Quantos quilómetros, quantas piscinas, quantos saltos, quantas subidas e descidas, quantas impossibilidades, quantas descobertas, quantos caminhos, quantos nós de profundidade ou pés de altitude, quantas bolas de sabão, quantos arcos-íris, quantas bocas de espanto ou sobrancelhas levantadas? Qual é, afinal, a medida ou a quantidade exata para a imaginação? O Bichinho das contas queria um número, uma distância, um peso, uma estimativa aproximada que fosse. Quem for capaz de colocar um limite é quem não sabe ainda que esse limite está sempre a desparecer.

Já todos sabemos que a imaginação é o primeiro passo para criar. Retas, curvas e ângulos na planta de um arquiteto, madeira, verniz e serradura na oficina de um carpinteiro, letras, números e fórmulas no laboratório de um investigador ou ovos, limão e baunilha no forno de um pasteleiro. A imaginação é a única dimensão a sair fora de tudo o que existe para entrar em tudo o que é real. É o que está para lá da compreensão, mas é o que ajuda também a compreender.

Só que não é como um botão que faz um clique e ela sai disparada como um foguete. É antes um estômago vazio à espera de comida, uma sementinha a pedir água todos os dias ou um músculo no ginásio todas as semanas. Quanto mais se usa a imaginação mais ela estica. Perguntem às crianças se é ou não verdade. Há razões de sobra para elas serem as maiores recordistas da fantasia. Desde logo, não estão nada preocupadas em separar o lógico do ilógico.

As crianças acreditam em contos de fada, em pais natais e no coelhinho da páscoa.

Desenham fora dos limites, viajam em caixas de cartão, são piratas hoje, cientistas amanhã e sabe-se lá o que vão ser depois de amanhã.

São livres, mas deixam-se acorrentar à medida que mais velas sopram no aniversário. Atacadores dos sapatos para prender, horários a respeitar, regras a cumprir, remédios para tomar, exames para passar, contas a pagar, metas a cumprir, salários a ganhar e promoções para merecer. Não dá para escapar, mas quem um dia já foi criança saberá sempre como tirar a imaginação do fundo da arrecadação. Se tens um adulto por perto, lembra-lhe que não é por estar fechado no escritório que as joaninhas e as libelinhas não voam lá fora. Nem por tomar o pequeno almoço sempre à mesma hora que não há ogres desdentados mergulhados no leite dos cereais.

Ou só porque o semáforo está vermelho não é possível calçar as botas e acampar no topo do Quilimanjaro.

Leis, decretos e regulamentos não impedem as bolas de serem quadradas, os retângulos de ficarem redondos e as curvas de se tornarem direitas. Nas terras férteis da imaginação, os políticos têm coração de poeta e os poetas estão sempre com pressa. Os professores querem aprender e os alunos gostam de ensinar. Os rufias são piegas, os banqueiros não têm dinheiro, os sem-abrigos moram em abrigos e os filósofos trabalham nas finanças. Com um pouco de imaginação, os gigantes estão encolhidos, os duendes são grandalhões, as corujas madrugadoras, as formigas preguiçosas, as lesmas são nervosas e os vírus previamente desinfetados.

Ensinem aos adultos que não há problema que se resolva sem imaginação. Desafio ultrapassado sem grandes doses de imaginação. Ideias a brilhar sem muita, mesmo muita imaginação. Digam-lhes para voltar a desenhar fora dos limites das folhas, correr fora da pista e nadar longe das margens. Vão ver como eles, afinal, estiveram desde sempre preparados para acreditar que o chumbo flutua, a lã é fria, os puns cheiram a menta, os tenores podem desafinar, os espelhos mostram o interior e os becos têm saída.

A imaginação não tem medida ou tamanho correto. Não há caixilhos que encaixem, cinturas que se ajustem, sapatos que sirvam, cores que combinem, fórmulas que se apliquem. Avisem os adultos que, ao abrirem esta janela, o por do sol é ao amanhecer e a alvorada é quando anoitece.

E que as pedras, quando entram na imaginação, passam o tempo a choramingar, as estátuas não se cansam de suspirar e os peixes beijam para respirar.

Quem se atrever a abrir a janela será capaz de subir de paraquedas, descer para cima, entrar ao sair e sair ao entrar. Ninguém os irá proibir de nadar na areia, correr no mar, gritar baixinho, cochichar alto, dormir em pé, destapar uma sombra e tocar o infinito. Mas chegará inevitavelmente a hora de olhar para o relógio para não se atrasar. Nessa altura, então, serão vocês a mostrar que, na terra da imaginação, os ponteiros só andam para trás. Ensinem, por isso, aos adultos tudo o que sabem sobre a imaginação. Mas, quando chegarem a adultos, não se esqueçam de tudo o que ensinaram. Combinado? 😉

A propósito de nada, já leste: Quanto pesa o pó das nossas casas?