Camões faz 500 anos e quase nada sabemos sobre o nosso maior poeta

Camões

1524 é a data oficial do nascimento de Luís Vaz de Camões, mas alguns estudiosos acreditam poder ter sido no ano seguinte. Muito pouco se sabe sobre a sua vida. Não é possível dizer com rigor quando e em que cidade nasceu, qual o ano em que morreu, se estudou em Coimbra ou tão-pouco se frequentou a corte. Nem sequer afirmar que as ossadas, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, são mesmo dele. Resumindo: não sabemos nada, quase nada, sobre o maior poeta português.

Há uma boa razão para tanto desconhecimento sobre a vida de Camões. Não existem documentos, exceto um ou outro papel que resistiu, comprovando ter passado por algumas cidades portuguesas, por África e pelo Oriente. Das poucas certezas que restam, é que viveu os últimos dias sozinho e sem um tostão no bolso.

Camões morreu anónimo. Só muito mais tarde, o livro «Os Lusíadas» ganhou estatuto de obra nacional e alcançou fama mundial. À medida que os estudiosos se debruçaram sobre essa grande epopeia, perceberam que, além da aventura de Vasco da Gama pelo caminho marítimo da Índia, estão lá todas as inquietações deste povo.

Quem somos? Que missão nos cabe na História? O que esperar do futuro?

O poeta enchia o peito de orgulho pelo país, mas também levantava a voz e o sobrolho para apontar os defeitos. Foi um típico português. Apaixonado, irrequieto e com enorme coragem para partir à aventura e recomeçar do zero em paragens longínquas e desconhecidas.  E ainda boémio e gastador, com uma grande propensão para se meter em brigas e confusões.

Camões nunca pretendeu exaltar somente os grandes feitos dos portugueses. Quis também mostrar os erros para que pudéssemos aprender com eles e avançar. Por tudo isso, é o nosso poeta e não podia ser de mais ninguém.

Neste começo de 2024, ano em que se comemora o quinto centenário do nascimento de Camões, o Bicho-que-Morde recolheu os bocadinhos das histórias que já se escreveram sobre o poeta. Muito do que se conta são suposições ou aconteceram em datas imprecisas. Mas é o que temos. O importante é que a sua obra e memória são imortais.

Comecemos, então, está singela homenagem pelo:

Poeta aventureiro

Em 1549 (?) Camões terá partido para Ceuta, no Norte de África, em busca de melhor sorte. Juntou-se ao exército do rei D. Sebastião na luta contra os mouros, regressando a Portugal em 1551 (?).  Numa dessas batalhas, perdeu a vista direita. Por isso o vemos, muitas vezes, representado com um tapa-olho, como se fosse um pirata à procura do seu tesouro.

Em 1553 (?) deixa Lisboa e parte para o Oriente, passando por China, Goa e Macau, onde vive numa gruta e onde se diz que escreveu uma boa parte de «Os Lusíadas». Um busto e uma placa junto dessa caverna assinalam ainda hoje a passagem do poeta por terras macaenses.

De volta a Portugal, é subitamente apanhado num naufrágio, na foz do rio Mekong, no Sudeste da Ásia. Tripulação e passageiros são atirados borda fora. Camões consegue nadar até à margem e salvar «Os Lusíadas», mas perde a sua amada Dinamene, que viajara com ele desde a China.

Poeta arruaceiro

Em 1552, é preso durante um ano. Dessa época, sobreviveu um dos raros documentos que permite contar a história como deve ser: a carta de perdão de D. João III, de 7 de março de 1553. Nela se diz que Luiz Vaz de Camões, filho de Simão Vaz, cavaleiro fidalgo, está detido na Cadeia do Tronco, em Lisboa, por ter ferido, em dia de procissão do Corpo de Deus, Gonçalo Borges, encarregado dos «arreios do Rei».

O episódio está longe de ser o único. Dos seus tempos de estudante de Coimbra, chega o relato de que, num sarau literário, os seus versos enfureceram um tal de Juan Ramon, sobrinho de um professor universitário que, logo ali, o desafiou para um duelo. O ofendido acabou ferido e o poeta na cadeia sob fortes protestos dos estudantes.

Julga-se que também esteve preso em Goa, entre 1556 e 1561, mas os motivos não são claros. Uma das razões apontadas são as dívidas contraídas. Mas também se coloca a hipótese de se ter envolvido numa grande embrulhada à propósito de uma sátira anónima a criticar a corrupção e imoralidade dos reinantes. A autoria do texto acabaria por lhe ser atribuída, razão pela qual as Ordenações Manuelinas decretam a sua prisão.

Em 1562 (?) Camões é mais uma vez preso por dívidas acumuladas. Não por muito tempo. Conta-se que escreveu uma ode ao novo vice-rei da Índia, suplicando pela libertação. D. Francisco Coutinho terá apreciado tanto o seu talento que não só concede a liberdade, como o faz seu protegido.

Poeta pinga-amor

Não faltam sonetos de amor dedicados às mulheres que arrebataram o coração do poeta. D. Maria, a irmã do rei D. João III, D. Violante, casada com D. Francisco de Noronha ou Catarina, uma das principais musas de Camões, cuja identidade é ainda um mistério. A principal suspeita é Catarina de Ataíde, dama da rainha, mas pode ter sido também a neta de Vasco da Gama ou a mulher de um nobre de Aveiro, descendente de uma rica e conhecida família – os Sousa.

Não se esqueçam de Dinamene, a mulher chinesa por quem o poeta se apaixonou durante uma das suas viagens ao Extremo Oriente. Após morrer no naufrágio, Camões dedicou-lhe dois sonetos – «Ah! Minha Dinamene, assim deixaste» e «Quando de minhas mágoas a comprida».

Poeta mendigo

Regressado do Oriente, em 1570, Camões nunca mais consegue rendimentos regulares. Vive os anos seguintes em casa de amigos. Diogo Couto, por exemplo, paga-lhe muitas vezes as despesas e as viagens.

O poeta até tem uma pensão real de 15 mil reis anuais, atribuída pela publicação de «Os Lusíadas», em 1572. A renda chegaria para viver, mas o que se conta é que D. Sebastião não era muito certo com as datas de pagamento. A situação financeira agrava-se quando o rei morre na batalha de Alcácer Quibir, em 1578.

Filipe II de Espanha usurpa o trono e acaba de vez com a regalia. Até morrer, vítima da peste, Camões terá sido sustentado pelo escravo Jau – que viera com ele da Índia – mendigando por bocados de pão e moedas partilhados depois com o seu amo.

📝Dados biográficos

  • ❓❔ Datas e cidade de nascimento: estima-se que tenha sido em 1524, mas alguns historiadores desconfiam ter sido em 1525. Há, pelo menos, quatro cidades a reclamar ser a sua terra natal: Coimbra, Chaves, Alenquer e Lisboa. Chaves é de onde a família paterna era oriunda, mas os registos da Casa das Índias indicam que deverá ter nascido em Lisboa.
  • ❓❔ Data da morte: com base no documento que o rei Filipe I entregou à mãe do poeta, a data da morte é 10 de junho de 1580. O ano, porém, não corresponde ao que estaria na lápide que D. Gonçalo Coutinho, fiel amigo, colocou na sua campa. Dizia assim:
«Aqui jaz Luís de Camões. Príncipe dos poetas do seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu, no ano de 1579. Esta campa lhe mandou aqui pôr D. Gonçalo Coutinho, na qual não se enterrará pessoa alguma.»

Com o Terramoto de 1755, os restos mortais desapareceram, tendo sido encontrados em 1854 e levados para o Mosteiro dos Jerónimos. Os estudiosos, contudo, duvidam que as ossadas sejam do poeta, dado que, no século 19, não havia forma de determinar cientificamente a quem pertenciam.

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👉 O Bicho que Morde tem mais uma sugestão de leitura para ti: Catarina de Bragança. A alentejana que ensinou boas maneiras aos ingleses.

📷 Crédito da ilustração (abertura): Camões de Júlio Pomar – imagem de Pedro Ribeiro Simões \ CC BY 2.0

Quiz. 12 badaladas para responder antes do Ano Novo

Responde ao quiz e descobre as histórias e as tradições da festa do Ano Novo. Das mais estrambólicas às mais convencionais, há muitas maneiras de celebrar o ritual da passagem de ano. Todas elas com o mesmo propósito: esperar que os 366 dias do próximo ano (bissexto) tragam muita paz e amor. Esses são também os votos do Bicho-Que-Morde: feliz 2024 para todos!

Por que cuidar do pâncreas com amor e carinho?

Gorduras e açúcar são dois grandes inimigos da nossa saúde. Há uma glândula minúscula, no entanto, capaz de derrotá-los. O pâncreas não te julga quando cais em tentação. Mas se abusares da sorte, nem ele nem ninguém virá em teu auxílio.

O Bicho-que-Morde prestou, um bom tempo atrás, uma singela homenagem ao fígado, por todo o trabalho silencioso em benefício da nossa saúde. As intenções dele foram as melhores, mas, nos dias imediatamente a seguir, outros órgãos protestaram, originando uma desordem interior sem precedentes. Os rins convocaram uma manifestação à porta da bexiga pela dignidade profissional da sua classe. O estômago saiu à rua, provocando longas horas de engarrafamentos nas principais vias do aparelho digestivo. A pele arrepanhou-se toda, reivindicando o seu estatuto de maior órgão do corpo humano.

A confusão foi total e o Bicho-que-Morde, tentando remediar a embrulhada em que se meteu, comprometeu-se a reconhecer publicamente os inestimáveis contributos de cada um. Mas pediu tempo e paciência porque é só um e não pode fazer tudo ao mesmo tempo.

Por sorteio, supervisionado pelo governador civil, o pâncreas é o órgão que se segue. O resultado levantou logo um burburinho: “o pâncreas… uma glândula minúscula que nem 100 gramas pesa…”. Não te deixes influenciar, caro leitor ou leitora, as más-línguas dos restantes órgãos demonstram apenas que os ânimos, por agora, podem até estar mais calmos, mas o incómodo não desapareceu.

Poder antigordura

A presença do pâncreas, com cerca de 15 cm, é muito discreta, mas a sua localização é estratégica. Procurem-no atrás do estômago, entre o duodeno e o baço. Apesar de não dar nas vistas, ele joga em pelo menos dois grandes campeonatos: a função exócrina (ou digestiva) e a função endócrina, lançando para a circulação sanguínea importantes hormonas para o equilíbrio do organismo.

Nada como um suculento caso prático para compreender bem este processo. Uma bela refeição de almôndegas com esparguete, por exemplo, após triturada e engolida pela boca, aterra no estômago, sendo energicamente amassada até virar uma pasta mole e pegajosa.

O pâncreas está na retaguarda e de vigia e, assim que os restos de comida chegam ao duodeno – a primeira parte do intestino delgado -, dispara uma série de enzimas. Sem qualquer misericórdia, as proteínas complexas, como gorduras e açúcares, são quebradas em micromoléculas, ficando em condições para serem absorvidas pelo organismo.

O seu poder reside no suco pancreático que produz em quantidades certeiras para ajudar no processo digestivo. Fragmentar proteínas e carboidratos é missão que envolve um trabalho de equipa entre o estômago, o fígado e o pâncreas. Mas a ação antigordura, essa, nenhum outro órgão do corpo humano é capaz de desempenhar com tanto zelo e eficiência como o pâncreas.

As suas habilidades não se esgotam unicamente durante a digestão. Tão importante, aliás, é a função exócrina, que se traduz na sua capacidade para libertar na circulação sanguínea a insulina e a glucose. Essas duas hormonas fazem parte do grupo de intervenção especial de células esféricas do pâncreas. São produzidas nas ilhotas de Langerhans – vasos capilares descobertos em 1869 pelo cientista alemão Paul Langerhans – e controlam as quantidades de açúcar no organismo.

Gulodice com moderação

O pâncreas, essa miniatura de órgão humano, é um aliado de peso no combate a uma das maiores ameaças à nossa saúde – a gulodice. Mas não abuses da sorte, por favor, porque até os super-heróis têm os seus limites. O pâncreas não te recrimina quando comes de vez em quando uma dose de batatas fritas ou uma fatia de bolo de chocolate. Mas se o “de-vez-em-quando” passar a “quase-todos-os-dias”, então, nem ele nem ninguém poderá vir em teu auxílio.

Se quiseres agradecer os seus préstimos, trata-o com muito amor e carinho. Mas do que ele gosta mesmo é de brócolos, couve-flor e repolho. E também, já agora, de frutas como laranja, kiwi, manga ou morango, que ajudam na sua desintoxicação. De resto, como tudo na vida, comer com moderação, fugir dos alimentos processados e praticar exercício físico deixa toda a gente feliz e acaba com qualquer hipótese de uma revolta interior.

🦧Lê também o artigo: «Quanto tempo demora um hábito a aparecer?»

Adivinhas. Qual é coisa, qual é ela? Vê lá se és capaz…

adivinhas

Perguntas que são enigmas, que fazem pensar e são divertidas. Tanto faz jogar sozinho como em equipa. Há sempre respostas, umas evidentes, outras nem tanto. São puzzles, são armadilhas, às vezes são quadras, outras trava-línguas, mas põem sempre a imaginação a trabalhar. Ninguém sabe quem as inventou. Fazem parte da tradição oral. Quer dizer que chegaram intactas até aos dias de hoje porque os mais velhos contaram aos mais novos e os mais novos não as deixaram morrer.


Aqui ficam algumas adivinhas para despertar o bichinho da curiosidade.  Passa com o cursor do rato nos quadrados coloridos para leres as perguntas e carrega no botão de cada um deles para descobrir as respostas. Para passar ao jogo seguinte, carrega na seta [>] que aparece na lateral do painel. 

Atenção: esta apresentação só resulta em pleno no desktop, tablet ou portátil. No telemóvel, alguns textos podem aparecer cortados.

Recuperar a arte de ler os sinais da Natureza

O melhor das férias de verão é o tempo para reparar nas coisas curiosas sem a pressão do relógio a mandar na nossa vida. Aproveita, por isso, para prestar atenção aos sinais da Natureza. Plantas, animais, ventos ou correntes de água estão sempre a dar-nos pistas sobre a hora, o local ou a temperatura do nosso planeta.



O voo de um pássaro indica o tempo que está para vir, as raízes de uma árvore mostram a direção do Sol, uma duna de areia revela o vento predominante e uma flor a desabrochar aponta para o Sul. Se estiveres atento ou atenta aos sinais da Natureza, ela guiar-te-á tão bem ou melhor do que a bússola ou o GPS que guardas no telemóvel. Esquece, por isso, as tecnologias e parte à descoberta.

Faz aquilo que, durante séculos, fizeram os agricultores, as tribos de índios ou os pescadores, que nunca precisaram destas engenhocas para sobreviver nos campos, nas florestas ou nos mares. Muita dessa sabedoria usada para se orientarem ou preverem o tempo transformou-se em provérbios. A maioria é divertida, mas sem base científica. Uma boa parte desse conhecimento, contudo, foi ao longo dos anos sendo confirmada pelos investigadores.

Na direção das árvores

 Se olharmos com muita atenção para uma árvore, ela mostra-nos onde está o Sul. 

Há um livro espetacular de um explorador britânico, que ensina uma série de truques para nos orientarmos pelo Sol, pelas estrelas, pela lua, pelas plantas ou pelos animais. Tristan Gooley é o autor de «The Lost Art of Reading Nature’s Signs» (A Arte Perdida de Ler os Sinais da Natueza). A obra, infelizmente, não está traduzida para português, mas tem mais de 800 pistas.

Tristan ensina, por exemplo, a usar as árvores para distinguir o Norte do Sul. As suas copas têm geralmente um lado mais frondoso e pesado do que outro. Essa é a parte que recebe mais luz solar e essa é a forma de encontrar o Sul. A razão é que, estando nós no Hemisfério Norte, o Sol passa a maior parte do dia no lado Sul do céu.

A descoberta, em alguns casos, pode não ser imediata e um dos cuidados a ter é dar umas quantas voltas e observar a árvore sob vários ângulos para que nos revele os seus segredos. Nas florestas, pode ser mais complicado, uma vez que todas elas estão em competição por um bocadinho de claridade. Mas os galhos das árvores também são bons indicadores, revela Tristan. Os que estão na parte sul tendem a subir em busca do Sol, enquanto os que apanham mais sombra são propensos a crescer na vertical.

Alinhados com o campo magnético

 O alinhamento do corpo com o eixo magnético da Terra já foi encontrado em muitos animais. 

Outras formas de descodificar os sinais da Natureza é observar o comportamento dos animais. Os investigadores já descobriram que as vacas gostam muito de posicionar o corpo na direção norte-sul. Não acontece sempre, mas é o mais comum. Tal como os cães usam também o mesmo eixo norte-sul para largar os cocós que fazem ao ar livre – não é piada, é mesmo um facto comprovado pela ciência.

Há uma razão para isso e é a mesma que leva também as aves marítimas, como patos ou gaivotas, a escolher o Norte para aterrarem sobre as águas. É o alinhamento com o eixo magnético da Terra, que já foi encontrado em muitos animais, desde abelhas, moscas da fruta, morcegos, alguns roedores ou raposas.

Prever o tempo é bem mais complicado. Pois se até os meteorologistas, por vezes, se enganam…

Agricultores, criadores de gado ou índios, no entanto, aprenderam a decifrar os comportamentos dos animais para tentar salvar as colheitas e protegerem-se das chuvas, secas ou invernos rigorosos. Neste capítulo, o «The Older Farmer’s Almanac» é, à semelhança do livro de Tristan Gooley, o guia a desvendar uma enormidade de sinais da Natureza.

A publicação americana editada desde 1792 tem, tal como a revista portuguesa «Borda d´Água», previsões meteorológicas, tabelas de marés ou gráficos sobre as melhores alturas para semear ou colher frutos, cereais ou tubérculos. Como também recupera a sabedoria popular para mostrar como os animais e as plantas sabem melhor do que os humanos antecipar os problemas que o tempo pode provocar nas suas vidas.

Prever o tempo com os animais

Jim Bendon | CC BY-SA 2.0

 Pássaros, gado ou cavalos têm um sentido especial para antecipar mudanças no clima. 

A gordura corporal, a espessura do pelo, onde escondem a comida ou os lugares onde estão os abrigos eram pistas a que os nativos americanos prestavam atenção.

Eles acreditavam, por exemplo, que quanto mais sólidos eram os diques construídos pelos castores, mais rigoroso seria o inverno. E, como tal, o melhor era porem-se a caminho do Sul.

Muitos outros sinais da Natureza podem ser encontrados neste almanaque. O Bicho Que Morde selecionou alguns:

☃ Invernos longos e rigorosos

  • Abelhas escolhem locais protegidos para fazer as colmeias (no interior de um armazém ou de um celeiro, por exemplo);
  • coelhos gordos em outubro e novembro;
  • Cascas de maçã duras ou cascas de cebolas grossas;
  • Uivos de lobos antecedem tempestades;
  • Silêncio na floresta é também sinal de tempestade a caminho.

🌈 Bom tempo

  • Morcegos a voar pela noite dentro, até quase de madrugada;
  • Pássaros a voar alto no céu (quando voam baixo, é de esperar mudança brusca no tempo);
  • Pássaros a cantar.

☔ Chuva

  1. Cavalos e gado esticam o pescoço e cheiram o ar;
  2. Gado deita-se no pasto;
  3. Porcos ficam inquietos;
  4. Andorinhas voam baixinho ou pousam nos beirais.

O termómetro da Natureza

 A cadência do cri-cri dos grilos é uma ciência exata para calcular a temperatura no exterior. 

Quem quiser saber qual a temperatura exata só tem de ouvir os grilos com atenção. O barulho que fazem ao roçarem as asas e as pernas nada mais é do que o truque dos machos para atrair as fémeas. Mas o ritmo do cri-cri é mais preciso do que um termómetro.

A descoberta foi feita por Amos Dolbear. Em 1897, o físico americano defendeu que a temperatura no exterior condiciona a cadência dos cri-cris dos grilos. A tese já foi cientificamente testada pela meteorologista americana Margaret (Peggy) LeMone, a mesma que também já calculou o peso de uma nuvem, como o Bichinho das Contas mostrou aqui.

Uma das poucas fórmulas traduzidas para graus celsius está também no «The Older Farmer’s Almanac».

Para converter o som dos grilos em graus celsius, é preciso contar o número de cri-cris emitidos em 25 segundos. De seguida, dividir esse valor por três. E, por fim, somar o número quatro.

Exemplo: 48 cri-cris ÷ 3 + 4 = 20 °C.

Quem tiver ouvido e paciência para escutar os grilos nunca mais precisará de consultar a meteorologia no smartphone.

😜

Antes de partires, espreita este curioso artigo: Porque é a Natureza (quase) toda simétrica?
E, já agora, se quiseres descobrir os incríveis segredos das árvores e das plantas, lê também o artigo Porque é bom falar com as plantas?

Boas férias e desfruta a Natureza!! 🐝🐞


Por que quase nunca vemos o que está à frente do nariz?

Em qualquer cidade, há sempre grandes avenidas com muitos prédios – uns antigos, outros não tão antigos, alguns bonitos, outros feios e outros nem bonitos nem feios. Quem, no meio da correria do dia a dia, apanha o metro ou o autocarro, entra no escritório ou sai de casa não repara nessas diferenças.

As pessoas descem e sobem a rua todos os dias sem virar a cabeça para cima ou para os lados. Ninguém vê os prédios bonitos. A não ser que haja um ou mais turistas pelas redondezas. Eles não têm pressa, nem hora para almoçar, chegar a casa ou ir trabalhar. Passeiam pelas cidades com o nariz no ar, tiram fotos e acham piada a tudo porque tudo é diferente: os azulejos nas fachadas, as portas de madeira trabalhadas, as floreiras e os estendais na varanda, os gatos e as velhotas à janela.

E nós, que andamos todos os dias pelas nossas cidades, não reparamos no que está mesmo à frente (ou por cima) do nosso nariz. Por vezes, basta atravessar o passeio para descobrir uma nova perspetiva da rua que julgávamos conhecer de olhos fechados. Os lugares, os objetos, os sabores e até as pessoas quando se entranham nas nossas rotinas, tornam-se muitas vezes invisíveis. Entramos em modo automático e desligamos o sensor para aquelas coisas que sabemos estarem ali à mão todos os dias.

Quem se dá ao trabalho de sentir sabor da água da torneira? Seria preciso um paladar muito apurado para detetar o cálcio ou magnésio usados no seu tratamento, certo? Mas, quem diz a água, diz também o cheiro da roupa acabada de sair da máquina de lavar, os microtremores do metro a passar por debaixo da terra, os corredores de luz solar a atravessar a cozinha pela manhã, os arbustos floridos junto à estrada ou as janelas dos prédios iluminadas quando anoitece.

No dia a dia, essas pequenas coisas passam ao lado. Olhamos sempre para os mesmos sítios, repetimos mais ou menos os mesmos gestos, usamos as mesmas palavras e fazemos quase sempre os mesmos caminhos.

Há quem se levante da cama e a primeira coisa que faz é calçar as pantufas e correr para a casa de banho esvaziar a bexiga. Quem chegue a casa depois da escola e faça primeiro os TPC e depois vá lanchar. Quem beba um café em chávena escaldada depois do almoço. Ou quem leve o cão a passear sempre pelas mesmas ruas e sempre ao mesmo jardim (esperemos também que apanhe sempre os cocós que eles largam na rua).

É mesmo assim e nada de errado com isso. Há uma série de comportamentos programados no nosso cérebro para facilitar as decisões que precisamos tomar todos os dias. Que canseira seria todas as manhãs pensar se primeiro lavamos os dentes ou comemos o pequeno-almoço. Se tomamos banho de manhã ou à noite. Se calçamos as meias antes ou depois das cuecas. Ou ainda se vamos para a escola pelo caminho do jardim ou pelo caminho da padaria. Loucura, verdade? Agora imaginem como seria se tivéssemos de tomar estas pequeninas decisões do princípio ao fim do dia…

O nosso inconsciente usa os hábitos repetidos dia após dia para tomar esse tipo de decisões, libertando-nos para tarefas mais importantes como atravessar a estrada com cuidado, tomar atenção nas aulas, fintar um colega ou uma colega e marcar um golo, não chegar atrasado ou atrasada a um compromisso e tantas outras tarefas, que exigem tudo de nós.

A vida todos os dias

 

 As rotinas adormecem os sentidos e deixam escapar as boas coisas da vida. 

As rotinas são muito úteis. Em alguns aspetos, tão úteis como as secretárias e os secretários administrativos que organizam o dia-a-dia de escolas, de instituições ou de empresas. Só que é preciso cuidado para não deixar adormecer os sentidos por essas mesmas rotinas. Elas criam uma falsa sensação de monotonia, deixando escapar aqueles detalhes que, à primeira vista, parecem insignificantes.

E, depois, só damos por falta delas quando acabam ou são interrompidas. Imaginemos que, por absurdo, os nossos avós decidissem que já somos crescidos para nos lambuzarem com beijinhos sonoros e melosos? Ou que o Jacarandá da nossa rua adoecesse e tivesse de ser cortado? Ou que o café da Alzira, na esquina do bairro, fechasse para sempre.  Como diz Winnie the Pooh, esse grande sábio da literatura infantil, «as coisas pequenas são aquelas que ocupam mais espaço no nosso coração.»

Só que as coisas pequenas desaparecem num instante. Não lhes prestamos a devida atenção porque estão sempre a se repetir. Não escutamos os passarinhos pela manhã, não damos grande importância aos sorrisos de bom dia, de boa tarde e de boa noite que nos oferecem a torto e a direito, não perdemos tempo a olhar o céu estrelado ou não saboreamos demoradamente os ovos mexidos ao pequeno-almoço dos sábados.

Que importância têm essas miudezas? Muita, por acaso. Experimentem pensar em todas as boas miudezas que acontecem todos os dias ou quase todos os dias. Agora imaginem viver sem elas.

Podemos até programar o nosso cérebro para tomar decisões simples, mas não somos robôs. Sabemos que a vida é feita de momentos grandes, mas principalmente de infinitos momentos pequeninos. É preciso, por isso, estar atento: nunca se sabe quando o melhor momento das nossas vidas está mesmo diante do nosso nariz.

Já que estamos a falar de nariz, mete o bedelho também nestes dois artigos:

 🌼Por que cheiram tão bem os livros?

🥶Por que dão os esquimós beijinhos com o nariz?

Quanto pesam as palavras?

O Bichinho das Contas, acostumado a ver números em todo o lado, inventou várias fórmulas para calcular o peso das palavras.

 

Exercício 1

a) Separar uma palavra comprida e outra curta

b) Pesar cada uma delas

Oftalmotorrinolaringologista (28 letras) | Pé (2 letras)

 

Exercício 2

a) Arranjar uma palavra com mais consoantes e outra com mais vogais

b) Ver qual a mais pesada

Presunçoso (5 consoantes + 3 vogais) | Fogueira (5 vogais + 3 consoantes)

 

Exercício 3

a) Aumentar e diminuir o grau dos substantivos

b) Verificar se ganharam ou perderam peso

Papelão e papelinho | rapagão e rapazote | cabeçorra e cabecinha

 

Há ainda outras pesagens que podem ser feitas entre as palavras esdrúxulas, graves e agudas ou entre as palavras monossilábicas (1 sílaba), dissilábicas (2 sílabas) ou polissilábicas (3 ou mais sílabas). E, já agora, verificar também se os acentos e as cedilhas contribuem ou não para o peso oscilar.

O Bichinho da Contas ficou só pela teoria. É preciso ser muito esdrúxulo para julgar que se pode agarrar nas palavras e pesá-las numa balança. Elas não são coisas que se enfiam nos bolsos para usar quando se tem frio ou comer quando se tem fome.

Mas, então, porque se diz para pesar ou medir bem as palavras?

O peso ou a medida, no caso das palavras, tem a ver com a forma e tom como são ditas. E também com o conjunto de palavras que se escolhe para construir uma frase. É o que se diz, por que se diz e como se diz, portanto, que carregam uma ou várias palavras de significados que confortam, alegram, afrontam, alertam ou até assustam.

Uma banana , por exemplo, é só uma banana. Quando ganha vida, porém, passa a ofensa. Ninguém gosta de ser uma banana ou um banana, sem vontade própria e enganado por qualquer um.

 

As palavras, por isso, pesam e têm de ser medidas. Mas não se chega a lado nenhum usando uma balança ou uma fita métrica. O peso das palavras está no impacto que provocam em quem as ouve. Não é possível tocálas, muito menos agarrá-las. Mas são elas que dão forma às nossas ideias, moldam e expulsam os pensamentos que, de outra maneira, ficariam solitários na nossa cabeça.

As palavras, no sentido literal, não são quadradas ou redondas, não escorregam, nem arranham, não são leves nem pesadas. Muito embora, umas sejam mais difíceis de pronunciar do que outras. A facilidade com que se diz «folha» ou «lençol» não é a mesma para palavras como «caramelizado» ou «atrofiado». Aquelas com mais consoantes são as que, por regra, dão mais trabalho às nossas cordas vocais, precisando ultrapassar uma maior quantidade de obstáculos até saírem pela boca e, muitas vezes, também pelo nariz.

Ao contrário das vogais – que se formam com uma simples vibração do ar –, as consoantes precisam dos lábios, dentes, língua, céu da boca e ainda do sininho da garganta (úvula) para saírem perfeitinhas.

Fáceis ou difíceis de pronunciar, se convivermos algum tempo com elas, são capazes de surpreender e mostrar formas, texturas, tamanhos, temperaturas e muitas outras características atribuídas a objetos e pessoas.

São os escritores, os compositores e os poetas em particular que melhor tiram partido destes atributos. Brincam com a gramática, jogam com as palavras, tiram-nas do seu contexto, carregam ou trocam os seus significados e, ainda assim, elas continuam a fazer sentido.

 

 

É preciso talento, inspiração e trabalho para escrever como um poeta, mas não é preciso ser poeta para sentir o peso das palavras. Não só o peso, mas tudo no que elas se transformam quando lhes damos a devida atenção.

Frustrado com os primeiros exercícios, o Bichinho das Contas decidiu emendar o erro, inventando outras formas de avaliar os atributos das palavras. E não é que, desta vez, até faz algum sentido?

O que te vem à cabeça quando pensas em…?

 

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👂 E, por falar em palavras, já leste o artigo «Ninguém resiste a uma frase orelhuda»?

Quantas notas soltam os pássaros num segundo?

pássaros

Um segundo é suficiente para os pássaros soltarem 45 notas (sílabas vocais) de uma assentada. Algumas espécies até conseguem esticar o canto por mais de 7 segundos antes de iniciar um novo pio. E isso nem é o mais espetacular. Há os que são capazes de, em plena atuação, subir e descer as notas musicais (frequências de som) em simultâneo, além de emitir dois tons distintos ao mesmo tempo. Se isso não é uma dádiva da Natureza, o que será?

Se fossem cantores profissionais, os tenores, os sopranos ou os barítonos teriam na passarada uma séria concorrência. Uma concorrência desleal, é preciso que se diga. O talento dos pássaros esconde-se na siringe, algo que nós não temos e sem o qual eles piavam baixinho. Trata-se de um aparelho vocal localizado no fim da traqueia, ramificado em dois canais controlados de forma independente. É o que basta para permitir todas estas proezas que, na voz dos humanos, fariam maravilhas.

Há contudo uma coisa que humanos e pássaros têm em comum: as mesmas escalas musicais. Ou seja, os passarinhos também aplicam a matemática para compor as suas melodias. A descoberta, feita em 2014 por biólogos da Universidade de Viena, não será tão surpreendente assim. Afinal, os conceitos baseados em princípios matemáticos (como a álgebra ou a lógica) estão sempre presentes na natureza.

Dueto homem-pássaro

Pássaros e humanos não só
partilham a mesma escala
musical como usam as mesmas
 zonas do cérebro para o canto
 e para a fala.

Outra investigação, também feita em 2014, descobriu que o canto das aves tem algumas relações de parentesco com a nossa fala, apesar de a nossa linguagem ser muito mais complicada. O estudo, da Universidade Duke, nos EUA, conclui que pássaros e humanos usam partes do cérebro semelhantes para comunicarem entre si e ainda que há dezenas de genes comuns por detrás dessa habilidade. É por isso que vários investigadores estudam o canto dos pássaros especificamente para entender como os humanos aprendem a falar e como corrigir algumas deficiências da fala causadas por doenças.

Outros aspetos sobre o canto das aves já são há muito conhecidos pelos ornitólogos, especialistas em desvendar a vida secreta dos pássaros. Além de exprimir medo perante um perigo, o canto das aves serve sobretudo para dizer aos rivais que aquele lugar é território dele e não querem intrusos a rondarem a zona. É por isso que são mais os machos que as fêmeas a usar os seus dotes artísticos.

Não é a única utilidade do canto, o cortejo desempenha um papel muito importante. Quanto mais habilidosos forem os machos, mais hipóteses têm de arranjar uma companheira. São elas que escolhem com quem vão acasalar, mas do que uma gosta a outra pode não gostar. Tal como em todas as artes, também os cantos dos pássaros não tocam o coração de todos (de todas, neste caso) de igual maneira. E há sempre espécies mais picuinhas do que outras. As pardalitas dos Estados Unidos, por exemplo, são muito exigentes com os machos, escolhendo os parceiros que menos erros cometem durante o canto, como demonstrou o estudo da Universidade do Porto, conduzido por Gonçalo Cardoso.

É que não basta usar apenas os dotes que a natureza deu. Cantos há muitos, do mais elementar ao mais elaborado. O pardal Zonotrichia leucophrys canta uma melodia muito simples, com uma ou duas sílabas que repete sem se cansar. As corruíras têm centenas de repertórios e o Toxostoma rufum (espécie de tordo norte-americano) tem mais de dois mil cantos. Mas não é por usarem todas as notas da pauta que os machos aumentam as chances de arranjar uma parceira.

Muitas vezes, como demonstrou outro estudo do investigador português, os malabarismos vocais de pouco servem. O que elas apreciam mesmo é a forma como cantam, a interpretação ou, como diriam alguns, a alma que eles colocam na sua atuação. Se uma ave canora não tem um grande repertório de sílabas para apresentar, poderá sempre apostar na criatividade, combinando a repetição com mudanças rápidas de frequência de som para conquistar a fêmea. Quando estão a namorar, contudo, ele e ela são capazes de interpretar em dueto as mais românticas melodias misturando sons e tons que vão do simples ao mais complicado.

Talento não é tudo

O canto não é um dom
inato. Os filhotes nascem
com algumas noções
básicas, mas tudo o resto
aprendem com os adultos

Este como qualquer outro talento requer trabalho, treino e esforço, não é uma dádiva da Natureza. Quando um passarinho nasce, já tem no seu código genético as instruções para soltarem os pios mais básicos, que servem para chamar a atenção quando têm fome ou estão em perigo. Mas não são mais do que gritos de socorro (ou choros de bebé) sem nenhuma sensibilidade artística. Tudo o resto, ou seja, os sons melodiosos são aprendidos com os mais velhos.

Cada espécie tem a sua própria linguagem, mas por vezes, dentro da mesma família há variações e dialetos usados por pássaros separados por longas distâncias. É preciso ter em conta que há 18 mil espécies de aves conhecidas a sobrevoarem o nosso planeta, cada qual com os seus caprichos de artista. Um melro-preto português, por exemplo, pode não entender patavina do que diz o seu primo neozelandês.

Esse mesmo melro, aliás, pode ter um pio mais ou menos estridente se estiver no parapeito de um prédio no centro de Coimbra ou num sobreiro de uma planície alentejana. Os passarinhos da cidade têm de ter um pio muito mais agudo para se sobrepor aos ruídos urbanos e conseguir conversar com os outros passarinhos. Por tudo isso e muito mais, já deu para perceber que, o canto das aves é belo, mas de simples tem muito pouco.

Um segundo basta para um pássaro soltar 45 notas. Algumas espécies conseguem esticar o canto por mais de 7 segundos antes de um novo pio.

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🐦Sugestões para manhãs e fins tarde soalheiros

  • ▫▪▫ No website birdsongs é possível ouvir o canto de várias espécies de aves. Espreita aqui o canto das espécies que habitam o território português.
  • ▪▫▪ No WikiAves, website brasileiro para amantes dos pássaros, há gravações partilhadas com vários exemplos de canto de aves.
  • ▫▪▫ No website Aves de Portugal há dezenas de propostas sobre locais para observar aves.

O Principezinho faz 80 anos e esta é a história por detrás do clássico

O Principezinho

Tão cativante como o livro, é o que está por detrás do livro. Não se trata apenas da história de um Principezinho ansioso por descobrir outros mundos e encantado pelas coisas simples e belas da vida. É também um itenerário pelas melhores aventuras de Antoine Saint-Exupéry. E é, sobretudo, um testemunho da amizade entre o autor e Léon Werth. Separados pela Segunda Guerra Mundial, ambos permanecem juntos nesta obra que, 80 anos após a primeira edição, continua a viajar pelo planeta.

Algumas horas antes de partir para mais uma missão no norte de África, Antoine bateu à porta da casa de Sylvia Hamilton.

_ Olá! – cumprimentou ela, surpreendida – Não devias estar a voar?

_ Queria oferecer-te algo esplêndido antes de me ir embora, mas isto é tudo o que tenho – respondeu ele, atirando para a mesa do hall um envelope amarfanhado.

Dentro do embrulho está o manuscrito do seu mais recente livro – O Principezinho. São folhas e mais folhas preenchidas com diálogos, esboços e desenhos, que hoje estão no The Morgan Library & Museum, em Nova Iorque. Guardadas como se fosse um tesouro. Porque é disso mesmo que se trata.

Publicado nos Estados Unidos a 6 de abril de 1943 – e três anos mais tarde em França –, O Principezinho é um dos clássicos da literatura infantil mais importantes de sempre. O livro que Antoine Saint-Exupéry entregou à sua editora e amiga tornar-se-ia em pouco tempo num sucesso à escala mundial. Calcula-se que sejam à volta de 145 milhões de exemplares vendidose e que tenha sido traduzido para cerca 500 línguas e dialetos, incluíndo para o nosso mirandês, com o título de «L Princepico».

Um tesouro guardado no museu

O Principezinho

 

 O manuscrito está no The Morgan Library & Museum, em Nova Iorque. Guardado como se fosse um tesouro. 

As aventuras de um rapazito que sai do Asteroide B612 para viajar pelo Universo já deu milhares voltas ao planeta, entrando em culturas tão distantes como a da república russa de Altai, na Sibéria, a dos povos magrebinos, a dos índios guarani, na América do sul, a dos letões, na Letónia, a dos hútus e tutsis, no Burundi e no Ruanda, e a de tantas outras centenas de países e regiões que, se quiseres, podes consultar aqui.

Mas tão cativante como o livro é o que está por detrás do livro. Não se trata apenas da história de um Principezinho ansioso por descobrir outros mundos e encantado pelas coisas simples e belas da vida. É também uma viagem pela vida do autor. Ou melhor, é o resultado das melhores aventuras de Antoine Saint-Exupéry.

O Principezinho

Se esta obra começa com o narrador a lamentar o facto de nenhum adulto ter compreendido os seus anseios de artista, tal não acontece por acaso. Antoine, quando criança, adorava desenhar, mas, à volta dele, todos o avisavam para se dedicar a uma profissão mais séria. Deve haver algo que seja sério e ao mesmo tempo não me obrigue a passar os dias encafuado num escritório, pensa ele.

A escola naval seria uma boa solução, não tivesse reprovado nos testes. E é assim que ele se vira para a aviação. Em 1926 é admitido na Aéropostale, onde começa a carreira de piloto, voando entre Toulouse, Casablanca e Dacar. Enquanto aviador, ajuda a implantar rotas de correio aéreo em África, na América do Sul e no Atlântico Sul, além de inaugurar os voos Paris – Saigão e Nova Iorque – Terra do Fogo.

Um acidente no deserto

O Principezinho

 

 Antoine foi salvo pelos berberes quando o avião caiu no deserto da Líbia. Esse é o episódio que marca o início do livro. 

Numa dessas viagens de Saigão para Paris, Antoine é obrigado a fazer uma aterragem de emergência no deserto da Líbia. Sem mapas nem comunicações, ele e o mecânico andam perdidos entre as dunas somente com alguns mantimentos – um cacho de uvas, duas laranjas, um termo de café, uma tablete de chocolate e um pacote de bolachas. Ao fim do segundo dia, já nada sobra dessa comida. Ao quarto dia, estão tão desidratados que não avançam nem mais um passo. É quando uma caravana de berberes passa por eles. Saint-Exupéry e o seu mecânico são como uma aparição caída do céu para os nómadas, que lhes dão de beber e de comer, salvando-lhes a vida.

Esse é o episódio, passado em finais de 1935, que lhe dá a ideia para a história de O Principezinho. No livro, o narrador é um aviador que cai no deserto e ao acordar, depois do acidente, dá de caras com um rapaz de cabelos de ouro e um cachecol amarelo, que lhe pede para desenhar uma ovelha.

Esse rapaz que, antes de chegar à Terra, já passara por vários outros planetas, é uma lembrança que lhe fica da viagem de comboio entre Paris e Moscovo, em maio de 1935. Nas últimas carruagens, onde dormem os operários polacos, ele encontra uma criança com cara de anjo e com «uma bela promessa de vida», que ocupará o lugar de Principezinho na sua obra.

O «Principezinho» poderia também ser Léon Werth, um homem sonhador, generoso, justo e o melhor amigo de Antoine. Mas isso já são devaneios do Bicho-Que-Morde sem qualquer sustentação, a não ser a dedicatória no livro que começa assim:

Léon Werth (1878-1955)

Para Léon Werth.

Peço às crianças que me perdoem por dedicar este livro a um adulto. Tenho uma boa desculpa: este adulto é o melhor amigo que eu tenho no mundo. Tenho outra desculpa: este adulto pode entender tudo, até livros para crianças. Tenho uma terceira desculpa: ele vive em França, onde tem fome e frio. Precisa de consolo. Se todas essas desculpas não são suficientes, então quero dedicar este livro à criança que este adulto já foi. Todos os adultos já foram crianças (mas poucos se lembram.) Então eu corrijo a minha dedicatória:

Para Léon Werth,
Quando ele era criança.

 

Se «O Principezinho» também fala de coisas sombrias como solidão, vaidade de poderes ou obediência cega à autoridade, é porque Antoine Saint-Exupéry está profundamente amargurado com o triunfo do regime nazi na Europa. Quando as tropas de Hitler chegam a Paris, durante a Segunda Guerra Mundial, ele decide exilar-se nos Estados Unidos, desembarcando em Nova Iorque no mesmo transatlântico que o cineasta Jean Renoir, em finais de dezembro de 1940. Para trás fica Léon, um homem judeu, adepto dos ideais anarquistas e 22 anos mais velho do que ele.

Léon Werth passa os anos da guerra escondido em Saint-Amour, uma aldeia montanhosa junto à fronteira com a Suíça. Antoine ainda o visitará algumas vezes, mas nunca voltará a França, onde nasceu em junho de 1900. O exílio, aliás, é a razão por que «O Principezinho» é primeiro publicado em Nova Iorque e só depois em Paris.

É a partir dos EUA que Antoine luta contra a ocupação nazi. Tem 43 anos e ultrapassa em oito anos o limite permitido para continuar a voar. Pior ainda, os ferimentos sofridos em acidentes anteriores causam-lhe muitas dores, não conseguindo sequer virar a cabeça para a esquerda para verificar se havia aviões inimigos. Ainda assim insiste até ao fim em participar nas missões militares.

Antoine Saint-Exupéry (1900-1944)

Em abril de 1943, Saint-Exupéry parte com um comboio militar americano para Argel para voar com a Força Aérea Francesa e lutar com os aliados num esquadrão do Mediterrâneo. A 31 de julho do ano seguinte levanta voo num P-38 com o objetivo de fazer o reconhecimento de uma base aérea na Córsega. E desaparece sem deixar rasto.

Presume-se que o avião tenha sido intercetado pelos alemães. Os destroços só são recuperados 60 anos mais tarde, em 2003, e entregues no ano seguinte ao Museu do Ar e Espaço em Le Bourget, Paris. Léon Werth sabe da morte do amigo ao ouvir as notícias na rádio. Por essa altura, os aliados estão prestes a vencer a guerra, mas a tristeza impede-o de festejar. «Paz sem Tonio (era como chamava a Antoine) não é totalmente a paz», desabafa ele à imprensa. No final de 1944, a editora americana envia-lhe um exemplar e ele lê  finalmente a dedicatória do amigo.

«O Principezinho» é uma obra universal porque fala sobre tudo o que é importante para a existência humana. A amizade, naturalmente, também está lá. E a amizade entre Léon e Antoine é o que, 80 anos depois da primeira edição do livro, continua a viajar pelo planeta.

 

O Principezinho – Os desenhos de Exupéry

26d
candeeiro_st_exupery_le_petit_prince
CHAPITRE XIII
hroznys
jiboia engole elefante
lepetitprince
passaros-st_exupery_le_petit_prince
pozorovatelHvezdy
estudos preliminares
ovelha_st_exupery_le_petit_prince
capa
littleprince

Já leste a história por detrás de outro grande clássico infaltil: Winnie, o filósofo que faz tudo por uma colher de mel.

Por que usam e abusam os portugueses dos diminutivos?

diminutivos

Não se percebe a razão para os sociólogos, os antropólogos ou os filósofos ainda não se terem debruçado seriamente sobre este assunto da maior importância: por que gostam tanto os portugueses dos diminutivos, como os inhos ou os zitos? Seja um convite para um cafezinho, um obrigadinho/a para agradecer, um coitadinho para lamentar ou um beijinho na despedida. ❤️

Em cada dúzia de palavras trocadas numa conversa, há um ou dois diminutivos para reduzir ou suavizar o tamanho das coisas, das pessoas, dos lugares ou de sentimentos. Nada a ver com o «poquito», o «despacito» ou sequer com os restantes quatro sufixosillo/azuelo – ín/ina e ecito/a – dos hispânicos. Nem com as cinco diferentes terminações do holandêsjetjeetjepje e –kje.

Nenhum deles bate as cerca de três dezenas de sufixos na pontinha da língua portuguesa. O inglês também tem os seus casos curiosos como o «daddy», o «sweetie» ou o «tinny».

Mas, não são como os nossos diminutivos, em que basta colar três ou quatro letrinhas no finalzinho da palavra – geralmente um «INHO» ou um «ZITO» -, e já está! Um rapazinho, por exemplo, será sempre um «little/small boy» entre os anglo-saxónicos. E, já agora, um petit garçon entre os francófonos ou um kleiner junge para os alemães.

Há muitas línguas por este mundo fora a usar o diminutivo.

Exceção, talvez, para os nórdicos, como os dinamarqueses ou os suecos, que não perdem tempo com essas pieguices.

O português, esse, usa e abusa deles. Os sufixos podem ser colados aos pronomes (euzinha ou aquelazinha, populares entre os brasileiros), aos substantivos (peixinho, solzinho, friozinho), aos adjetivos (quentinho, bonzinho, gordinho) e até aos advérbios (devagarinho, pertinho, direitinho).

🌦 Chuvisco de sufixos

A variedade põe a cabeça a andar à roda. Não é só o INHO(A) e o ZINHO(A). Há ainda a SITA(O)/ZITA(O) para casita ou rapazito, por exemplo. O ISCAR para mordiscar ou chuviscar. Ou ISCO para marisco (pequeno animal do mar) e para asterisco que, na sua origem, é um astro mínimo na vastidão do universo.

Há também CULA(O) para película, cutícula (pele) ou gotícula, diminutivo de gota – que, por sinal, já é minúscula, mas alguém julgou não ser suficiente. Querem mais? EBRE para casebre, EJO para lugarejo, ECO para jornaleco, OCA para engenhoca, OTE para frangote, ITO para canito, ETE para murete, ILA para moçoila, ELHO para fedelho, ILHA para cartilha, INO para pequenino, UCHO para gorducho, USCO para chamusco, IM para pasquim e ICHO para rabicho.

E, agora, já chega? Só mais um porque tem mesmo piada (ou piadinha para não destoar): ELA para costela (costa), goela (do latim gulella, diminutivo de gula, garganta), ou tabela (do latim tabella, diminutivo de tabula, tábua).

Serve este último exemplo para introduzir peso do latim nos sufixos da nossa língua. Muitos diminutivos, aliás, deixaram de o ser há muito tempo, assumindo-se hoje como palavras de corpo inteiro.

Só mergulhando na sua raiz latina é que se descobre que, antes de serem mais, já foram menos.

O músculo, do latim musculu, é composto pela palavra mus (rato) + culo, que é a sua terminação diminutiva. Do mus saiu o mouse em inglês (ratinho em português). E por que está este roedor dos laboratórios associado ao músculo? A resposta está nos seus rápidos movimentos de contração e relaxamento.

Outro exemplo é caneta, um tubinho (ou cana) com uma ponta na extremidade. Cana veio do latim canna que, quando é pequena, é uma simples caneta, mas quando cresce vira um canhão.

O diminutivo até deu origem a novas espécies no reino dos insetos, sabiam? A mosca, se for da fruta, passa a mosquinha. Toda a gente sabe disso, mas, e o mosquito? Ah, pois… não é possível reduzi-lo mais ainda porque ele, coitadinho, já tem a sua raiz na palavra mosca + diminutivo ITO.

😵Enganadores e com muitos significados

Os diminutivos estão de tal forma enrolados na nossa língua que nem os nomes próprios escapam – Marianinha, Joãozinho, Fatinha ou Nandinho. Há quem ache ser um sinal de fraqueza. Deve ser por isso que, muitos deles, não têm permissão para sair de casa: Jojó é só para os amigos e família, e o mesmo para Sãozinha ou Nelito. Mas nem no caso dos nomes, nem noutro qualquer, será fraqueza. Quando muito intimidade.

Para quem não está familiarizado com a língua portuguesa, os diminutivos são muito enganadores. Só aqui, entre nós, sabemos a diferença entre dar um jeito e um «jeitinho». E que esperar um minuto não é o mesmo que «esperar um minutinho» (geralmente é sempre mais, há que reconhecer).

No capítulo do tempo, aliás, os sufixos conseguem ser tão precisos como um relógio suíço. Noitinha é noite que está prestes a começar, cedinho são as primeiras horas da manhã e tardinha não é muito tarde, mas também já não é cedo.

É preciso conhecer bem esta língua para perceber que, apesar dos seus minúsculos tamanhos, eles podem ser carinhosos, ofensivos ou depreciativos. Tudo depende daquela entoaçãozinha que se coloca na voz.

Exemplos, vamos a isso:

«Não há nada como a comidinha da mamã!» A comidinha aqui é o amor a transbordar pela panela. Mas quando «está na hora de ter uma conversinha», já sabemos que esse amor está suspenso e vem aí um ralhete.

Quando ouvimos «vidinha de sempre», desconfiamos que esse alguém está entediado com os seus dias. Mas, se nos responderem «é só uma constipaçãozinha», já sabemos que o mal-estar tem pouca importância.

Os sufixos são também muito eficientes para demonstrar irritação: «Não aguento mais o fedelho mimado!», desprezo: “Homenzinho insuportável!”, mas também um pouquinho de compaixão: «Coitadinho…».

E até para mostrar que algo é insuficiente: “Foi só uma semanita de férias, passou a correr.».

Por fim, os multifacetados diminutivos servem para a missão mais literal de todas. Sublinhar simplesmente a pequenez de algo: «Os duendes da floresta vivem escondidos na casota debaixo de um pinheiro.»

Antes da despedida, não queres ler: «Mentirinhas e traições da língua portuguesa»?

Agora é que é: adeusinho! 😘