passam a ser unicamente delírios da imaginação.

Ela está sempre a rabiscar, mesmo que a mãe rasgue os desenhos e esconda os cadernos por achar que devaneios de artista não são próprios de meninas de boas famílias. Mas Yayoi arranja sempre maneira de desenhar, usando esferográficas e lápis esquecidos nas gavetas, sacas de sarapilheira guardadas no celeiro, carvão, sumo de beterraba ou trapos que encontra aqui e ali. Tudo serve para pintar, esculpir e fugir das coisas que ganham vida e vão atrás dela.

A pintura é o único esconderijo e mais importante se torna quando o Japão entra na Segunda Guerra Mundial, em 1941, ao lado da Alemanha. Todas as crianças da cidade Matsumoto são obrigadas a deixar a escola e a trabalhar na fábrica, remendando os para-quedas dos soldados.

Yayoi passa 10 a 12 horas por dia numa cave mal iluminada a ouvir sirenes de ataques aéreos e motores de aviões a sobrevoarem a cidade. Só quando chega a casa é que regressa aos desenhos.

_ Se pintar é a única maneira de ser feliz, então, quando crescer, vou ser pintora – decide ela antes de adormecer.

A tradição não é para raparigas rebeldes

 

 

 Yayoi sai de casa para estudar em Quioto e também na escola revolta-se contra as regras impostas pela tradição 

Assim que a guerra acaba, Yayoi entra na escola de arte em Matsumoto e, pouco depois, convence o pai a deixá-la continuar os estudos na cidade de Quioto. Foi um alívio sair de casa, mas até na sala de aula, os mestres padecem do mesmo mal que a mãe. Os alunos só podem pintar de acordo com os bons preceitos de Nihonga, corrente artística que usa técnicas tradicionais do Japão.

_ Porque não posso fazer o que quero, se o melhor da pintura é a liberdade para desenhar o que me apetece?

E o que lhe apetece é descobrir o que fazem os artistas na Europa ou na América. Yayoi compra livros e revistas que mostram a arte que se faz lá fora. É assim que descobre as pinturas de Georgia O’Keeffe e envia para ela as aquarelas que pintou fora da escola. Ela fica tão deslumbrada com o talento de Yayoi que mostra essas pinturas a galeristas americanos.

E pronto! Bastou isso para Yayoi se aventurar em terras da América. A mãe, claro, desaprova com veemência a mudança, mas a filha parte mesmo assim para os Estados Unidos, sentindo-se finalmente livre. Nova Iorque da década de 1960 é tudo o que ela esperava. Tem artistas atrevidos como Joseph Cornell ou Andy Warhol e tem liberdade para protestar na rua contra guerras ou reclamar pelos mesmos direitos que os homens.

Longe das meninas japonesas bem-comportadas, a arte de Yayoi multiplica-se como aquelas florezinhas ou pontinhos de luz que ainda a atormentam. Ela usa todas as alucinações nos trabalhos e é isso que deixa os galeristas e os críticos nova-iorquinos maravilhados. Nunca viram coisa igual e pedem para ver mais.

Yayoi Kusama ganha fama com as telas de luzinhas a piscar, instalações translúcidas ou corpos cobertos de bolinhas. Está sempre a pintar, esquecendo-se, muitas vezes, de dormir ou de comer. Chega a trabalhar 30 e 40 horas seguidas, revestindo telas com redes ou pontinhos que saem borda fora e trepam paredes e janelas como se quisessem alcançar o infinito.

Tantas horas sem descanso acabam por piorar o estado dela, as alucinações ficam mais intensas. Os médicos bem tentam convencê-la a internar-se num hospital, mas ela continua a pintar desalmadamente até não conseguir mais aguentar os delírios e a dar-lhes finalmente razão.

_Está na hora de regressar ao Japão – conclui ela.

Só que, agora, não é mais uma rapariguita com medo dos castigos da mãe nem se sente culpada por não seguir as regras só porque é tradição. Passaram-se muitos anos, entretanto, ela cresceu e descobriu que não importa o lugar onde se está para se sentir livre. Se tiver de ser num hospital psiquiátrico, pois que seja.

_Vou cuidar de mim e deixar que cuidem de mim, mas irei pintar sempre – decide Yayoi ao entrar no hospital psiquiátrico Seiwa, na cidade de Tóquio.

As mil viagens das bolinhas e abobrinhas

 

 

 A arte de Yayoi viaja pelo mundo com milhares de fãs a fazerem fila para verem as exposições dela 

E é ali que ela tem estado nos últimos 40 anos. Muito próximo do hospital, numa rua com casinhas e árvores de um lado e do outro, está o estúdio onde trabalha. Yayoi anda sempre atarefada, cheia de borrões, cola ou bocadinhos de papel agarrados à roupa e com as ajudantes a borboletarem à volta dela.

_A arte é a minha cura! – explica ela quando entrevistada por jornalistas.

É a cura porque, quando pinta, deixa para trás medos e alucinações, mas a arte dela também é a cura para muita gente. Milhares de pessoas fazem filas para ver as telas e as instalações que expõe por todo o mundo, no Centre Georges Pompidou, em Paris, no MoMA, de Nova Iorque, na Tate Modern, em Londres, no Malba, em Buenos Aires e em muitas outras cidades como Rio de Janeiro, no Brasil, ou Nova Deli, na Índia.

A arte dela fervilha de luz e de cor, mas não será apenas isso que atrai multidões. As lâmpadas que se acendem e apagam em cores diferentes, os quartos de paredes espelhadas, as salas cobertas de bolinhas coloridas ou as abóboras pintalgadas fazem-nos regressar aos tempos em que fomos crianças. E, mesmo aqueles com infâncias difíceis, descobrem na arte dela um cantinho onde foram felizes. Essa é a magia da Princesa das Bolinhas, a alcunha mais popular de Yayoi Kusama.

Site oficial de Yayoi Kusama

VÍDEOS

1 – Entra em seis dos 20 quartos de espelhos infinitos (Infinity Mirror Rooms) de Kusama no vídeo produzido pelo canal americano NPR:

2 – A Kusamania é uma febre que ataca crianças e adultos! Confirma se não é verdade com o vídeo da Lemon Art Lab:

FOTOS E CRÉDITOS

Foto 1 (abertura): Susanne Nilson, via Flickr 
Foto 2: Vagner Carvalheiro, creative commons via Wikimedia Commons
Foto 3 (Infinity Room): Helsinki Art Museum, The Broad, crative commons, via Wikimedia Commons
Foto 4  (Abóbora de plástico): SH Kim, via Pixabay
Fontes consultadas: Psychiatric News | Tate Art Gallery | Queensland Art Gallery | The Art Story | The Cut | O Globo | The New York Times

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