Mudaram a História, descobriram curas, foram símbolos de resistência ou exemplos de pura generosidade. Estes são os animais lendários – alguns ainda vivos – que tocaram fundo o coração dos humanos.

Reprodução YouTube/David Hoffman

Laika. A cadela que ficou no Espaço

Nasceu: 1954, em Moscovo
Morreu: 3 de novembro de 1957, Sputnik 2, na órbita terrestre

À beira da década de 1960, os soviéticos usam cães e os norte-americanos macacos para ganhar a corrida pela conquista do Espaço. Será Laika a cortar a meta, tornando-se, no dia 3 de novembro de 1957, no primeiro ser vivo a orbitar a Terra. Morreria poucas horas após o lançamento do Sputnik 2 devido ao sobreaquecimento da cápsula em que viajava. A expedição dela foi curta, mas a informação que trouxe seria decisiva para, quatro anos depois, Yuri Gagarin se tornar no primeiro humano a viajar para lá do nosso planeta.

Apanhada nas ruas de Moscovo, era uma rafeira com as características ideais para desempenhar a missão: pequenina, para caber na cápsula, e paciente, ao ponto de ficar sentada num cubículo por mais de 20 dias. Todos – menos ela – sabiam que a viagem não tinha regresso. Depois de Laika, dezenas de cães também participaram em missões espaciais, poucos regressaram vivos. Os programas soviético e americano, aliás, usaram todo o tipo de animais para testar os efeitos da micro-gravidade – macacos, ratinhos, aranhas, sapos, tartarugas, moscas e até bichinhos-da-farinha estiveram no Espaço.

A Laika será sempre a primeira e a que é recordada em vários monumentos espalhados pelos antigos territórios da União Soviética. O principal é o memorial inaugurado em abril de 2008 no Centro de Investigação Militar de Moscovo, onde ela surge de orelhas arrebitadas e em cima de um foguetão.

Reprodução Facebook

Loukanikos. O cão anti-troika

Nasceu: 2004, em Atenas
Morreu: 2014, em Atenas

No momento de escolher um lado, não se esperaria outra coisa de um cão vadio. Loukanikos esteve desde a primeira hora, em 2008, na praça Syntagma, em Atenas, a ladrar contra os cortes impostos pela Troika à Grécia, durante a crise da dívida pública da zona euro. Protestou contra polícias, enfrentou pontapés e bastonadas, fugiu dos canhões de água e das granadas de gás lacrimogénio, tornando-se internacionalmente conhecido como candidato a «Pessoa/Animal do Ano» da revista Times.

Loukanikos (significa salsicha em grego) retirou-se em 2012. Soubemos mais tarde que foi adotado por uma família grega, que cuidou dele até ao momento da sua morte, em maio de 2014. O cão-anarquista teve uma morte tranquila, mas não resistiu às sequelas provocadas pelo gás lacrimogénio a que foi exposto na linha da frente dos protestos. A imprensa grega contou que foi sepultado à sombra de uma árvore numa colina do centro da cidade. E os artistas de rua Billy Gee, Alex Martinez & N_Grams prestaram-lhe homenagem com o graffiti que pode ser visitado na Riga Palamidou em Psyrr.

Hanno. O elefante mascote do Papa

Nasceu: data desconhecida
Morreu: 16 de junho de 1516

Vindo da Índia, como presente do rei de Cochim, Hanno causou enorme espanto entre os habitantes de Lisboa. Era branco, como nunca se vira outro elefante igual. Não ficaria muito tempo na capital, logo embarcou para Roma numa aparatosa embaixada, em março de 1514, como oferta de D. Manuel I ao Papa Leão X, pela sua coroação. Contam os cronistas da época que o animal cativou logo o pontífice por ser extraordinariamente inteligente e brincalhão. Não foi a única oferenda do monarca português. No cortejo que seguiu até ao Castelo de Sant’Angelo, foram transportados também jóias, tecidos, moedas em ouro, pedras preciosas, papagaios, cavalos persas, dois leopardos e um jaguar.

Mas foi Hanno quem monopolizou a atenção. Ajoelhou-se por três vezes em sinal de reverência e depois mandou uma chuveirada de água sobre os cardeais, provocando gargalhadas sonoras do Papa. Hanno tornou-se de imediato a mascote de Leão X e até teve direito a viver num edifício especialmente construído para ele, entre a Basílica de São Pedro e o Palácio Apostólico.

Mas não durou muito tempo, dois anos depois de chegar a Roma, morreu, em junho de 1516, com uma angina, devido ao clima húmido da cidade. Foi sepultado no pátio Belvedere, no Palácio Apostólico com epitáfio escrito pelo próprio pontífice. Hanno impressionou de tal maneira os romanos, que Leão X decretou uma lei a isentar os portugueses do pagamento em hospedagens, restaurantes ou teatros. É deste decreto que nasce, aliás, a expressão «Non fare il portoghese» (Não faças de português). Se hoje esta frase tem uma conotação negativa, associando o povo português a maus pagadores, na sua origem era dirigida aos italianos que se faziam passar por portugueses para conseguir as mesmas regalias.

Sanpei / CC BY-SA 3.0

Tama. A gata que salvou a estação de Kishi

Nasceu: 29 abril de 1999
Morreu: 25 de junho de 2015

Há muitos anos que a estação ferroviária de Kishi, na cidade japonesa de Kinokawa, definhava com o pouco movimento de passageiros. Em 2006, o inevitável aconteceu: o apeadeiro deixou de ter funcionários, tentando-se reduzir os custos. O cargo de chefe de estação foi atribuído ao proprietário da mercearia mais próxima, Toshiko Koyama, que já era bastante conhecido por tomar conta de gatos vadios.

O fecho da estação, no entanto, continuava em cima da mesa e foi nessa altura que os empregados da loja decidiram colocar uma das gatas como chefe de estação. Em 2007, Tama assumiu a função com o maior dos zelos, usando o chapéu próprio do cargo e ocupando o seu gabinete todos os dias das 9h às 16h.

A gatinha depressa atraiu milhares de visitantes que desceram em Kishi só para vê-la e fotografá-la. E não foi só a estação que ela salvou. Foi também uma importante parte da economia local que se desenvolveu com novas lojas e postos de trabalho. Tama morreu no verão de 2015 com 16 anos e mais de três mil pessoas estiveram no funeral dela. Os japoneses fizeram o tradicional luto de 50 dias e só depois nomearem o sucessor. Nitama (ou Tama, o segundo) foi encontrado debaixo de um carro estacionado num dia de chuva e é o atual chefe da estação de Kishi.

Roslin Institute, The University of Edinburgh

Dolly. Uma ovelha num tubinho de laboratório

Nasceu: 5 julho de 1996
Morreu: 14 fevereiro 2003

O primeiro mamífero a ser clonado com sucesso, nasceu em julho de 1996, a partir de células de glândulas mamária de uma ovelha adulta. Os investigadores do Instituto Roslin, na Escócia, deram-lhe o nome de Dolly, em homenagem à cantora country e atriz norte-americana Dolly Parton. Apesar do estrelato, a ovelha teve uma vida pacata e relativamente normal. Foi mãe de quatro bezerros e cuidadosamente vigiada em todas as fases das gravidezes. Tudo corria de feição quando, em 1999, um estudo publicado na revista Nature alerta para o perigo de ela poder vir a envelhecer mais rapidamente do que as outras ovelhas.

A investigação suscitou enorme inquietação com a comunidade científica dividia sobre os possíveis efeitos da clonagem nos processos de envelhecimento. A polémica, aliás, ainda hoje perdura e mais acesa ficou depois de se saber, em 2002, que ela sofria de uma doença pulmonar degenerativa, interpretada por muitos como sinal de velhice precoce. Dolly acabaria por ser abatida em fevereiro do ano seguinte para se evitar uma morte dolorosa. Os conhecimentos adquiridos com ela permitiram avanços na manipulação e reparação genética. O corpo dela foi empalhado e está exposto no Museu Real da Escócia, em Edimburgo.

Reprodução Youtube/KOKOFLIX

Koko. A gorila com um grande coração

Nasceu: 4 de julho de 1971
Morreu: 19 de junho de 2018

Quem nunca quis saber o que diriam os animais, se pudessem falar connosco, tal como numa fábula de La Fontaine? Koko aprendeu com a sua cuidadora Francine Patterson mais de duas mil palavras em inglês, expressando-se também através de outros dois mil gestos e sinais. Ela nasceu no Jardim Zoológico de São Francisco e viveu nas reservas californianas da Fundação Gorila. A sua capacidade de comunicação foi equiparada ao de uma criança de três anos, podendo entender verbos, substantivos ou adjetivos, incluindo conceitos abstratos como bom, mau, falso e verdadeiro. São algumas das proezas que a tornaram famosa, aparecendo por diversas vezes nas capas da revista National Geographic. Koko também conheceu várias estrelas do cinema e da música como Robin Williams, Leonardo DiCaprio ou Peter Gabriel.

Era uma gorila meiga e brincalhona, mas tinha um grande desgosto por não conseguir ter filhos. Foi por isso que se afeiçoou ao gato All Ball e sofreu tanto com a sua morte em 1984. Aos 44 anos, a fundação decidiu oferecer-lhe dois gatinhos órfãos, Tiger e Blackie, que ela cuidou até ao último dia como se fossem seus filhos. A preservação dos gorilas e dos seus habitats foi igualmente uma das suas principais batalhas. Koko morreu velhinha, durante o sono e semanas antes de completar 47 anos.

Reprodução Youtube NDTV Record TV Foto: Ronaldo Amboni )

Golfinhos boto e os pescadores de Laguna

Todos os dias, os pescadores da cidade de Laguna, no estado brasileiro de Santa Catarina, esperam pelos golfinhos para começar a pescar. Não há propriamente uma hora marcada. Por vezes, os homens apanham secas monumentais até os mamíferos decidirem aparecer. São cerca de 20 botos que surgem nas águas escuras de Laguna. Cercam os cardumes de tainha, soltam assobios e apontam com a cabeça, mostrando onde devem ser as redes lançadas.

Este é o único acordo conhecido entre homem e animal e acontece há pelo menos 120 anos, de acordo com registos que chegaram do século 19. O proveito é de ambos: os homens pescam o peixe de que necessitam e os golfinhos ficam com o excedente que escapa das redes. A relação entre eles foi alvo de vários estudos, concluindo-se que esta cooperação tem sido transmitida não só dos golfinhos para as crias, como também entre pescadores que passam o testemunho para filhos e netos.

Os botos são tão importantes para Laguna que se tornaram no símbolo da cidade, ganhando cada um deles uma identidade própria – Scooby, Jade, Princesa ou Batman são alguns dos nomes que os pescadores deram aos golfinhos.

Zarafa. A girafa que caminhou do Sudão até Paris

Nasceu: 1825
Morreu: 12 de janeiro de 1845

Zarafa foi a primeira girafa a pisar solo francês, em 1826, e a terceira a chegar à Europa. Antes dela, a última havia sido a Girafa de Médici, chegada a Florença em 1486. Podem imaginar, por isso, o frenesim entre os franceses. Ela chegou como uma oferta de Mehmet Ali, vice-rei otomano do Egito, para Carlos X da França. Viajou mais de cinco mil quilómetros, desde o que é hoje o Sul do Sudão até Paris. A travessia foi uma aventura sem precedentes, não só para ela, como para os franceses.

Zarafa navegou pelo Nilo até Alexandria. Atravessou depois o Mediterrâneo numa embarcação maior e chegou às docas de Marselha a 31 de outubro de 1826. Dali, caminhou até à capital de França, numa viagem de mais de dois meses com multidões na rua para vê-la de perto. Conta-se que, em Lyon, mais de 60 mil habitantes, quase um terço da população da cidade, saiu de casa para dizer «Olá!» ao «belo animal do rei».

Mal chegou a Paris, Carlos X, colocou-a no Jardim das Plantas onde viveu por quase duas décadas e atraiu todos os anos centenas de milhares de visitantes. O entusiasmo dos franceses originou até uma «zarafamania», com músicas, poemas e até peças de alta costura, inspiradas nela. Quando morreu, foi empalhada, encontrando-se atualmente no Museu de História Natural La Rochelle.

Putneymark / CC BY-SA 2.0

George. A tartaruga mais solitária do mundo

Nasceu: data desconhecida
Morreu: 24 de junho de 2012

George foi a criatura mais solitária do planeta, único exemplar da sua espécie – tartaruga-das-galápagos-de-Pinta (Chelonoidis nigra abingdoni). Avistado na ilha de Pinta pela primeira vez, a 12 de dezembro de 1971, pelo biólogo Joseph Vagvolgyi, tinha uma idade estimada entre 60 e 90 anos. Desde que foi descoberta, viveu sempre em cativeiro na estação Charles Darwin, tornando-se num símbolo de preservação ambiental. A história de George, que, entretanto, ganhou o cognome de Solitário, é ancestral.

Os seus familiares chegaram às Ilhas Galápagos há 5 milhões de anos, vindos da América do Sul logo após a formação do arquipélago. Terá sido a mais longa viagem de sempre, com as tartarugas a percorrerem mais de 1000 km (620 milhas) e atravessando a perigosa corrente de Humboldt, que flui a noroeste da costa do Chile. Por terem pescoços longos capazes de subir acima do nível das ondas e por conseguirem passar longos períodos sem comida ou água doce, chegaram sãs e salvas ao seu destino.

No dia 24 de junho de 2012, o Parque Nacional de Galápagos anunciou que George Solitário foi encontrado morto. Suspeita-se que as causas de morte tenham sido naturais, devido à idade avançada. A sua espécie está, desde então, oficialmente extinta. Restam outras oito espécies nas ilhas, todas classificadas de vulneráveis ou ameaçadas de extinção.

Vacanti. O ratinho das grandes descobertas

Em 1997, Joseph e Charles Vacanti, da Universidade de Harvard, publicaram uma investigação, dando conta de que conseguiram desenvolver com sucesso um pedaço de cartilagem nas costas de um ratinho. O anúncio abriu as portas para transplantes em humanos de tecidos cultivados em laboratório. O ratinho usado nesta experiência ganhou o nome de Earmouse (ratinho-orelha) ou ratinho Vacanti, mas não é o único que merece aqui ser recordado. Usados há mais de um século em ensaios científicos nas mais diversas áreas, os ratinhos tiveram e continuam a ter um papel central na descoberta de medicamentos, vacinas ou tratamentos que salvam e curam milhões de humanos. A eles devemos, portanto, nada mais do que a vida.

Antes de partires, espreita o artigo: Por que são melhores as mais improváveis amizades?