A cada ano, são descobertas cerca de 15 mil espécies de flora e fauna, num total de 1,3 milhões catalogadas nos últimos dois séculos e meio. O número é uma gotinha entre os 8,7 milhões que estarão ainda por classificar. A maioria (91%), nos oceanos. Todos os dias, há cientistas a escalar montanhas, a descer grutas, a caminhar em densas florestas ou a mergulhar aparelhos até ao fundo dos mares. Tudo isso para dar a conhecer novas criaturas que connosco partilham o planeta Terra. Hoje, o Bicho Que Morde tem o prazer de apresentar 10 entre milhares de novas espécies descobertas em 2020. Sejam muito bem-vindos.

Gollum, o peixe dragão dos subterrâneos

Mês de registo setembro
Local Gates Ocidentais, no sul da Índia
Características corpo comprido, pigmentação castanha-avermelhada, vive em águas subterrâneas e ondula de frente para trás, entrando e saindo com agilidade dos orifícios rochosos.
Foto Ralf Britz | Museu de Zoologia, em Dresden | Alemanha

Esta aventura começou já em finais de 2018, quando Rajeev Raghavan viu uma foto publicada nas redes sociais de um peixe capturado num poço, algures na cidade de Koshi. O investigador da Universidade de Pescas e Estudos Oceânicos, em Kerala, enviou imediatamente a imagem ao colega Ralf Britz, do Museu de Zoologia de Dresden, na Alemanha. Ambos desconfiaram que a espécie não tinha ainda sido catalogada, mas foram precisos quase dois anos de trabalho de campo para que, em setembro deste ano, pudessem, finalmente, apresentar ao mundo o Gollum Snakehead.

Tal como a personagem com o mesmo nome da saga «O Senhor dos Anéis», também ele vive em grutas subterrâneas. Mais concretamente nas águas do subsolo. Esta criatura das profundezas pertence a uma família já conhecida dos cientistas – Dragon Snakeheads – e, como os seus parentes, só vem à superfície depois de inundações provocadas por fortes chuvadas nos Gates Ocidentais do Sul da Índia – uma cordilheira banhada pelo mar Arábico e com um rico historial de biodiversidade.

As lagartixas Andy Sabini e Simpsoni

Mês de registo outubro
Local Arquipélago de Galápagos, Equador
Características são criaturas noturnas com um tamanho a variar entre 8 (Andy Sabini) e 10 centímetros (Simpsoni). A Andy Sabini tem pupilas verticais e as terminações dos dedos a lembrar folhas, daí também o nome de lagartixa com dedos de folha do Vulcão Wolf. A Simpsoni tem a garganta pontilhada com pigmentos castanhos-escuros e habita arbustos e pastagens secas. Durante o dia, gosta de dormir em cima de troncos velhos, rochas, carapaças antigas de tartaruga ou catos.
Foto Tropical Herping.

O arquipélago de Galápagos, no Oceano Índico, é o local mais estudados do mundo por causa da sua riquíssima diversidade de espécies. É assim até antes de Charles Darwin ter visitado algumas das ilhas, em meados do século 19. E, ainda hoje, continua a surpreender os cientistas com novas descobertas a cada dia. As mais recentes são duas espécies de lagartixas – a Phyllodactylus Andy Sabini, encontrada nas encostas do vulcão Wolf, e a Phyllodactylus Simpsoni, distribuída pelas ilhas de Isabele e de Fernandina. Foram descobertas durante uma expedição levada a cabo por investigadores de várias organizações, entre as quais a Tropical Herping, o Galapagos Conservancy e o Parque Nacional de Galápagos. Ambas ganharam nomes de importantes personalidades que se dedicaram à conservação da Natureza. E ambas estão também em perigo de extinção. Além de o seu habitat estar reduzido a 250 km2, são perseguidas por gatos e ratos pretos, predadores introduzidos nas ilhas. As erupções vulcânicas são igualmente uma séria ameaça para a Andy Sabini.

A flor de fogo das altas montanhas

Mês de registo outubro
Local Benguet, Filipinas
Características é minúscula com flores laranja, conseguindo sobreviver a mais de 2300 metros de altitude. As florestas de musgo que cobrem as altas montanhas das Filipinas, Bornéu e Sumatra são o ambiente ideal para se desenvolverem.
Foto Maverick Tamayo, Universidade Baguio (Filipinas).

Um brilho amarelo-laranja por entre o verde-musgo atraiu a atenção de Maverick Tamayo. Há dois dias que o biólogo caminhava sozinho pelas florestas do Monte Komkompol, na província filipina de Benguet. Nesse mesmo instante, suspeitou que estaria diante de uma espécie desconhecida. Cinco meses e muitas pesquisas depois, chegou a confirmação. A orquídea Ignisi florum pertence à família Dendrochilum, mas, ao contrário das primas, tem uma única folha e um caule comprido. É a camuflagem perfeita para se confundir no musgo até desabrochar. Apesar de cada flor ter cerca de 5 milímetros, elas destacam-se na vegetação pelas cores vivas, daí o nome Ignisi florum, que, traduzido do latim, significa flor de fogo. Por habitarem florestas de grandes altitudes, os especialistas dizem que estão em perigo, podendo não resistir ao desmatamento e à perda de habitat resultante das mudanças climáticas.

O lémure-rato Jonahi

Mês de registo julho
Local Madagáscar
Características são uma das espécies de primatas mais pequenas do mundo. São tímidos, noturnos e habitam uma reduzida área das florestas tropicais, no nordeste de Madagáscar. Da ponta do nariz até à cauda medem cerca de 26 centímetros, não chegando a pesar mais do que uma bola de ténis. São pequeninos, é certo, mas têm os olhos grandes e bonitos, a brilhar na noite como estrelas cintilantes.
Foto Stephen D. Nash / IUCN SSC Primate Specialist Group / D. Schüßler.

Descoberto no verão deste ano, o lémure-rato Microcebus jonahi já está na lista vermelha dos animais em risco de desaparecer. Tal como as restantes 107 espécies também a viverem nas florestas de Madagáscar, estes animais estão entre os que mais sofrem com a acelerada desflorestação – mais de um terço estão seriamente ameaçados com o fim de muita da flora e fauna únicas desta ilha do Oceano Índico. A nova espécie agora identificada ganhou o nome do Jonah Ratsimbazafy, um conhecido biólogo que tem dedicado a vida a estudar e a proteger os lémures de Madagáscar. A investigação foi conduzida por organizações de seis países, entre os quais o Instituto Gulbenkian para a Ciência, em Portugal.

O toutinegra-Taliabu e mais nove espécies

Mês de registo janeiro
Local ilhas de Taliabu, Peleng e Batudaka (Indonésia)
Características pertencem ao grupo de pássaros canoros, comem insetos, néctar e frutas. Boa parte destas aves tem o canto muito semelhante ao dos insetos. O da toutinegra-gafanhoto, por exemplo, soa como um grilo.
Foto James Eaton/Birdtour Asia.

Seis semanas de expedição em três pequenos grupos de ilhas da região de Wallacea, na Indonésia, não podiam ter sido mais proveitosas. Os cientistas da Universidade Nacional de Singapura e do Instituto de Ciências da Indonésia descobriram cinco espécies e cinco subespécies de pássaros canoros. Há mais de um século que tal não acontecia.

Foi ao escalar as montanhas de Taliabu, que os investigadores descobriram a primeira ave. Debaixo de uma chuva torrencial, estavam prestes a regressar ao acampamento quando um deles escutou um trinado parecido com o de um inseto. Estavam encharcados até aos ossos, mas perceberam que teriam de continuar a subir. Valeu a pena o esforço, nesse dia avistaram o pássaro castanho agora chamado de felosa-malhada-de-taliabu.

As novas espécies incluem ainda o toutinegra-gafanhoto, toutinegra-Taliabu, o tordo da Ilha Taliabu, o papa-moscas de sobrancelhas nevadas ou o papa-moscas da selva de Togian. As dez novas aves foram de imediato colocadas na lista das espécies ameaçadas devido ao rápido desmatamento provocado não apenas pela extração de madeira, como também pelos fogos florestais.

A rã saltitante Muduga

Mês de registo março
Local Gates Ocidentais, no sul da Índia
Foto S P Vijayakumar | Instituto de Investigação Zoológica da Índia

Chegou o tão aguardado momento de apresentar a rã saltitante Muduga, recém-chegada à família Walkarama a viver nos Gates Ocidentais, situados do sul da Índia. Há 137 anos que esta ilustre dinastia não conhecia novos clãs, além dos W. leptodactyla, W. diplosticta e W. phrynoderma. A rã Muduga foi encontrada na cordilheira Elivalmalai, a 1544 metros acima do nível do mar. As equipas do Instituto de Investigação Zoológica da Índia e o Instituto Indiano para a Ciência batizaram a rã com o nome da língua da comunidade Muduga, que vive no distrito de Palghat (Kerala).

Camaleões de narizes macios

Mês de registo julho
Local Madagáscar
Características são minúsculos – com tamanhos a variar entre os 8 e os 10 cm -, mas têm todas as boas características dos camaleões: mudam de cor para deslumbrar as fêmeas, confundir-se na vegetação ou comunicar com os companheiros. Têm ainda globos oculares desacoplados a vaguear independentemente um do outro e línguas pegajosas mais compridas do que o próprio corpo.
Foto David Prötzel, investigador da Coleção Estatal de Zoologia da Baviera | Alemanha.

Calumma emelinae, da costa leste de Madagáscar, C. tjiasmantoi, do sudeste, e C. ratnasariae, do norte da ilha, juntaram-se oficialmente às mais de 90 espécies de camaleões nativos de Madagáscar. Foram descritos pelos investigadores como camaleões de «narizes macios e engraçados» por terem um narigão enrugado e com o formato de chifre. Em Madagáscar, há uma variedade tão grande de camaleões que os cientistas ainda estão, em muitos casos, a tentar identificar as suas famílias. A ilha hospeda não só o maior camaleão do mundo, o Parson (65 cm), como também o mais pequeno, o Brookesia micra, com 29 milímetros e que geralmente é fotografado em cima de uma cabeça de fósforo para se perceber a sua pequenez.

O agrião de Mil Fontes

Mês de registo outubro
Local Costa Vicentina, Portugal.
Foto Clara Pinto Cruz | Universidade de Évora

Os investigadores do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento da Universidade de Évora e os botânicos da Universidade de Oviedo, em Espanha, identificaram uma nova planta, que não cresce em nenhuma parte do mundo senão em pequenas áreas da costa vicentina no Alentejo. Deram-lhe o nome de Helosciadium milfontinum por ter sido encontrada na zona de Vila Nova de Mil Fontes. Ela faz lembrar um «pequeno guarda-chuva» com flores semelhantes à do agrião, segundo contou à imprensa a investigadora Carla Pinto Cruz. A sua sobrevivência é precária porque está muito dependente dos charcos temporários mediterrânicos. O seu habitat, por sua vez, também está ameaçado devido à invasão da agricultura e às construções urbanísticas.

O fungo do Twitter

Mês de registo outubro
Local Costa Vicentina, Portugal
Foto João Coelho, CC BY 2.0, Creative Commons
Nota o mil-pés da imagem é meramente ilustrativo e não corresponde à espécie cambala annulata.

Derek Hennen, da Universidade de Copenhaga, partilhou no Twitter uma imagem de um vulgar mil-pés cambala annulata, típico dos Estados Unidos. Mas Ana Sofia Reboleira, do Museu de História Natural da Dinamarca, viu algo extraordinário – o fungo Troglomyces twiterii – e que ganhou o nome da rede social onde foi descoberto. Os dois colegas tiveram de analisar vários outros mil-pés americanos até terem a confirmação de que o parasita ainda não estava classificado. Esta foi a 45ª descoberta da investigadora portuguesa. De tanto estudar ecossistemas subterrâneos, Ana Sofia ganhou a alcunha de «mulher das cavernas» quando, em 2018, descobriu na Abecásia, no norte da Geórgia, o mil-pés que mais profundo vivia no planeta.

Ursos-d’água fluorescentes

Mês de registo outubro
Local laboratórios do Instituto Indiano para a Ciência (Bangalore, Índia).
Características conhecidos também por ursos-d’água, os tardígrados (ou tardígrada) são criaturas aquáticas com tamanhos a não ultrapassar o meio milímetro. Gostam de ambientes húmidos, podendo habitar camadas de gelo, leitos de oceanos, paredões rochosos ou campos de musgo.
Foto Biology Letters |Crédito: SUMA ET AL., BIOLOGY LETTERS (2020) 20200391

O tardigrada é uma criatura microscópica capaz de sobreviver a ambientes extremos como altas temperaturas, radiação elevada e até mesmo no vácuo do espaço sideral. O que não se sabia até agora era da existência de uma espécie que suporta uma luz ultravioleta tão letal que é apenas usada para exterminar vírus e bactérias super-resistentes. A descoberta aconteceu por acaso quando a equipa do Instituto Indiano para a Ciência se deu conta de que as criaturas estiveram expostas durante bastante tempo a uma lâmpada ultravioleta germicida. E foi então que ficaram boquiabertos ao perceber que elas desenvolveram pigmentos fluorescentes azuis, que tornaram a luz ultravioleta inofensiva.

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