Quantas coisas boas acontecem ao brincar ao ar livre?

brincar ao ar livre

Não precisamos de provas científicas para saber que brincar ao ar livre ajuda as crianças a crescer fortes e felizes. Ainda assim, não custa relembrar as vantagens do contacto com a natureza. O Bicho-que-Morde reuniu oito estudos que mostram como como um par de horas por dia a brincar nas matas, nos jardins ou nas florestas ajuda a combater a miopia, a melhorar o desempenho escolar, a memorização, a autoestima e muito outros benefícios que se podem prolongar na vida adulta.


Tira os olhos do ecrã e vai estendê-los ao sol

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O estudo da Universidade de Queensland, Austrália, demonstrou que brincar ao ar livre previne e combate a miopia. Com uma hora por dia, no mínimo, já se veem alguns resultados, mas dobrar esse tempo é o ideal. Crianças e adolescentes conseguem prevenir o surgimento da miopia e até travar a sua progressão ao passarem algumas horas expostos à luz solar.

 

Saberá a polícia que as árvores combatem o crime?

brincar ao ar livre

O Laboratório de Paisagem e Saúde Humana, da Universidade do Illinois, estudou a relação entre o crime e o número de árvores em bairros de Chicago, nos EUA. Resultado: nas zonas próximas de espaços verdes, os investigadores encontraram uma taxa de criminalidade 7% mais baixa. Os moradores sem acesso a zonas verdes apresentaram também menor capacidade de concentração e dificuldades em controlar os seus impulsos mais agressivos. Uma outra conclusão interessante é que os bairros com mais árvores incentivam mais as pessoas a sair de casa.

Agarrem nos cadernos e vamos lá para fora

brincar ao ar livre

As atividades ao ar livre são tão importantes que deviam ser obrigatórias nos currículos das escolas. Esse é o aviso que os investigadores das universidades de Plymouth, no Reino Unido, e de Western Sydney, na Austrália, deixaram no relatório The Student Outcomes and Natural Schooling. Os benefícios não se veem apenas na aprendizagem e na saúde. A mudança de ares ajuda também a melhorar o comportamento, a capacidade para enfrentar problemas, os níveis de confiança e as habilidades para saber lidar com os feitios dos outros.

 

Brincar é ganhar consciência ambiental

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Quanto mais contacto com a natureza durante a infância, maior o envolvimento com as causas ambientais na vida adulta. Os efeitos de brincar ao ar livre são duradouros, garantem as investigadoras do Departamento de Design e Análise Ambiental e do Departamento de Desenvolvimento Humano da Universidade de Cornell.

Nancy Wells e Kristi S. Lekies entrevistaram dois mil nova-iorquinos entre 18 e 90 anos para perceber como a infância foi determinante para desenvolver a consciência ambiental. Brincadeiras nas matas e florestas, pesca e piqueniques estão entre as atividades que mais contribuíram. Mas o peso de colher flores, plantar árvores ou sementes e cuidar de plantas em casa não é menos valorizado. As atividades ao ar livre são decisivas, mas é igualmente importante incentivar esse gosto através de revistas, programas de televisão e livros.

Cada jardim é um exercício de memória

Brincar ao ar livre

Saltar e pular em jardins e parques faz maravilhas à memória, conclui a investigação da Universidade de New Hampshire, que estudou o cérebro de 1410 crianças entre os dois e os cinco anos. Os que passaram pelo menos dez horas semanais com adultos em jardins ou parques conseguiram decorar novas palavras de uma forma cinco vezes mais eficaz do que aquelas que passaram menos tempo a brincar com os adultos nos jardins. A principal razão para esse fenómeno está na maior quantidade de estímulos para os olhos, o nariz e pele.

Sossegar a correr nas planícies

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Basta expor crianças e adultos diagnosticados com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) a imagens de paisagens verdes para se verificar uma ligeira mudança no comportamento, sobretudo na concentração e na capacidade para controlar os impulsos. O que acontecerá então quando passam da teoria à ação?

Através de entrevistas aos pais de 400 crianças com TDAH, os investigadores da Universidade de Illinois encontraram uma ligação entre o seu comportamento e as brincadeiras em jardins e parques. Aquelas que brincam regularmente ao ar livre, rodeados de árvores e plantas, têm sintomas mais leves do que as que brincam dentro de casa ou ao ar livre sem espaços verdes. No caso de sintomas mais severos, as crianças apresentam algumas melhorias quando brincam em espaços verdes amplos e sem obstáculos, como planícies relvadas ou campos de futebol, por exemplo.

A felicidade é uma tenda junto ao lago

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Acampar uma vez por ano é o suficiente para melhorar o desempenho escolar e contribuir para a felicidade de toda a família. A conclusão é do Instituto de Educação da Universidade de Plymouth, que entrevistou mais de cinco mil pais e filhos do Camping and Caravanning Club. Os resultados do inquérito mostraram que 4 em cada 5 pais acreditavam no efeito positivo desta prática sobre o desempenho escolar.

Os papás estão convencidos de que o acampamento ajuda na compreensão de matérias relacionadas com as disciplinas de Geografia, História e Ciências. O que não é descabido tendo em conta que as atividades mais frequentes nos acampamentos envolveram procurar plantas e animais escondidos em pedras e na vegetação e caminhar pelos trilhos onde as crianças descobriram ecossistemas e identificaram novas formas de vida.

Quando perguntado às crianças o que mais gostavam nos acampamentos, as respostas mais comuns foram: fazer amigos, brincar ao ar livre e aprender os vários truques de campismo. Outros efeitos como confiança, alegria, respeito pela natureza, capacidade de interagir em grupo foram também relatados pelos pais como importantes.

A ciência de bem chapinhar nas poças

Brincar ao ar livre

Saltar à corda, brincar na terra, construir castelos de areia, correr atrás das galinhas, chapinhar nas poças não fazem bem apenas à saúde. É também benéfico para desenvolver a coordenação motora e cognitiva, a sociabilidade e a resolução de conflitos. As conclusões do estudo da Universidade de Illinois nem são assim tão surpreendentes, mas servem para confirmar que o contacto regular com a natureza é algo indispensável na rotina de todas as crianças. E dos adultos, que também merecem ser felizes!

Agora que sabes o bem que faz brincar ao ar livre, arrasta os adultos para fora de casa e leva-os a redescobrir a alegria que é respirar a natureza.

🦋🐞🐛🐝 Se és um ou uma amante da natureza, vais gostar de saber também quantos insetos vivem no nosso planeta

Por que é o comboio muito melhor do que o avião?

O Bicho-que-Morde não é de impingir os seus gostos a ninguém, mas há que dar razão aos maluquinhos do comboio. Não é só porque, entre todos os transportes, é o mais amigo do ambiente. Nem somente porque, nos seus carris, surgiram muitos enredos dos clássicos da literatura. Ou tão-pouco porque a sua chegada trouxe o progresso a cidades, vilas e regiões. É por tudo isso e sobretudo porque viajar não significa correr com sofreguidão até ao destino. O caminho para lá chegar é o que mais importa. Tal e qual as grandes viagens que fazemos para alcançar as nossas maiores conquistas.

comboio

Alguém pode explicar qual é a piada de viajar de avião? Viajar de avião é como entrar num cilindro metálico, com duzentos e tal passageiros esperando o sinal luminoso para desapertar o cinto e partir à descoberta de um destino. O comandante, fechado no cockpit, tem um pacto com o relógio e por isso é cego. Só lhe interessa cumprir horários e aterrar em segurança.

Mas, qual é a urgência? Uma viagem não é uma corrida do ponto A ao ponto B. Não se deixem enganar, uma viagem não começa quando se desembarca no aeroporto. Uma viagem começa quando algo – nunca sabemos muito bem o quê – nos impele a querer descobrir um lugar. Uma viagem começa sempre com um sonho. E podemos estar uma vida inteira a sonhar com o Japão, a Índia ou o Alasca. 

Uma verdadeira viagem tem dezenas de etapas e ainda milhares de pontos entre a partida e a chegada que se revelam pela janela. É verdade que podemos fazer o mesmo pela janelinha do avião, mas a visão que temos das alturas são pontinhos indistintos, terras retalhadas aos quadrados, luzes minúsculas ou tapetes acolchoados de nuvens a esconder tudo o que se passa lá em baixo.

Atravessamos cidades, florestas, desertos, países, mares e continentes sem desfrutar de uma única paisagem.

O maquinista do comboio, esse, faz questão de trilhar a ferro os melhores caminhos para passar por arrozais de perder de vista, túneis, penhascos e pontes suspensas, crianças a brincar em campos improvisados de futebol, roupa estendida nas varandas, ovelhas enfastiadas a ruminar nas pradarias, gatos a dormitar nos apeadeiros, vinhas, plantações de chá e café, vales e cordilheiras.

Carro, comboio ou avião?

Comboio

 O comboio polui 32 vezes menos do que o carro e 23 vezes menos do que o avião. 

A esta altura da viagem, haverá provavelmente um empertigado a lembrar que, com o carro, podemos percorrer os mesmos lugares. Sim, podemos, e ainda com a vantagem de parar sempre que nos apetecer, passar a noite numa cidadezinha simpática ou até mudar o roteiro das férias. Mas convém relembrar que o automóvel é a última hipótese a considerar.

Se o avião é uma má escolha para o ambiente, o automóvel consegue ser pior. Na corrida pela preservação do planeta, ele chega sempre em último. A agência francesa para a transição ecológica (ADEME) cronometrou esta competição e concluiu que o comboio polui 32 vezes menos do que o carro e 23 vezes menos do que o avião.  Por isso, deixemos o egoísmo de lado e voltemos ao bom e velho comboio.

Há que ter apreço pela sua História, ela própria uma viagem a transportar, desde 1825, carga e passageiros em locomotivas a vapor que vieram com a Revolução Industrial. A Portugal, só chegariam três décadas depois com a primeira ligação ferroviária entre Lisboa e Carregado.

Desde o século 19, o comboio trilhou caminhos por entre desertos, montanhas e selvas e inaugurou cidades e vilas, que prosperaram como cogumelos em lugares até então longínquos e inóspitos. O Entroncamento, no distrito de Santarém, é um exemplo clássico. Com a chegada dos caminhos de ferro, deixou de ser um uma povoação desolada para se tornar numa freguesia, em 1926, passando a vila em 1945 e, por fim, elevada a cidade em 1991.

O Entroncamento deve tudo ao comboio, até o nome pelo qual ficou conhecido por ali se cruzarem (ou entroncarem) as linhas do Norte (a ligar Lisboa ao Porto) e da Beira Baixa (Entroncamento – Guarda).

Tama, chefe da estação

Comboio
Sampei, CC BY-SA 3.0, via Japanese Language Wikipedia

 Com a sua eficiente fofura, a gata japonesa atraiu milhões de viajantes até à estação moribunda de Kisha.

Não por acaso, sempre que um governante, em qualquer parte do mundo, ameaça encerrar uma estação ferroviária, a população sai à rua, esperneia e luta para o comboio continuar a passar pela sua terra. O apeadeiro de Kishi, na cidade japonesa de Kinokava, passou precisamente por esse tumulto quando em 2007 teve ordem para encerrar devido ao fraco movimento. Num ato desesperado, os funcionários nomearam Tama como a nova chefe da estação e diretora de operações.

Nada disso seria especial não fosse o cargo ser desempenhado por uma gata.

Tama, apenas com a sua fofura (e competência), atraiu milhões de viajantes, que quiseram vê-la no seu escritório, trajada a rigor. Durante oito anos, a gata do anterior chefe da estação conseguiu que o comboio continuasse a parar em Kishi, contribuindo muitíssimo para desenvolver a economia da vila.

O mandato dela terminou com a sua morte em 2015. Mais de três mil habitantes compareceram ao seu funeral. Nitama, o gatinho que a substituiu, mantém até hoje a estação movimentada com centenas de passageiros a descer todos os dias no apeadeiro para tirar selfies. Kishi é uma entre muitas povoações a reconhecer a importância do comboio para não acabarem riscadas do mapa.

As viagens da nossa vida

Comboio

 Os percursos que fazemos ao longo da vida são travessias de comboio com dezenas de etapas ou apeadeiros.

Além de tudo o que significa para o progresso, o comboio é ainda a imagem perfeita para as viagens da nossa vida. Sejam elas pelo nosso interior, ajudando-nos a crescer, ou pelas nossas conquistas (e derrotas), com centenas de paragens até ao destino planeado nos nossos sonhos.

Nenhum médico para chegar a médico entra num túnel do tempo e sai de lá equipado de bata e estetoscópio pronto a tratar da nossa saúde. Um médico, um carpinteiro, uma arquiteta, um barbeiro, uma bióloga, um pianista ou uma presidente de uma empresa não são o que são sem primeiro terem feito uma grande viagem. Muitas vezes, errando no caminho, voltando a trás, mudando ou demorando mais em alguns apeadeiros até desembarcar, finalmente, no destino.

As nossas viagens pessoais são longas travessias em que não é possível saltar etapas. Não é possível porque cada etapa é também ela uma viagem dentro de uma viagem. E qual é a piada de ler ou ouvir uma história com princípio e fim, mas sem a parte do meio? A mesma, se calhar, que viajar de avião quando temos o comboio.

comboio

🚂Se ficaste com uma vontade irresistível de viajar, dá um salto às florestas equatorianas e descobre por que são os pigmeus tão baixinhos.

Imagem da gata Tama | Autor Sampei, CC BY-SA 3.0, via Japanese Language Wikipedia

Por que é preciso praticar a bondade todos os dias?

Fazer o bem não é só quando alguém precisa. Deve estar em tudo o que fazemos. Não pensem que é pieguice. Está cientificamente provado que a bondade mantém o cérebro ativo, traz felicidade, melhora o rendimento na escola e no trabalho, aumenta a resistência para enfrentar as dificuldades e contagia os outros com a nossa gentileza. Investigações recentes dizem que todos nascemos com ela, mas é tão frágil que precisa de treino diário para não desaparecer.


Sabias que a bondade mora num lugar especial do teu cérebro? Os neurocientistas dizem que ela está alojada no topo da espinha dorsal. O seu nome científico é nervo vago e consiste num feixe de fibras nervosas e musculares que o psiquiatra Stephen W. Porges, da Universidade de Illinois, em Chicago, também chama de «nervo da compaixão».

Além de estimular vários órgãos como o coração, o pulmão, o fígado ou aparelho digestivo, ele é também responsável por desenvolver sentimentos de compaixão, gratidão ou amor. Sempre que é ativado, esse nervo vai à luta, cria ligações entre as pessoas, devolve a tranquilidade quando estamos inquietos, conduzindo, de uma maneira geral, a uma vida mais feliz.

Praticar o bem é a melhor forma de pô-lo a trabalhar e, com isso, zelar pelo nosso bem-estar emocional, aumentar a resistência para enfrentar as dificuldades ou até melhorar os resultados na escola. Se formos bondosos para os outros, não é só o reino dos céus, o paraíso ou o nirvana que se abrem para os crentes. A generosidade é recompensada aqui e agora e é um grande trunfo para não deixar o cérebro envelhecer.

Um dom que nasce connosco

 bondade

A bondade nasce connosco e sem ela a humanidade não teria conseguido sobreviver.

A bondade faz parte da natureza humana desde o primeiro dia. A teoria já vem do século 18, com o mito do bom selvagem, e até caiu em descrédito, mas ganhou recentemente um novo fôlego. Psicólogos como Dacher Keltner, diretor do Laboratório de Interações Sociais da Universidade da Califórnia, defendem que ela é inata e indispensável para humanidade sobreviver e continuar a evoluir.

Compaixão, gratidão e respeito pelos outros sãos dons que nascem no cérebro e se desenvolvem em sociedade para facilitar a vida em comunidade. Apesar de não ser algo que se possa ver ou agarrar, todos somos capazes de reconhecer um ato de bondade. Saber o que nos leva a agir é que é mais difícil. Há várias emoções, como empatia ou compaixão, misturadas. O cérebro, todavia, não se deixa enganar e sabe distinguir cada uma delas.

A empatia – explica-nos Richard Davidson, professor de psicologia e de psiquiatria na Universidade de Winsconsin- Madison (EUA) – é a capacidade de sentir o que os outros sentem e a compaixão é o que nos leva a fazer algo para aliviar o sofrimento dos outros. Cada uma dessas emoções, além de estimular outros sentimentos, usa corredores separados para calcorrear os labirintos do cérebro.

É um mecanismo perfeito que desenvolvemos desde os primeiros anos de vida. Mas tão frágil que, se não for exercitada todos os dias, desaparece sem disso darmos conta. Uma das razões para a bondade não ser duradora é o ambiente não lhe ser favorável. Ela surgiu para facilitar a convivência entre pequenos grupos, como explica o antropólogo Michael Tomasello.

Acontece, porém, que a maioria da população mundial vive em grandes cidades, onde cada pessoa circula entre centenas ou milhares de estranhos. A bondade, não conseguindo acompanhar a evolução das sociedades modernas, está a definhar nos centros urbanos, mas vai resistindo nas aldeias, onde os laços entre vizinhos e família são ainda fortes.

Cuidado com as ilusões

 bondade

O cérebro valoriza mais as experiências negativas, moldando a nossa visão do mundo.

Uma das razões que nos leva a não praticar a bondade é julgar que ela desapareceu. Mas não é bem assim. Os especialistas estão convencidos de que muita da nossa desconfiança na humanidade é influenciada pela cultura em que vivemos, sobretudo pelas notícias que nos chegam da televisão ou da Internet e que trazem para a luz do dia injustiças, desonestidades de políticos ou de pessoas com poder, guerras ou violência. Essa atitude está também muito ligada às nossas experiências pessoais. O cérebro, tão inteligente para umas coisas, não tem o bom senso para ver que nem todos são vigaristas ou burlões.

O livro «O Cérebro de Buda», do neuropsicólogo Rick Hanson, explica que somos mais facilmente influenciados pelas experiências negativas do que positivas. Daí ser tão importante reprogramar o cérebro. Para os adultos é um bocadinho mais difícil do que para os mais novos, exige treino e persistência para valorizar o lado bom da vida. Temos de nos esforçar para viver em pleno e interiorizar cada experiência boa, que deixará marcas duradoras no nosso íntimo.

De cada vez que a mente se abre a um acontecimento positivo, o cérebro altera os seus circuitos, mudando, aos poucos, a nossa visão sobre o mundo. A realidade, para os neurocientistas – e para muitos outros investigadores das ciências exatas e sociais – é um espelho daquilo que vivemos e pensamos. E o mundo é feito de múltiplas realidades. Cada um pode escolher em qual quer viver – valorizar as alegrias ou se deixar arrastar pelas tristezas, julgando não existir nada mais além disso.

Levar a bondade além-fronteiras

 bondade

Uma das melhores formas de praticar a bondade é desejar o bem a todos, inclusive aos desconhecidos.

Seguir o caminho da bondade é o exercício diário que os cientistas recomendam em todas as idades para tonificar o cérebro. Não se trata apenas de atos heroicos ou de fazer o bem quando alguém precisa, mas também de pequenos gestos que preenchem o nosso quotidiano. Ser cordial no trânsito, dar passagem aos idosos, ajudar quem está desorientado, cumprimentar, sorrir e ser gentil para estranhos são algumas formas de treinar os bons sentimentos.

Uma das melhores maneiras de praticar a bondade é desejar o bem a todas as pessoas, inclusive aos desconhecidos com os quais nos cruzamos na rua, no metro ou na pastelaria. Ao fazermos isso, diz o investigador Richard Davidson, estamos a alargar o círculo da bondade, mudando não só a nossa experiência como a dos outros que são contagiados com a nossa gentileza.

E desta forma, tão simples, conseguimos expandir o alcance da bondade, que, a pouco e pouco, entra nas escolas, nos escritórios, nos transportes públicos, nos supermercados, nas repartições de finanças até, por fim, atravessar fronteiras, continuando o seu percurso, enquanto houver quem sorria e seja gentil com os outros.

🤔Se gostas de desvendar os mistérios da mente, o Que-Bicho-Te-Mordeu tem mais uma sugestão de leitura para ti: «Por que é (quase) tudo uma questão de perspetiva?»

◼◻◼ «Por que é preciso praticar a bondade todos os dias?» é uma versão simplificada do artigo «Praticar o bem para ativar o circuito neurológico da bondade», do Cantinho dos Papás, o subdomínio do quebichotemordeu.com.

ilustrações: Charles Kingsley e William Heath, «The water-babies: a fairy tale for a land-baby» (1915), Kingsley, Charles e Robinson, W. Heath (William Heath, Houghton Mifflin (Boston)

Quantos amigos é possível ter ao mesmo tempo?

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A pergunta põe-nos a pensar quantos e quem são os nossos amigos. Haverá, talvez, um ou mais gabarolas a dizer que são uns 300, 400 ou mais até. E outros tantos a esforçarem-se para preencher os dedos de uma só mão. A quem, entre estes dois extremos, já está a pensar que pertence ao primeiro ou ao segundo clube, os cientistas avisam: sejam as pessoas mais ou menos populares, o número raramente ultrapassa a meia dúzia.

O nosso coração pode ser enorme e espaçoso como um hotel de 100 pisos e a nossa vontade mais elástica do que o estômago de uma baleia. O problema é o cérebro, que tem um espaço limitado. Só há lugar para poucos. Mas bons.

A esta altura, já haverá uns quantos a pensarem que isso é conversa da treta. Então e os miúdos e as miúdas rodeados de amigos na escola ou no bairro? E as festas de aniversário? Algumas até são organizadas em jardins e pavilhões porque não há casa grande o suficiente para pô-los todos lá dentro.

Há uma certa dose de razão nesses argumentos. Na verdade – dizem mais uma vez os cientistas – os amigos do peito, ou seja, aqueles capazes de tudo para nos ver felizes e vice-versa, são cinco, um pouco mais ou um pouco menos. Mas há muitos outros de quem gostamos. São aqueles com os quais passamos um bom bocado à conversa ou na brincadeira, mas depois somos capazes de estar semanas ou meses sem os ver.

Os quatro círculos de amizade

amigos

Por não conseguir dar a mesma atenção a todos, o cérebro tem círculos para cada tipo diferente de amizade.

Sim, estes também podem ser chamados de amigos, mas é preciso separar as águas. Neste caso, os círculos para usar o termo científico correto. Todos podemos ter dois ou mais círculos de amizades, segundo o modelo de Robin Dunbar, antropólogo e psicólogo evolucionista da Universidade de Oxford. Um interior – onde estão os tais 5, 4, 3, 2 ou apenas 1 amigo. E três externos onde cabe muito mais gente.

Se o primeiro nível é para um grupo com cerca de 5 amigos próximos, o nível seguinte é para as cerca de 15 pessoas com as quais também partilhamos confidências. Ao descer mais um patamar, encontramos outros 50 amigos num outro círculo e com os quais estamos algumas vezes por ano. No último nível, o círculo mais largo de todos, conta com aproximadamente 150 amigos ocasionais.

Fora destes círculos estão os conhecidos, que podem ser à volta de 500. E, finalmente, aquelas caras que já vimos em algum lugar, mas não estamos bem a ver onde, e que podem chegar aos 1500 rostos, o máximo que o nosso cérebro consegue identificar.

É claro que estes números podem variar, dependendo da idade e do feitio de cada um. Há quem tenha mais amigos e quem tenha menos amigos. Mas AMIGOS DO PEITO é que não são mais do que meia dúzia ou nem tanto. O nosso cérebro é como uma mochila de tamanho único. Há um momento em que não é possível enfiar nem mais um lápis lá dentro. Se quisermos mesmo guardar um novo amigo especial, alguém vai ter de saltar para o círculo seguinte. É cruel, mas é mesmo assim.

Novos e velhos amigos

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À medida que crescemos, conhecemos mais pessoas e a atualizamos o catálogo das nossas amizades.

À medida que crescemos, vamo-nos apercebendo que há qualquer coisa de verdade nisso. Perguntem aos vossos pais o que é feito dos amigos deles da infância. Uns mudaram de escola e desapareceram. Outros foram morar noutra cidade ou país e também o seu rasto se perdeu. Alguns é bem provável que, depois de adultos, tenham deixado de ser interessantes.

Há motivos de sobra para os amigos ficarem pelo caminho. A principal razão é que estamos sempre a conhecer mais e mais pessoas, no trabalho, nas festas, nas casas dos amigos, a passear o cão, a viajar, no ginásio, enfim, oportunidades não faltam. Quando um amigo entra, por exemplo, no círculo interior, há outro que sai, ocupando um lugar num dos círculos exteriores.

E há um único motivo para não conseguirmos ter 20, 30 ou mais amigos no nosso círculo mais íntimo. Só um ou dois grandes amigos dá trabalho. E muito. É preciso estar por perto nas horas alegres, mas também nas horas tristes. É preciso ajudar, nem que seja só com um abraço apertado (é o suficiente, muitas vezes). É preciso aceitar que eles não são perfeitos e que, tal como nós, têm também dias maus. É preciso bastante empenho, razão pela qual o nosso cérebro não consegue despender tanta energia, procurando assim concentrar o esforço em poucos.

Amizades que nunca se esquecem

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Há amigos que nunca mais vemos, mas deixam marcas. Um dia, algo far-nos-á lembrar dele.

É verdade que os amigos e as amigas podem seguir caminhos diferentes. Mas o tempo que passam juntos deixará marcas. Há uma parte dele ou dela que fica contigo. E uma parte tua que o teu amigo ou amiga leva com ele ou com ela.

Um dia, algo te fará lembrar da vossa amizade. Uma pessoa, uma comida em particular, uma frase solta ou um lugar – é o suficiente para saber que, sem ele ou ela, a tua vida teria tido muito menos piada.

Não nos esqueçamos também que há amigos capazes de sobreviver a tudo. Amigos que crescem connosco e ficam cada vez mais próximos, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância. Mas, agora, não vale a pena pensar se será o Manuel, a Anabela, a Catarina, o João ou outro amigo ou amiga com um nome diferente. Podem ser todos até, nunca se sabe.

Como é impossível adivinhar, o melhor é aproveitar enquanto a amizade dura. Venha ela de 5, 4, 3, 2 ou um único amigo. Se é AMIGO, AMIGO, daqueles AMIGOS do peito, é o suficiente. Mais do que suficiente.

Ilustrações: Lilliput Lyrics (1899) | Charles Robinson

Fontes consultadas: Independent | BBC Future

👨🏼‍🤝‍👨🏼👩🏾‍🤝‍🧑🏻 Se a amizade é muito importante para ti também irás gostar de: «Quanto pesa a saudade?»

Rosa Mota. Corre, Rosinha, corre por Portugal!

Rosa Mota

Rosa Mota nasceu com uma deformação nos pés que lhe provocava terríveis dores quando corria. A asma deixou-a também sem fôlego quando treinava. Nada disso a impediu de ganhar, em 1982, a Primeira Maratona Feminina do Campeonato Europeu, em Atenas. E de vencer muitas outras grandes provas, tornando-se na primeira mulher portuguesa a conquistar uma medalha de ouro nas olimpíadas de Seul. Completam-se, este ano, 30 anos desde que ela deixou a alta-competição. Uma excelente oportunidade para o @bichoquemorde recordar um exemplo para todas (e todos) que correm atrás do impossível.


Viajemos até Atenas, no dia 12 de setembro de 1982. Pela primeira vez as mulheres participam numa maratona oficial da Associação Internacional de Atletismo. Pode parecer um absurdo agora, mas, há 40 anos, elas estavam impedidas de competir. Dizia-se que eram muito frágeis para tão grande esforço. Havia até relatórios supostamente «científicos» a alertar para o perigo de o útero descair, de pelos no peito e bigodes farfalhudos poderem surgir, como efeitos secundários, ou outras tantas desculpas descabeladas que hoje dão vontade de rir.

Apesar de Roberta Gibbs ter completado a maratona de Boston disfarçada de homem em 1966 e de Kathrine Switzer ter usado as iniciais do nome dela para fazer o mesmo no ano seguinte, há ainda, no início da década de 1980, muita resistência. Rosa Mota e o seu treinador, José Pedrosa, querem por isso saber se é mesmo verdade que as mulheres podem finalmente correr a maratona no Campeonato da Europa de Atletismo.

_ Onde ouviram tal coisa? Que disparate! – Responderam os dirigentes da Federação Portuguesa de Atletismo.

Rosa e José não estão convencidos. Portugal dos anos 1980 ainda é bastante isolado do resto da Europa. As notícias não correm rápido como agora. Não há internet, nem sequer telemóvel e os jornais estrangeiros chegam sempre com dias de atraso.

Rosa Mota parte com o treinador para a Grécia inscrita na prova dos 3000 metros, mas com a ideia de correr a maratona, caso ela viesse a acontecer. Podia ser que fosse verdade, mas também podia ser apenas um boato. Ela, como qualquer outra atleta, sabe que o machismo não desaparece por magia. Portugal também é um país bastante conservador e, quando ela começou a correr nas ruas da foz do Porto, em 1972, havia muitos olhares de desdém.

As mulheres deviam ficar em casa e o desporto era coisa de homens, ouvia enquanto treinava. Mas não eram alguns comentários maldizentes que lhe tirariam a vontade de correr. Rosa começou aos 14 anos, quando venceu três provas no liceu e a partir daí ninguém mais a parou. Nem a asma ou sequer o calcanhar de Aquiles que é o seu ponto fraco. Ela nasceu com uma deformação nos pés. Cada vez que dá um passo, o tendão pressiona o calcanhar e provoca dores. Se exagerar no esforço físico pode vir a desenvolver tendinites.

O calcanhar de Rosa

Rosa Mota

Treinos curtos e pausados e mais de um ano de reabilitação física prepararam Rosa para regressar ao atletismo.

A asma também não é para se menosprezar. Um ano e meio antes do Campeonato Europeu, estava dada como condenada para o atletismo. As corridas longas deixavam-na exausta e com falta de ar. Mas ela e o treinador não desistiram. Fizeram treinos mais curtos, preparação e reabilitação física rigorosa durante mais de um ano. E agora estão prontos para a prova de fogo – a maratona em Atenas.

Rosa Mota nem sequer dá nas vistas na prova dos 3000 metros, acabando em 12.º lugar. Mas a aposta é a maratona. Afinal, essa seria a competição a ficar para a História como a primeira com a participação de mulheres. Como adversárias, Rosa tem outras 27 atletas e está em desvantagem. É a sua estreia em competições internacionais e, mesmo durante os treinos, nunca correra mais do que 30 quilómetros de seguida.

Começa devagarinho, nos últimos lugares. Aos 10 quilómetros do início da prova leva um atraso de um minuto em relação ao pelotão da frente, o que é bastante. Acelera então o ritmo. Aos 15 km passa pelo segundo pelotão e ninguém dá por ela. Aos 20 km, tem quatro atletas a competir pelos primeiros lugares. Depois ficam três e, a 5 km do fim, está sozinha. É então que dá tudo o que tem por ainda temer o sprint final das adversárias. Deixa-as para trás, isola-se e entra sozinha no estádio, cortando a meta com mais de 100 metros de distância da segunda classificada.

Aos 24 anos, Rosa Mota vence, no dia 12 de setembro de 1982, a primeira maratona feminina, provando que a alta-competição é para homens e mulheres.

A vitória de Rosa foi um marco na História do atletismo mundial. E foi também o primeiro de muitos triunfos que se seguiram na carreira dela.

Depois de Atenas, ela conquista o primeiro lugar no Campeonato do Mundo em Helsínquia, em 1983. Nesse ano vence também a Maratona de Boston, acumulando a terceira vitória nesta prova. Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, sobe ao pódio para receber a medalha de bronze. Dois anos mais tarde, vence em Estugarda, Alemanha, com uma vantagem de mais de quatro minutos em relação à segunda classificada.

Em 1987 regressa a Boston para festejar a sua 7ª vitória e ainda vence, em Roma, mais uma prova, no Campeonato Mundial, cortando a meta com sete minutos e 21 segundos de distância das outras atletas, a maior vantagem até então alcançada numa maratona de alta-competição.

A medalha de Seul

Rosa Mota

É agora ou nunca! – Gritou o treinador. Rosa ligou o turbo, entrou no estádio de Seul sozinha e ganhou a primeira medalha de ouro feminina para Portugal.

Rosa Mota está imbatível quando, em 1988, chegam os Jogos Olímpicos de Seul. Por alguns dias, teme-se o pior. A federação impede-a de se inscrever em competições nacionais e internacionais como castigo por não ter participado, dois meses antes, no Mundial de Estrada. José Pedroso queria que ela estivesse 100% focada nas olimpíadas e, para poupá-la, retira-lhe todas as provas.

A desobediência origina um conflito com a federação de atletismo, obrigando o então presidente da República, Mário Soares, o primeiro-ministro, Cavaco Silva, e o ministro da Educação, Roberto Carneiro, a usar pinças diplomáticas para desembaraçar a embrulhada. Em vésperas da maratona, as expectativas aqui em Portugal são bem altas. A atleta é recebida, no dia anterior, pelo embaixador português em Seul que lhe oferece um ramo de rosas como se lhe dissesse: «Rosinha, vê lá não nos desiludas…» O ministro da Educação apanha um avião de propósito até à capital da Coreia do Sul para assistir à prova.

E, no dia 23 de setembro de 1988, os portugueses colam-se ao canal 1 da RTP. A corrida começa sem que Rosa Mota se destaque na multidão. Quase metade da prova está feita e é ainda impossível saber o desfecho. Ao quilómetro 25, ela tem ainda 12 candidatas dispostas a lutar pelo ouro. Mas, aos 38 quilómetros, José grita da berma da estrada:

_ ROSA, É AGORA OU NUNCA!

Ela liga o turbo e deixa para trás a australiana Lisa Martin, a alemã Katrin Dorre e a soviética Tatiana Polovinskaia. Ganha terreno, isola-se e, nesse momento, todos os portugueses que assistem a prova em direto na televisão percebem que ninguém mais lhe tiraria a vitória. Corre sozinha e entra no estádio com a multidão a aplaudir de pé.

_Corre Rosa, corre por Portugal! – Grita Jorge Lopes, o comentador desportivo da RTP.

Rosa corta a meta e ganha a primeira medalha de ouro feminina para Portugal, juntando-se a Carlos Lopes, que quatro anos antes, vencera a maratona masculina nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

A carreira de Rosa Mota continua com mais vitórias e medalhas até abandonar a alta-competição em 1992. Em 10 anos, correu 21 maratonas e venceu 14. É proeza única não só no desporto português, como a nível mundial. Em 2012, aliás, foi eleita a maior maratonista de todos os tempos pela Associação Internacional de Maratonas e Provas de Estrada.

Mas, nem por isso, a fama subiu-lhe à cabeça. Era isso que os colegas diziam dela. Ela cantarolava a toda a hora e tinha um sorriso fácil. Toda a gente achava que era uma rapariga simples, mas a verdade é que era também um mistério para todos eles. Nunca entenderam como conseguiu ganhar maratonas atrás de maratonas não fazendo aquilo que todos os outros faziam.

_ Ela é um enigma, não faz treinos longos como os outros atletas – confidenciou um dia aos jornalistas Bill Rodgers, que é também considerado um dos maiores maratonistas do mundo.

Poucos, nessa altura, sabiam que a asma e os problemas ortopédicos levaram a ela e ao seu treinador a inventar novos métodos e disciplina de treino. Correndo de manhã e à tarde, ela foi ganhando aos bocadinhos leveza e resistência para derrotar não só as suas próprias fragilidades como vencer as adversárias. Rosa despediu-se da alta-competição há 30 anos, mas deixou o seu exemplo para todos e todas que correm atrás dos impossíveis.

🌼🌼🌼 Conhece também a história de outras grandes mulheres portuguesas em: Se uma Maria faz muito barulho, o que farão três Marias?

Fontes consultadas: Arquivos RTP | Olimpic Channel | Saúde Ilimitada | ESPM | Observador |Revista Visão |

Toy Story: a verdadeira história dos brinquedos dos nossos pais

Brinquedos

Não é propriamente um segredo, mas não deixa de ter piada imaginar os nossos pais a pedinchar aos pais deles pelos brinquedos que fizeram sucesso há 20 ou 30 anos. Bonequinhos em miniatura, pistolas de água ou o primeiro videojogo, qualquer um destes objetos tem histórias intermináveis. As as melhores, no entanto, nem sequer estão aqui. Só quem brincou com estes tesourinhos pode contar as aventuras vividas na infância. Perguntem-lhes como era e vão ver como eles nunca mais se calam.


1970-1990

Carrinho de rolamentos

brinquedos

Tudo o que um carrinho de rolamento precisa é uma mão cheia de pregos, tábuas e, claro, rolamentos de transmissão, peças dos carros antigos que sobravam nas oficinas. Depois é só serrar aqui, martelar acolá e já está: prontinho para mais uma corrida pela ribanceira abaixo. Sem capacete, joalheiras ou cotoveleiras. Que se lixe! Arranhões, joelhos esfolados, cotovelos em ferida eram o preço da adrenalina. As corridas de carrinhos de rolamentos ainda hoje acontecem nas cidades ou nas terrinhas, mas o progresso acabou com boa parte do sofrimento. A brincadeira dos miúdos pobres é agora um desporto radical com pista de alcatrão e com equipamento e acessórios de segurança obrigatórios.

Playmobil (para rapazes) …

brinquedos

Hans Beck era um marceneiro alemão que nas horas vagas fazia bonequinhos de madeira. Tão talentoso era que acabou contratado pela fábrica de brinquedos Geobra Brandstätter para trabalhar como desenhista nos anos 60 do século passado. Os bonecos Playmobil surgiram em 1971, mas foi só com a crise do petróleo, dois anos mais tarde, que a ideia de Hans saiu da oficina e chegou às lojas alemãs. Os brinquedos, por terem somente 7,5 centímetros precisavam de pouca matéria-prima (plástico, derivado do petróleo). Mas esta não é a única característica deles.

As mãos em forma de u – que mais tarde passaram a girar – os braços e as pernas articulados, olhinhos redondos e um rosto sorridente são as marcas deste boneco que tão depressa se transforma num polícia, como num astronauta, num índio, num cowboy ou num pirata. Transformações que só têm piada porque trazem acessórios a condizer com o tema: tenda apache, nave espacial, espingarda, arco e flechas, entre outros.

Em 1975, o boneco playmobil é lançado internacionalmente, chegando a vários países, entre os quais Espanha e Portugal. No início da década de 2000, chegou também aos Happy Meals da McDonald’s, o que para boa parte das crianças foi como ter Natal em qualquer altura do ano, já que os brinquedos não são para os bolsos de todos os papás.

… e PinyPon (para raparigas)

brinquedos

Começou por ser um programa infantil chileno emitido a partir de 1965, mas a bonecada ficou famosa nos anos 1970 e 1980 depois de a marca espanhola Feber comercializar os brinquedos de plástico por toda a Europa e Américas. Medem 6 centímetros, têm várias roupas e cabeleiras para trocar, originalmente não tinham boca e surgiam quase sempre aos pares.

E como eram trabalhadores os primeiros Pinypons! Sabiam fazer de tudo um pouco, fosse numa quinta com vaquinhas e porquinhos, num circo com palhaços e malabaristas, a vender cachorros quentes à entrada de uma feira, a preparar refeições numa cozinha portátil, a plantar flores numa casa com jardim ou a conduzir um trator vermelho ou um carocha colorido.

View-Master

brinquedos

A primeira vez que o famoso aparelho vermelho da Sawyer’s Photographic Services apareceu foi em 1939 na Feira Mundial de Nova Iorque. Era uma espécie de binóculos com dois visores e uma ranhura no topo para colocar uns discos de cartão com uma dúzia de imagens em 3D. Havia versões para adultos com slides coloridos de cidades ou de monumentos aproveitados para fins turísticos. E ainda uma versão infantil, essa sim, é que era o delírio entre os mais novos. Ao clicar numa alavanca era possível ver histórias curtas a desenrolarem-se com a bonecada da Disney. A moda chegou a Portugal sobretudo nos anos 70 e 80 do século passado pois até aí, ter um brinquedo destes só se um familiar fosse ao estrangeiro e o trouxesse de presente.

G.I. Joe

brinquedos

Destemidos, armados até aos dentes e sempre prontos a defender a humanidade contra a Cobra, terrível organização criminosa determinada a dominar o mundo. Apesar de lançados no mercado em 1964 pela Hasbro, uma multinacional americana de jogos e brinquedos, só nas décadas de 1980 e 1990 é que os soldados G.I. Joe se tornaram uma febre entre a rapaziada rendida aos personagens como o ninja Snake Eyes, o sargento Slaughter ou o Cobra Commander, vilão implacável, que na série de TV (transmitida pela SIC nos anos 90), nunca venceu uma única batalha.

Game Boy

brinquedos

Criança com um Game Boy era a mais sortuda do mundo. Era o que toda a gente queria e não era caso para menos. Foi o primeiro jogo de consola do mundo, lançado pela japonesa Nitendo em meados da década de 1980. Depois vieram outros jogos, mais avançados, com mais botões, setinhas ou ecrãs, mas este foi o primeiro e o mais popular, chegando a vender perto de 120 milhões por todo o mundo. Super Mario Bros (1985) ou o Tetris (1989) com as peças do puzzle coloridas estão até hoje entre as melhores memórias da infância dos quarentões e cinquentões.

Transformers

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Primeiro vieram os desenhos animados, que estrearam em 1989 na RTP, aos sábados de manhã. Máquinas alienígenas assumem formas de carros ou de aviões (no caso dos maus) mas, perante qualquer ameaça, transformam-se subitamente em robôs gigantes e disformes a travar épicas batalhas.

A coisa teve tanto sucesso que a rapaziada não tinha outro assunto no recreio da escola. Logo a seguir veio a bonecada, nada, mas mesmo nada barata. Para muitos pais, que não aguentavam a ladainha dos filhos a pedinchar por um Starscream – que se transforma num jato F-22 «Raptor»  -, ou um Optimus Prime com o seu canhão incorporado, a solução era comprar uma imitação barata. Não eram tão sofisticados, mas a criançada lá se conformava com as versões mais modestas e fazia a festa com o mesmo entusiasmo.

Bola Koosh (fluffy)

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Brincar com uma bola parece a coisa mais divertida do mundo, mas para um bebé ou uma criança de 2 ou 3 anos pode ser uma tarefa bem complicada tentar agarrar um objeto redondo e pesado. Deve haver uma maneira mais fácil, pensou Scott Stillinger. E foi assim que, em 1986, o engenheiro americano inventou uma bola com mais de 2 mil elásticos presos no centro para os dois filhos brincarem. Em menos de nada virou uma moda entre as crianças americanas e do mundo inteiro.

Coloridas e macias ao toque podia-se até atirar à cara que não aleijava. Em Portugal, contudo, mais do que um brinquedo, foi um objeto decorativo que as raparigas usavam no porta-chaves ou como penduricalhos nas mochilas. E desta invenção tão simples nasceu uma indústria que tornou Scott num milionário. Em 1997, o inventor vendeu a patente à empresa Hasbro, ganhando mais de 100 milhões de dólares com o negócio.

Pega monstros

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Qual tazos, caveiras luminosas, brincos de plástico ou qualquer outro brinde que a marca Matutano oferecia nos pacotes de batatas fritas. Os pega monstros é que eram! Foram um sucesso como não houve outro nos primeiros anos da década de 1990. A miudagem ia direto ao fundo do pacote. As batatas ficavam para depois. Primeiro a brincadeira.

Coisa pegajosa, feita de cola transparente, borato de sódio, água e corantes, colava-se nos cabelos, na cara ou atirava-se contra as paredes, ardósia da sala de aula e mobília lá de casa na esperança de agarrar e trazer algo de volta. Às vezes era uma folha de papel, um clip ou lápis de cor, mas muitas outras vezes era só lixo como cabelos, poeira ou pelos de gato.

Pistola de água super soaker

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Lonnie G. Johnson pode até ter inventado uma catrefada de aparelhos complicados como engenheiro da NASA. Ninguém lhe tira o mérito mas, verdade seja dita, nada bate a sua pistola de água super soaker. O brinquedo chegou em 1993 e rapidamente espalhou-se pelo mundo, revolucionando as batalhas travadas no fundo do quintal, nos arbustos dos jardins ou por entre os carros estacionados nas pracetas ao pé de casa.

Com um alcance de quase 20 metros e um reservatório até 2 litros foi o brinquedo mais mortífero que qualquer criança podia pedir. Melhor do que isso, só mesmo uma tarde tórrida de verão para enfrentar o inimigo e regressar triunfante a casa mais ensopado do que um pintainho em dia de chuva.

Cozy coupe

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Carro com tejadilho amarelo e carroçaria de plástico vermelha é um clássico da multinacional americana de brinquedos Little Tikes. Lançado em 1979, foi contudo na década de 1990 – com mais de 500 mil exemplares vendidos ao ano –, que conduziu milhões de bebés e crianças pelas autoestradas da fantasia. Inspirado no carocha da Wolksvagen e no carro dos Flinstones era movido a pés e tinha quase tudo como um carro a sério – buzina, chaves, ignição e até tampa de gasolina.


Toy Story (parte 2): a verdadeira história dos brinquedos dos nossos avós

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Sabes quantos anos tem a Barbie ou em que ano apareceram os legos? E quando achas que surgiu o Sr. Cabeça de Batata? Não foi só nos filmes de animação Toy Story, isso é mais que certo. Estes são apenas alguns dos brinquedos que surgiram durante a infância dos nossos avós. Tiveram tanto sucesso, que os seus inventores ficaram milionários.

1950-1960

Lego

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Foi numa pequena oficina no sul da Dinamarca que o mestre carpinteiro Ole Kirk Christiansen construiu em 1932 o primeiro conjunto de blocos. Feitos em madeira, as peças vermelhas e brancas permitiram montar os primeiros carrinhos para os filhos. Dois anos depois, Ole Kirk funda a empresa Lego – o nome é a combinação de duas palavras dinamarquesas leg+godt (= jogar+bem). O sucesso, porém, só viria a acontecer duas décadas mais tarde. Em 1955 é lançado no mercado o Lego System Play com as peças melhoradas, possibilitando mais combinações para os blocos, entretanto, fabricados em plástico.

O sistema, patenteado em Janeiro 1958, consiste em encaixar as peças-tijolo através de pinos à superfície e tubos ocos no interior das peças. A originalidade está na simplicidade com que se pode montar e desmontar as peças que permitem atualmente 102.981.500 combinações diferentes. Mais do que um brinquedo, as peças de lego – com as quais mais de 400 milhões de crianças já brincaram – são usadas não só nos jardins-de-infância para ajudar no desenvolvimento dos bebés, como nas universidades para ensinar princípios de engenharia, de tecnologia, matemática ou ciências.

 Hula Hoop

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Muito antes de o hula-hoop tornar-se uma moda na década de 1950, a brincadeira já era uma arte entre os malabaristas chineses, hábeis a rodopiar múltiplos aros nos braços, nas pernas e à volta da cintura. Foi preciso esperar quase 30 anos para dois americanos, Richard Knerr e Arthur Melin, transformarem simples arcos de plástico coloridos numa moda entre crianças e adultos americanos. Em menos de nada, o brinquedo, lançado pela Wham-O with, vendeu dezenas de milhares, não tardando a contagiar boa parte do mundo.

Senhor Cabeça de Batata

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Esquecido durante décadas, o Sr. Cabeça de Batata voltou às luzes da ribalta nos filmes Toy Story, da Disney, entre 1995 e 2010. Um regresso em grande para o primeiro brinquedo a ser anunciado na televisão, em 1952. O Sr. Cabeça de Batata foi inventado por George Learner para convencer as crianças de que comer legumes é divertido e faz bem à saúde. Tinha várias peças, entre olhos, boca, orelhas, nariz, bigode, chapéu ou sapatos que eram distribuídos nas embalagens de cereais de pequeno-almoço para espetar em cenouras, batatas ou qualquer outro legume.

O boneco teve tanto sucesso entre a miudagem, nos Estados Unidos, que a empresa Hassenfeld Brothers – mais tarde se viria a chamar Hasbro –, agarrou-o logo e começou a vendê-lo, lucrando mais de 4 milhões de dólares nos primeiros anos. Mas, foi só com os filmes Toy Story que o Sr. Cabeça de Batata ganhou finalmente vida e personalidade: rabugento, ciumento e malcriado, mas com um coração grande e capaz de fazer tudo para salvar os amigos.

Barbie

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Foi durante uma viagem à Europa que a americana Ruth Handler conheceu Bild Lilli uma boneca alemã de calções e saltos altos que os adultos punham no painel dos carros. Ruth lembrou-se logo de como a filha, Bárbara, adorava brincar com bonecas de papel, fingindo que elas faziam tudo o que as mulheres faziam – compras, passeios de carros, cabeleireiro, mudar de roupa e tudo o resto. «Por que é que as bonecas para as crianças têm de ser bebés quando as raparigas como a minha filha preferem brincar aos adultos?»- Pensou a mãe. E foi assim que nasceu a ideia de criar uma boneca adulta para as meninas, inspirada na Lilli.

Elliot Handler, marido de Ruth, foi o parceiro ideal para o sucesso da Barbie, já que era um dos fundadores da Mattel, um dos maiores fabricantes de brinquedos do mundo. A boneca foi lançada na Feira Anual de Brinquedos de Nova Iorque, a 9 de Março de 1959 com o nome da filha, Barbara Millicent Roberts.

As primeiras bonecas, que custavam 3 dólares, tinham duas versões – uma loira e outra morena, a loira foi a que ficou. Hoje, Barbie é a boneca mais conhecida no mundo, fabricada na China e vendida em mais de 150 países. Ela é tão famosa que, em 1992, candidatou-se à presidência dos EUA e, em 2002, deixou as marcas das suas mãos no passeio da fama, em Hollywood, ao lado de outras estrelas de carne e osso como Charlie Chaplin e Marlin Monroe.

Ecrã mágico

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Foi nos finais da década de 1950 que o eletricista francês Arthur Cassangnes inventou na sua garagem o Ecrã Mágico (Telecran) e o mostrou na feira de brinquedos de Nuremberga em 1959. O engenho, contudo, só viria a despertar a atenção de um dos maiores manda-chuvas da indústria dos brinquedos no ano seguinte. W. Winzeler, presidente da companhia americana Ohio Art, lançou o ecrã de Cassangnes nos Estados Unidos em 1960 com o nome Etch A Sketch.

O brinquedo original é controlado por dois botões giratórios nos cantos inferiores da moldura vermelha, cada um deles dirige, por sua vez, uma caneta nos sentidos vertical e horizontal. A tela cinzenta está revestida com pó de alumínio e quando a caneta apara o pó desenha uma linha preta. Para apagar o desenho, basta virar o quadro de cabeça para baixo e sacudi-lo.


🤍💛❤ Aproveita a onda nostálgica e espreita também: O design português que fica na memória!

Muhammad Yunus. O banqueiro dos que não têm dinheiro

Muhammad Yunus

Quantos mil milhões serão precisos para acabar com a pobreza? Alguém tem um palpite? Muhammad Yunus precisou de 25 euros e uma simples ideia para que milhões de pessoas, em todo o mundo, pudessem sair da pobreza. É uma história maravilhosa, a dele, que os Bichos-carpinteiros têm muito orgulho em apresentar.


Muhammad Yunus tem 81 anos e nasceu em Chittagong, uma cidade portuária do Bangladesh perto da baía de Bengala. Foi um menino de sorte, já que os pais, não sendo ricos, conseguiram que os 9 filhos fossem para a escola e se tornassem doutores.

Yunus até ganhou uma bolsa e foi para os Estados Unidos fazer o doutoramento em Economia na Universidade Vanderbilt. Assim que terminou os estudos, foi convidado a ser assistente de Economia na Middle Tennessee State University. Mas, esse capítulo, não é o mais importante.

A melhor parte desta história começa quando, em 1972, ele regressa à cidade onde nasceu para dar aulas de Teoria Económica na Universidade de Chittagong. É por volta dessa altura que percebe que algo está errado com a Economia.

_ Teoria e só teoria… -, pensa o professor em voz alta a meio de uma aula.

_ O que foi que disse professor? – Pergunta um dos alunos da fila da frente.

_ Nada, nada Saif. Estava apenas a falar com os meus botões.

_ Ok, professor, mas parece-me que não está muito satisfeito connosco.

_ Não é nada disso, não te preocupes. É comigo que não estou satisfeito.

_ O que se passa professor Yunus? – Quis saber Afroja. Os outros alunos levantam os olhos dos cadernos e olham para o professor.

_ Bom, se querem mesmo saber, acho que algo está muito errado com o ensino da Economia.

Os alunos ficam calados. Não sabem o que dizer e Yunus decide explicar então por que anda tão triste nos últimos tempos.

_ De que servem tantas teorias, tantos estudos, tantos doutores se mesmo aqui ao lado há um bairro cheio de gente que se mata a trabalhar e, ainda assim, não consegue fazer uma refeição decente por dia?

_ Sabe uma coisa professor? Já tinha pensado nisso –, confessa Saif.

_ Pois eu passo o tempo a pensar nisso. Criámos um sistema com a finalidade de apenas fazer dinheiro em vez de resolver os problemas das pessoas.

_ E como mudar isso professor?

_ Não faço ideia, mas desconfio que as respostas não estão dentro destas quatro paredes.

_ Temos de ir ter com eles, não é?

_ É isso mesmo! Temos de ver de perto, fazer perguntas e ouvir o que as pessoas mais pobres têm para ensinar. Acho que só assim poderemos chegar a algum lado e mostrar que a economia não serve unicamente para fazer dinheiro pelo dinheiro.

Da teoria à prática: a primeira lição

Os alunos de Muhammad Yunus saem da sala de aula e vão à aldeia, encostada à universidade, onde dezenas de famílias são exploradas por agiotas.

 

Nessa mesma tarde, o professor sai com os seus alunos do campus universitário, dirigindo-se para a aldeia de Jobra, a poucos quilómetros da universidade. O seu colega, o professor Latifee, também vai com eles porque conhece muitas famílias que ali vivem, além de ter um jeito especial para falar com elas.

A aldeia está separada em três partes: a fração dos muçulmanos, a fração dos hindus e a fração dos budistas. A turma de Muhammad Yunus começa pelos muçulmanos. Caminham entre as ruas, cheias de crianças descalças, muitas delas a brincar só em cuecas, por entre as galinhas e as cabras.

Escolhem uma casa ao acaso. No alpendre, uma mulher trabalha com uma faca e canas de bambu. Ao lado, estão vários instrumentos feitos por ela.

_ Boa tarde, minha senhora – cumprimenta Latifee.

Ela dá um salto ao ouvir a voz dele. Levanta-se e corre assustada para dentro de casa.

_ Não tenha medo. Somos professores da Universidade de Chittagong e só queremos fazer algumas perguntas.

_ Não está ninguém em casa –, ouve-se lá de dentro.

O que ela quer dizer é que não há nenhum homem em casa. No Bangladesh é de muito mau tom as mulheres falarem com estranhos na ausência dos maridos. Mas a visita deles desperta a curiosidade dos vizinhos. Devagarinho aproximam-se, querendo saber o fazem por ali.

A mulher acaba também por sair, ficando à porta com o filho nos braços.

_ Como te chamas? – Pergunta Yunus.

_ Sufia Begum.

_ E que idade tens?

_ 21.

_ O que fazes com o bambu?

_ Ferramentas.

_ Onde arranjas o bambu?

_ Compro.

_ Quanto custa?

_ 5 taka [mais ou menos 5 cêntimos]

_ Tens esse dinheiro?

_ Não. Peço emprestado a um paikar*

[*um comerciante de bambu, mas também um agiota, ou seja, alguém que, sem autorização do banco central, empresta dinheiro, cobrando juros estupidamente altos].

_ Que acordo tens com ele?

_ Ao fim de cada dia tenho de lhe vender as minhas ferramentas para pagar o empréstimo. O que sobrar fica para mim.

_ E quanto fazes por dia?

_ 5 taka e 50 paisa.

_ Então tens um lucro de 50 paisa?

Sufia diz que sim com a cabeça.

_ Porque não pedes mais dinheiro emprestado para fazeres mais ferramentas e aumentares o teu lucro?

_ Podia fazer isso, mas o paikar iria cobrar muito dinheiro, como já aconteceu com outros vizinhos. Em vez de aumentarem o rendimento ficaram com tantas dívidas que já nem conseguem pagá-las.

_ Quanto é que ele cobra?

_ Varia de pessoa para pessoa. Alguns pagam mais 10% do valor do empréstimo por semana, mas há casos em que pagam 10% por cada dia que se atrasam a devolver o empréstimo.

Nos dias seguintes, Yunus e os alunos fazem várias visitas à aldeia. Organizam-se em grupos e procuram outras famílias com histórias parecidas à de Sufia. Ao fim de algumas semanas e, depois de percorrerem os quarteirões muçulmano, hindu e budista, encontram 42 famílias nas mesmas condições.

De regresso à sala de aula: a segunda lição

Muhammad Yunus
Raufur Rahaman Talukder via Wikimedia Commons

A maioria dos pobres trabalha o dia inteiro, ainda assim, não consegue sair da pobreza. Algo tem de mudar, mas o quê?

Muhammad Yunus sabe que a maior parte da população do Bangladesh vive na pobreza. O país tem paisagens belíssimas e tradições muito ricas, mas também é um dos lugares mais pobres do mundo.

_ O que causa a pobreza? – Pergunta o professor aos alunos durante a aula de Teoria Económica.

_ O desemprego –, responde um deles.

_ O desemprego não é a causa, pois a maioria dos pobres trabalha e não é pouco – contrapõe o professor.

_ Será que a culpa também é deles? – Quis saber outro aluno.

_ Nada há de errado com eles. Em Jobra ou em qualquer outra aldeia toda a gente sabe o que tem a fazer para sustentar a família.

_ O sistema! – Atira um aluno ao fundo da sala.

_ Nem mais! O que alimenta a pobreza é o sistema e a saída é emprestar-lhes algum dinheiro para poderem investir nos seus trabalhos sem ficarem à mercê de agiotas.

_ Pois, sim, tudo isso é muito bonito… – interrompe o mesmo aluno – mas não há banco nenhum disposto a emprestar dinheiro a quem não tem dinheiro. Os pobres não têm conta no banco, muitos nunca chegam sequer perto da porta de um banco e a verdade é que os bancos querem distância deles.

_ Mas se eles conseguissem os empréstimos, poderiam mudar-se para bairros com melhores condições, por os filhos a estudar, concorrer a melhores empregos e, quem sabe, até criar os seus próprios negócios –, riposta o professor.

_ Poderia ser tudo muito fácil, mas no fim é tudo muito complicado –, concluiu o aluno.

A teoria e a prática: assim nasce um banco

Muhammad Yunus
David Stanley via Flickr

Muhammad Yunus fundou o Grameen Bank para conceder empréstimos a quem tem poucos rendimentos.

Ao ver que não podia contar com os bancos, Muhammad Yunus decide ele próprio emprestar o dinheiro às famílias. Mas, prestem atenção, não deu; emprestou e exigiu juros de volta, embora mais baixos do que os praticados pelos bancos. Caso contrário, estaria a fazer caridade, algo em que ele não acredita.

O professor da Universidade de Chittagong está convencido de que a caridade apenas prolonga a pobreza, tornando os pobres cada vez mais pobres e dependentes da ajuda dos outros. Por isso, deixa bem claro que o dinheiro terá de ser devolvido.

O empréstimo serviria apenas para começarem pequenos negócios. Poderiam comprar matérias-primas para fazer cestos e vender, ferramentas para construir móveis, comprar vacas e vender o leite.

Não é nenhuma fortuna o que ele empresta. É pouco mais de 25 euros no total, o que dá qualquer coisa como 50 cêntimos para cada família. Parece uma ninharia, mas é o suficiente para começarem com os seus próprios negócios e, passado alguns meses, devolverem o dinheiro com juros e tudo!

Muhammad Yunus fica tão surpreendido que logo se pôs a sonhar mais alto.

Se um empréstimo tão pequeno mudou a vida de dezenas de famílias, quantas mais poderia ele ajudar, fazendo o mesmo que em Jobra?

É então que, em 1976, decide fundar o seu próprio banco, o Grameen Bank, que na língua bengala quer dizer banco da aldeia. A instituição tem como clientes só os pobres. A notícia corre todas as vilas e aldeolas do distrito de Chittagong. Em pouco tempo, camponeses, artesãos, pescadores, mendigos, mulheres casadas, solteiras e viúvas entram no banco de Muhammad Yunus para pedir empréstimos.

Alguns usam o dinheiro para comprar vacas e venderam leite aos vizinhos, outros abrem pequenas mercearias à beira da estrada, outros ainda compram redes de pesca, em algumas aldeias, os habitantes juntam-se e pedem empréstimos um pouco maiores para abrir poços de água, distribuindo água potável por comunidades inteiras.

Com uma ideia tão simples, o professor Muhammad Yunus inventa um banco, onde não é preciso gravata, burocracia, cheques, cartões de plástico ou contratos cheios de cláusulas e letrinhas miúdas.

O Grameen Bank tem como regra de ouro confiar nos seus clientes.

Até agora, tem resultado. Basta olhar para os números: 97% dos empréstimos são devolvidos pelos credores dentro do prazo, o que ultrapassa até as percentagens atingidas pelos bancos tradicionais. Ao longo das últimas décadas, a instituição dele já emprestou mais de 20 mil milhões de dólares a mais de 10 milhões de pessoas.

Uma lição para o mundo inteiro

Muhammad Yunus
Muktar Hossain via Wikimedia Commons

Ao sair da pobreza, as populações carenciadas estão também a contribuir para aumentar a riqueza do país.

Hoje, o Bangladesh ainda tem muita gente pobre, mas nada se compara há uns bons anos. Desde 1992, a pobreza desceu de 56% para 31%. O fundador do Grameen contribuiu e muito para encolher as estatísticas. E, tão importante como isso, é a lição que Muhammad Yunus ensina aos alunos e ao mundo inteiro.

_ Os pobres não são mais nem menos do que os ricos ou os remediados. Quando se trata de governarem as suas próprias vidas são criativos e têm uma enorme energia para irem à luta. Emprestar dinheiro a quem não tem dinheiro é só o empurrão de que precisam para saírem de uma pobreza que que começou com os bisavôs, passou para os avós e continuou com os pais deles.

_ E agora, chegou o momento de quebrar esta corrente! – Gritou um dos seus alunos cheio de entusiasmo.

_ Espero que tenhas razão, rapaz, não só por eles, mas por todos nós. Ao sair da pobreza, os habitantes de Jobra ou de qualquer outra aldeia estão também a contribuir para aumentar a riqueza do país.

Só mais uma história para aquecer o c❤ração 

Muhammad Yunus
Nasir Khan via Wikimedia Commons

Hajeera passou de criança enjeitada a mulher de negócios. Um pequeno empréstimo bastou para conseguir alimentar a família e pôr as filhas a estudar.

Ao longo dos anos, Muhammad Yunus conheceu muitos casos que lhe aquecem o coração até hoje. Alguns testemunhos estão descritos na biografia dele, «O Banqueiro dos pobres», como a história de Hajeera Begum nascida em 1959 numa aldeia perto de Dhaka, capital do Bangladesh. O pai é um lavrador que mal consegue sustentar as seis filhas. Por isso, nem pensa duas vezes quando um homem mais velho e cego se oferece para casar com ela.

É o único pretendente que não exige um dote para ficar com Hajeera. O dote é uma pequena fortuna em dinheiro, em joias ou em propriedades que um pai tem de dar aos futuros maridos das suas filhas. O costume foi caindo em desuso nas últimas décadas, mas ainda hoje é praticado entre muitas famílias, não só na Ásia Meridional como na África Subsaariana.

Quando a família é muito pobre, as filhas acabam por ser grandes encargos financeiros porque a noiva precisa de um dote para se casar. O valor aumenta à medida que a rapariga cresce e o casamento é, como tal, a solução mais fácil para muitos pais que assim transferem a responsabilidade para os genros.

Com o marido cego, o único rendimento que entra lá em casa são os pagamentos que Hajeera recebe das limpezas que faz nas casas de outras famílias. Ainda assim insuficiente para conseguir alimentar como deve ser as três filhas do casal.

Certo dia, Hajeera ouviu falar que um tal Banco Grameen empresta pequenas quantidades de dinheiro com juros muito baixos e sem necessidade de apresentar qualquer garantia.

_ O que achas de falar com eles? – Pergunta ao marido –. Podíamos talvez comprar um terreno para cultivar.

_ Nem te atrevas, ouviste? – Grita ele, levantando-se da cadeira e agitando a bengala como se quisesse espantar a ideia estapafúrdia da mulher.

_ Qual é o mal? – Pergunta Hajeera.

_ Já ouvi falar dessa coisa maldita, nada mais é do que uma conspiração dos cristãos para acabar com o islão.

Sabe-se lá porque é que é que o banco tem essa fama, boa parte dessas histórias são invenções maldosas dos agiotas que viram o seu negócio arruinado pelo Grameen. Eram só boatos, mas o certo é que muitos muçulmanos olham com desconfiança para a instituição fundada por Muhammad Yunus.

Sem contar nada ao marido, Hajeera entrou um dia numa agência do banco onde a convidaram a assistir a uma sessão de esclarecimento. Os funcionários encaminharam-na para uma sala e explicaram passo a passo os princípios pelos quais a instituição se rege. Entre as muitas regras que os credores têm de respeitar, há algumas fundamentais, tais como:

✅ Para obter um empréstimo, o candidato tem de se juntar a um grupo de pessoas, que fica “moralmente” responsável pelo seu pagamento.

✅ O acordo não precisa de cartórios, advogados ou bancários, é unicamente baseado na confiança e na crença de que o crédito é um direito de qualquer pessoa, pobre, rica ou remediada.

✅ Todos os empréstimos devem ser pagos em pequenas prestações, semanais ou quinzenais.

✅ Pode ser concedido, simultaneamente, mais de um empréstimo, ao mesmo indivíduo, que, no entanto, terá primeiro de provar que tem um plano de poupança.

Após a sessão, Hajeera teria de ser entrevistada por um grupo de funcionários para mostrar que percebera bem quais seriam as condições do empréstimo. Ela está tão nervosa que mal abre a boca.

Um dos funcionários vai buscar um copo de água e senta-se ao pé dela.

_ Tenha calma senhora Begum, respire fundo e vai ver que corre tudo bem.

_ Peço mil perdões, mas não estou habituada a estes ambientes –, explicou ela. – Desde criança que me dizem que não sirvo para nada. Os meus pais passaram a vida a dizer que eu só trouxe a miséria para a nossa casa. Quantas vezes ouvi a minha mãe dizer que eu nunca devia ter nascido porque não valho nem um cêntimo do dote que teriam de pagar para arranjar um marido.

_ Isso não é verdade! – Interrompe o funcionário.

_ Talvez seja… Não sei… Não sei se alguma vez serei capaz de pagar esse empréstimo.

_ Nós aqui acreditamos que sim. E temos tanta certeza disso que vamos repetir a entrevista e depois começaremos a discutir os pormenores do acordo. Combinado?

Hajeera porta-se lindamente durante segunda entrevista e, poucas semanas mais tarde, recebe o seu primeiro empréstimo: 2000 thaka, que corresponderá a 23 euros. Está tão feliz que as lágrimas lhe caem pela cara sem parar.

É um dia de festa, mas de grande ansiedade também. Hajeera segue o conselho dos seus orientadores e compra um bezerro para engorda e ainda algumas sacas de arroz para secar, descascar e vender.

Quando o marido se depara com o animal no quintal, fica tão entusiasmado que nem se lembra mais das alarvidades que disse sobre a instituição de Muhammad Yunus. Hajeera consegue no prazo de três meses pagar o seu primeiro empréstimo e fazer um segundo, que usa para arrendar um pedaço de terra com 70 bananeiras e comprar mais um bezerro.

Ela é agora proprietária de um terreno onde cultiva arroz e bananas. As traseiras da casa estão cheias de cabras, patos e galinhas. Os funcionários do banco estão tão orgulhosos dela que, de vez em quando, convidam-na para falar em sessões que a instituição promove pelas aldeias e vilas nas redondezas de Dhaka.

Apesar da timidez, Hajeera sobe ao palco e conta a história dela, terminado mais ou menos da mesma maneira.

_ Nós lá em casa já conseguimos fazer três refeições por dia e, uma vez por semana, até comemos carne. Se vocês perguntarem o que penso do banco Grameen, digo-vos que, para mim, foi mais do que uma mãe, pois deu-me uma nova vida. Espero que a pobreza acabe aqui e para isso conto enviar as minhas filhas para a escola. Quero que estudem e cheguem à universidade. O futuro delas vai ser muito melhor, eu sei.

🟡🟣🔴Nota final: Muhammad Yunus provou que o microcrédito resulta não só no Bangladesh, mas no mundo inteiro. Há centenas e centenas instituições que seguem o exemplo do Banco Grameen em quase 100 países. Em Portugal, por exemplo, Associação Nacional de Direito ao Crédito foi criado em 2002 e já ajudou alguns milhares de pessoas.

AS três inspirações de Muhamad Yunus

A mãe Sofia

Desde pequeno que Yunus sabia o que era a pobreza. Não é que lá em casa faltasse alguma coisa, mas em Bathua, aldeia onde nasceu, a maioria das crianças tinha de trabalhar para ajudar a família. Ele é o terceiro de 14 filhos de Dula Mia e Sofia Khatun (cinco acabaram por morrer ainda na infância). O pai era ourives e sempre fez das tripas coração para os filhos estudarem. Foi uma grande inspiração para ele, mas a mãe é que acabou por ser a maior influência da vida dele. Sofia procurava sempre ajudar os vizinhos pobres, recebendo-os em casa e, muitas vezes, dando-lhes roupas e refeições. «Graças a ela, sempre soube que nasci com a missão de ajudar os mais desfavorecidos, embora ainda não soubesse como», contou Yunus na sua biografia.

Os escuteiros

Muhammad Yunus adorava as longas caminhadas de mochila às costas, gostava também dos jogos, de promover debates ou angariar dinheiro para as atividades do seu grupo de escuteiros. Foi com os eles que, durante os anos do secundário, partiu à descoberta do mundo, viajando pelo Canadá, Japão e Filipinas. Em 1953, atravessou a Índia de comboio para participar no I Jamboree Nacional do Paquistão. As viagens eram quase sempre acompanhadas pelo director da escola, figura que também teve uma grande impacto na sua juventude. «Sempre fui um líder nato, mas Quazi Sahib é que me ensinou a sonhar alto e a saber canalizar as energias das minhas paixões nos projetos certos

Luta pelos direitos civis

Enquanto viveu nos Estados Unidos, entre 1965 e 1972, Muhammad Yunus viu de perto a luta dos negros pelos direitos civis. Em vários estados, sobretudo os sulistas que até 1863 permitiam a escravidão, a população afro-americana era tratada como inferior. Mississippi, Alabama, Tennessee ou Georgia impunham por exemplo leis para separar os brancos dos negros em lugares públicos, proibiam casamentos entre as diferentes raças ou negavam o acesso aos direitos mais básicos como saúde e educação. Durante os anos 1960 e 1970, Yunus sentiu-se inspirado pelos movimentos dos direitos civis e juntou-se a eles. Ao regressar ao Bangladesh ficou muito perturbado com as injustiças sociais à sua volta. Em 1974, o país atravessava uma das maiores secas, causando uma onda de fome sobretudo nas vilas e aldeias rurais. Yunus não poderia fazer de conta que a pobreza não existia e, por isso, usou os seus conhecimentos em economia para melhorar a vida dos mais desfavorecidos.

Sites consultadosGrameen bank |Yunus Centre |

Já que chegaste a estas bandas, dá também um salto ao Paquistão para conhecer mais uma incrível história: Deixem passar a ambulância do barbudo 

Quanto pesa o pó das nossas casas?

Pó

O pó entra em casa sem pedir licença nem fazer barulho. Acomoda-se atrás das portas, debaixo da cama, nos livros e revistas ou por cima do frigorífico. Quase não damos pela presença dele até que, sem saber como, descobrimos que, uma a uma, as partículas se acumularam nos lugares mais secretos, formando pequenas nuvens ou tapetes de poeira. É nesse momento que não dá mais para adiar a decisão: está na hora de pegar no aspirador ou no pano de flanela e espantar a sujidade para fora de casa. Mas não por muito tempo. O pó, esse intruso silencioso, regressa sempre ao local do crime.

 

Ao fim de um ano a limpar, quanto pó sacudimos das nossas casas? As contas dependem naturalmente do tamanho dos apartamentos ou das moradias e também de outros fatores como animais de estimação, varandas, quintais ou localização geográfica das habitações. Em qualquer dos casos, nunca é coisa pouca. Uma casa com seis divisões, por exemplo, acumula em média cerca de 18 quilos por ano, segundo os cálculos feitos por investigadores americanos.

Limpar até à origem do pó

pó
Charles Keene, Wikimedia Commons

 De onde vem e de que é feito o pó? A pergunta intriga também os cientistas, que gastam muito tempo a pensar em poeira 

Mas de onde vem e de que é feito o pó que aparece em casa? A pergunta não intriga apenas quem anda a tentar livrar-se dele com paninhos, espanadores, aspiradores e produtos de limpeza. Há também cientistas que gastam muito do seu tempo a pensar em poeira.

Quanto mais investigam, mais descobertas espantosas fazem. A mais evidente é que o pó vem de todos os lados e é feito de partículas de muitas coisas insignificantes. Cerca de 60% da poeira vem de fora. Ao abrimos as portas e janelas, deixamos entrar as partículas suspensas no ar. Sempre que chegamos a casa, transportamos também connosco terra e sujidade agarradas aos sapatos e às roupas. As restantes 40% das poeiras são fibras que se soltam dos peluches, lençóis, toalhas, roupas, tapetes e tecidos, além de cabelos, pele morta, pelos de animais de estimação, migalhas de comida ou restos de cadáveres de insetos.

Decompor cada partícula para saber o que contém o pó pode ser uma canseira. Andrea Ferro, investigadora da Universidade de Clarkson, em Nova Iorque, deu-se a esse trabalho e descobriu que há poeiras de todos os tamanhos e composições. Desde partículas simples, com um único composto orgânico ou inorgânico. Até às mais complexas com um núcleo inorgânico (minerais, carbono ou metais) e um revestimento orgânico (insetos, pólen ou escamas de pele, por exemplo).

Os químicos camuflados no pó

pó

 

 Produtos domésticos, materiais de construção, eletrodomésticos ou mobília também libertam partículas 

 Pode ser muito complicado desvendar a composição da poeira, mas uma coisa é certa, se a casa não for aspirada com alguma regularidade, há partículas que demoram uma eternidade a desaparecer. Ao analisar a sujidade doméstica, Andrea encontrou por exemplo DDT em muitas amostras de pó recolhidas do chão. Trata-se de um pesticida usado depois da Segunda Guerra Mundial para combater os mosquitos, mas, por ser prejudicial à saúde, acabou proibido na década de 1970. Apesar disso, ainda hoje, está presente nas casas americanas.

Este não foi o único químico encontrado. Dos escapes dos carros, da queima de combustíveis ou de outros processos industriais desprendem-se também partículas de arsénio ou de chumbo que viajam com o vento até às nossas casas e que é preciso eliminar com uma boa aspiradela.

Dentro de casa há também uma grande variedade de partículas que se libertam de produtos de higiene, de limpeza, de móveis, de pisos envernizados ou de tintas de parede. Investigadores de cinco instituições americanas encontraram em casas de 14 estados dos EUA 45 químicos provenientes de produtos domésticos, materiais de construção, eletrodomésticos ou mobília. A maior parte dessas substâncias pode ser eliminada com boas práticas como lavar as mãos e aspirar a casa.

Vida selvagem dentro de casa

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 Cadáveres de mosquitos, aranhas e formigas desfazem-se em pó e acumulam-se nos cantos da casa 

E há também gigantescas colónias de minúsculas criaturas a morar no pó, mais propriamente nove mil espécies de micróbios, entre os quais dois mil fungos e cinco mil bactérias dos mais variados tipos, segundo as contas de um outro estudo americano. Não é motivo para ficarmos paranoicos e desatarmos a esfregar tudo e a toda a hora. A maioria destes organismos é inofensiva e alguns deles poderão até ser bons para a nossa saúde. A quantidade e a variedade das bactérias, por exemplo, vão mudando consoante a existência de gatos, cães e outros animais. Os fungos, por outro lado, variam de região para região, estando sobretudo dependente das características climatéricas.

Já que o assunto são agora seres microscópicos, não há como escapar aos milhões de ácaros, que se multiplicam em ambientes húmidos, ou nos insetos, que depois de mortos, ficam desfeitos em partículas minúsculas. Segundo as estimativas das universidades da Carolina do Norte e do Colorado Boulder, o pó pode esconder cadáveres de mais de 600 tipos de artrópodes (aranhas, mosquitos, formigas, besouros, entre outros).

O pó aprisionado na eletricidade

pó

 Aprisionado nos eletrodomésticos, sofás, carpetes, peluches ou fios elétricos, o pó já não consegue libertar-se 

Quem diria que as nossas casas seriam verdadeiros viveiros ou jardins zoológicos a pulsar de vida selvagem? Resta saber porque gosta tanto o pó de viver connosco, quando tem mais espaço e liberdade lá fora. A verdade é que em muitos casos não se trata de uma opção.

Com tanta tralha dentro de casa, a poeira tem tendência para se acumular nos lugares mais secos onde as cargas elétricas positivas e negativas estão em repouso (eletricidade estática). Ou seja, a poeira é atraída pelos eletrodomésticos, televisores, computadores, cabos e fios elétricos, sofás, carpetes e outros têxteis. Uma vez aprisionado, já não consegue se libertar a não ser que apareça uma alminha caridosa disposta a limpar todos os cantos da casa.

Há muitas maneiras de travar batalhas contra o pó, mas nenhuma delas é suficiente para vencer a guerra de uma vez por todas. O pó vai dando umas tréguas, aqui e acolá, mas volta sempre para mostrar que é um casmurro da pior espécie.

Também nós, munidos de panos de flanela, de vassouras ou de um bom aspirador, somos tão casmurros como o pó. 😁

🕷 Por falar em criaturas minúsculas, já leste o artigo «Quantos insetos existem no planeta?». Vais ficar arrepiado/a 😉

Quanto tempo é preciso para nascer?

gestação

Humanos: 9 meses (273 dias). Cangurus: 16 meses (487 dias). Elefantes africanos: 21 meses (650 dias). Pinguins: 35 dias. O tempo de gestação não é igual para todos, tal como não é igual o tempo que cada espécie precisa para crescer, aprender e tornar-se autónomo.

Um rapaz com 7 anos ainda é uma criança, mas um cão de porte médio com essa idade é um jovem adulto pronto a constituir família. E o rinoceronte, aos cinco anos, passa a viver a sua própria vida. Com essa idade, as galinhas ganham rugas e entram na velhice, enquanto que as tartarugas marinhas se tornam adolescentes.

Nascer também não é igual nem no peso nem no tamanho. Um humano recém-nascido tem mais ou menos três quilos e 50 centímetros de altura, um caganito ao lado de uma bebé girafa com um metro e meio de altura ou de um filhote de baleia-azul com 1300 kg, seis metros de cumprimento e um apetite voraz capaz de mamar 380 litros de leite por dia.

O tempo de gestação, por regra, é proporcional ao tamanho das espécies tirando uma ou outra exceção, como a salamandra alpina, que demora quase três anos para incubar os seus ovos, ou uma opossum-da-virgínia (gambá-da-virgínia), que leva oito dias para ser mãe de 12 a 18 crias do tamanho de um inseto.

Explicando um pouco melhor, a duração de uma gravidez entre a maioria dos mamíferos não tem unicamente a ver com o tempo que um feto precisa para desenvolver o coração, o cérebro, os pulmões, o nariz ou os ouvidos. Também está relacionado com o tamanho do corpo da mãe e com a capacidade de ela conseguir alimentar o filho sem colocar em risco a saúde de ambos.

É por isso que, segundo os investigadores da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, uma gravidez humana tem nove meses de gestação. Essa é a quantidade máxima de tempo e de energia que as mães aguentam. Caso contrário, os bebés eram capazes de ficar ainda mais uns bons tempos nas barriguinhas das mamãs.

O principal motivo para os fetos quererem adiar o nascimento é que, aos nove meses, ainda estão totalmente dependentes dos pais. Na hora do parto, o cérebro de um recém-nascido tem apenas 30% do tamanho que atinge na idade adulta. Um filhote de chipanzé, por exemplo, já nasce com 40% do cérebro desenvolvido, o que poderá explicar por que os humanos demoram mais tempo que os primatas a conquistar a sua autonomia.

Se pudessem esperar que o desenvolvimento do cérebro atingisse o tamanho suficiente para conseguirem se desenvolver mais depressa após o nascimento, o período de gestação prolongar-se-ia entre 18 e 21 meses. Mas, segundo os especialistas, é demasiado tempo para as mamãs que, ao nono mês, entram na zona de perigo metabólica, ou seja, já não lhes sobra mais energia nem para elas nem para o feto continuar a se desenvolver.

E agora que já sabes porque nascemos ao fim de nove meses, espreita os períodos de gestação e incubação no reino animal.

Gestação

gestação

🐿

❤ Esquilo vermelho – 36-39 dias

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» Crias por gestação: 2-8
» Esperança média de vida: 10-14 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: florestas e bosques da Euroásia (Arménia, Azerbaijão, Cazaquistão, Chipre, Geórgia, Rússia e Turquia)

🐱

 Gata – 60-65 dias

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» Crias por gestação: 3-4
» Esperança média de vida: 16-20 anos
» Risco de extinção: nenhum
» Habitat: os EUA são o país com maior número de gatos – 74,5 milhões.

🐶

Cadela – 52 dias 

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» Crias por gestação: 3-6
» Esperança média de vida: 10-14 anos
» Risco de extinção: nenhum
» Habitat: Os EUA também detêm o recorde do maior número de cães (75,8 milhões).

Veado Vermelho – 236 dias dias

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» Crias por gestação: 1-2
» Esperança média de vida: 10-20 anos
» Risco de extinção: moderado
» Habitat: Europa Ocidental, Norte da África e Ásia Menor

🐄

❤ Vaca – 284 dias

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 22 anos
» Risco de extinção: nenhum
» Habitat: Brasil, Argentina, Irlanda ou Chade são alguns países onde há mais vacas do que habitantes.

🦦

❤ Lontra-europeia – 60 dias

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» Crias por gestação: 1-5
» Esperança média de vida: 6 a 8 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: da costa ocidental da Irlanda e de Portugal até ao Japão, das zonas árticas da Finlândia até à Indonésia e às zonas subsaarianas da África do Norte.

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❤ Diabo da Tasmânia – 21 dias

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» Crias por gestação: 3-4
» Esperança média de vida: 7 a 9 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: Austrália, na ilha da Tasmânia e em algumas ilhas próximas, como Robbins, Bruny e Badger.

gestação

Lince Ibérico – 63 a 74 dias

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» Crias por gestação: 1-4
» Esperança média de vida: 13 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: Península ibérica.

🐻

❤ Urso pardo – 180 a 266 dias

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» Crias por gestação: 2
» Esperança média de vida: 25-30 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: Florestas no norte dos EUA e Canadá, Europa e Ásia.

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❤ Tigre Branco (Bengala) – 95 a 112 dias

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» Crias por gestação: 2-4
» Esperança média de vida: 26 anos se não estiver em cativeiro.
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: Regiões da Índia, Nepal, Butão.

🐺

❤ Lobo – 60 a 63 dias

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» Crias por gestação: 5-6
» Esperança média de vida: 20 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: nas suas variadas espécies, os lobos sobreviveram à Era do Gelo e adaptaram-se a todos tipos de habitats – florestas, desertos ou áreas urbanas.

🐨

❤ Coala – 35 dias

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» Crias por gestação: 1-2
» Esperança média de vida: 17 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: florestas de eucaliptos da Austrália.

🐃

❤ Bisonte americano – 213 a 365 dias

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» Crias por gestação: 2
» Esperança média de vida: 20 a 25 anos
» Risco de extinção: nenhum
» Habitat: planícies do Norte da América.

🐵

❤ Macaca Mandril – 175 dias

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 20 anos em liberdade
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: florestas tropicais do sul dos Camarões, Gabão, Guiné Equatorial e República do Congo.

🐴

❤ Égua – 329-345 dias

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 20-25 anos
» Risco de extinção: nenhum
» Habitat: Disseminada por todo o planeta.

🐳

❤ Baleia azul – 365 dias

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 80 a 110 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: oceanos Pacífico, Antártico, Índico e Atlântico.

🐘

❤ Elefante africano – 645 e 650 (10 meses – 1 ano)

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 30-40 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: África ao sul do Saara.

🦘

❤ Canguru Vermelho – 487 dias (16 meses)

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 22 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: Austrália continental.

🦨

❤ Gambá da Virgínia – 8 -13 dias (o mais curto de todos os mamíferos).

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» Crias por gestação: até 18 (cada uma do tamanho de uma abelha)
» Esperança média de vida: 4 anos
» Risco de extinção: baixo
» Habitat: desde o Sudeste do Canadá até à Argentina.

🦏

❤ Rinoceronte – 450 a 480 dias (15-16 meses), dependendo da espécie (branco, preto ou indiano)

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» Crias por gestação: 2
» Esperança média de vida: 35-50 anos, dependendo da espécie.
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: o rinoceronte-de-sumatra, o rinoceronte-de-java e o grande rinoceronte indiano vivem na Ásia. O rinoceronte-negro e o branco são africanos.

🦒

❤ Girafa – 420 – 460 dias

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» Crias por gestação: 1 (com um metro e meio de altura).
» Esperança média de vida: 20-25 anos
» Risco de extinção: elevado (entrou na lista dos animais vulneráveis em 2016).
» Habitat: savanas africanas.

🐬

❤ Golfinho – 300 a 547 dias (10-18 meses).

A orca tem um período gestacional, entre os 15 e 18 meses, nos casos do golfinho-riscado e do tursiops aduncos são 12 meses.

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 20-35 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: podem ser encontrados em todos os oceanos, além de rios ou estuários.

❤ Mula – Não se reproduz 

Ela é filha de uma égua e de um burro e essa combinação faz com que as fêmeas nasçam sem óvulos.

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» Crias por gestação: 1
» Esperança média de vida: 30 anos
» Risco de extinção: elevado
» Habitat: todos os continentes e regiões.

Incubação

gestação

🐧

❤ Pinguim imperador- 35-42 dias

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» Crias por ninhada: 1
» Esperança média de vida: 20 anos
» Risco de extinção: elevado

🦆

❤ Pato real – 27-28 dias

Clica aqui e descobre mais
» Crias por ninhada: 8-13
» Esperança média de vida: 5-10 anos
» Risco de extinção: baixo

🕊

❤ Pomba – 17-19 dias

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» Crias por ninhada: 2-3 ovos em 2 a 3 incubações por ano.
» Esperança média de vida: 15-30 anos na natureza e 3-5 anos na cidade.
» Risco de extinção: nenhum

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❤ Tartruga-marinha –  45-60 dias

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» Crias por ninhada: 45-60 ovos, dependendo da espécie, mas a taxa de sobrevivência das crias é de 1-2 para por cada mil ovos.
» Esperança média de vida: 40-80 anos, dependendo da espécie.
» Risco de extinção: elevado

👉 Clica aqui para veres uma imagem da avestruz

❤ Avestruz  – 35-45 dias

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» Crias por ninhada: 10-12 ovos por ano, incubados num ninho comunitário (os ovos são chocados pelas fémeas de dia e pelos machos à noite).
» Esperança média de vida: 50-70 anos
» Risco de extinção: baixo

🐊

❤ Jacaré de papo-amarelo – 70-90 dias

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» Crias por ninhada: 25 
» Esperança média de vida:  50 anos
» Risco de extinção: elevado

gestação

❤ Iguana verde – 70-105 dias (10 a 15 semanas)

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» Crias por ninhada: 3
» Esperança média de vida:  15 anos
» Risco de extinção: elevado

🦅

❤ Águia Real – 43 a 45 dias

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» Crias por ninhada: 2 
» Esperança média de vida:  32 anos
» Risco de extinção: elevado

 gestação

❤ Tucano – 18 dias

Clica aqui e descobre mais
» Crias por ninhada: 2 a 4 ovos
» Esperança média de vida: 15 anos
» Risco de extinção: elevado

👉 Clica aqui para veres uma imagem da salamadra alpina (ou preta).

❤ Salamadra Alpina – 1095 dias (3 anos)

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» Crias por ninhada: possuem um sistema de ovidutos, em que cada um produz dezenas de ovos, mas apenas dois sobrevivem
» Esperança média de vida: 15-20 anos
» Risco de extinção: nenhum

🐓🐣

❤ Galinha – 22 dias

Clica aqui e descobre mais
» Crias por ninhada: 150 durante o período de vida (só dos ovos fecundados pelos galos é que nascem os pintainhos).
» Esperança média de vida: 4-7 anos
» Risco de extinção: nenhum

👉Lê também: Por que têm riscas as zebras?

Fontes consultadas: Live Science | ScienceDaily | União Internacional para a Conservação da Natureza |

 

Louis braille acendeu uma luz na escuridão

Louis Braille

Aos três anos, Louis Braille teve um acidente que o deixou cego da vista direita. Aos cinco, a infeção alastrou-se para o olho esquerdo e deixou-o perdido na escuridão. Aos 15 inventou um método para ler e escrever tão simples que até hoje é usado em todo o mundo.

Louis Braille sabe que não tem permissão para brincar na oficina, muito menos mexer nas ferramentas que o pai usa para fazer as selas e os arreios dos cavalos. Mas quando nos dizem que algo é proibido, mais vontade temos de fazer o contrário, verdade?

Ao ver-se sozinho, Louis pega numa sovela pontiaguda. Tenta furar a muito custo uma faixa grossa de couro, mas o instrumento escapa-lhe da mão e atinge o olho direito. As dores são insuportáveis e só as compressas de água fria ajudam a aliviar o sofrimento.

_ Porque é que as crianças nunca ouvem os mais velhos? – Pergunta Catherine enquanto enxuga as lágrimas do irmão mais novo. O mal está feito e a vista direita de Louis está irremediavelmente perdida.

As coisas pioram muito mais nos anos seguintes. A infeção alastra-se para olho esquerdo e, aos cinco anos, Louis Braille mergulha na mais profunda escuridão.

O que vai ser deste rapaz? – Pergunta o pai a si próprio ao vê-lo a tatear as paredes e os móveis. Nos primeiros anos do século XIX, não havia grande futuro para os cegos. Ou aprendiam ofícios simples como cestaria e tecelagem ou acabavam nas ruas a mendigar. É por isso que a escola é tão importante.

Só que as aulas são aborrecidas para Louis Braille. Ele é mais rápido a fazer contas de cabeça do que os colegas a contar pelos dedos. Mas o mesmo não acontece com a leitura e a escrita. Os professores não fazem a mínima ideia como ensinar as crianças cegas a ler e ele nem sequer sabe como é que se desenham as letras.

Ao ver o filho desanimado, o pai agarra numa tábua de madeira e crava várias tachas douradas até desenhar um A maiúsculo.

_ Isto é um A?

Louis Braille fica maravilhado ao sentir com o dedo a forma da letra e não tarda a pedir ao pai para martelar o resto do alfabeto na tábua. A experiência fá-lo ficar com mais vontade de aprender. O rapaz é tão esperto que até memoriza as lições e várias passagens de livros que os irmãos leem todas as noites para ele.

Uma oportunidade única

Louis Braille

Louis Braille consegue uma bolsa para estudar na única escola para cegos, em França.

A inteligência de Louis Braille dá nas vistas entre os professores da escola e não só. A marquesa de Orvilliers, senhora nobre e riquíssima da cidade, aconselha o pai a inscrever o filho na Escola Real dos Jovens Cegos, em Paris. É o único instituto para crianças cegas e, com tão poucas vagas, só alguns poderiam frequentá-lo.

_ Senhor Simon-René consegui uma vaga. É uma oportunidade única.

_ Mas eu não tenho posses para o meu filho estudar numa escola em Paris – diz o pai.

_ Não terá de se preocupar com isso, o instituto oferece uma bolsa de estudo aos alunos mais promissores.

O pai de Louis fica apreensivo. O filho não está preparado para viver longe da família nem tão pouco numa grande cidade como Paris. Louis Braille, porém, está empolgado.

– Madame, é verdade que eles têm livros para cegos?

_ Sim, é verdade – responde a marquesa comovida com o entusiasmo do miúdo.

_ Papá, por favor, deixa-me ir.

Como resistir? Pai e filho partem para Paris, mas, ao chegar à escola, Simon-René fica desapontado com o que vê. O edifício, junto ao rio Sena, é um casarão a cair aos bocados. O dormitório não tem janelas, as salas são escuras, as paredes húmidas e sombrias.

Louis Braille, naturalmente, não se apercebe das condições da escola, mas para ele, isso nem é o mais importante. Está mais interessado nos famosos livros que a escola usa para ensinar as crianças cegas a ler e a escrever. O diretor, contudo, refreia-lhe o entusiasmo.

_ Os livros são o bem mais precioso que temos e os alunos têm de trabalhar muito para mostrar que são merecedores de tal privilégio.

Louis acha a conversa estapafúrdia, mas só ao fim da primeira semana percebe que o diretor está mais interessado em fazer dinheiro do que na educação das crianças. Os alunos são obrigados a fazer chinelos para vender na cidade e castigados por coisas insignificantes.

Uma noite, quando todos dormem, ele entra às escondidas na biblioteca, tateando os móveis, as cadeiras, as estantes e os armários. Está tudo vazio, a não ser uma mesa com três grandes calhamaços dispostos um ao lado do outro.

Nesse mesmo momento, o diretor, acompanhado pelo senhor Pingnet, o seu adjunto, surpreendem o rapaz.

_ Quem autorizou a tua entrada aqui? – Grita Dufau.

_ Queria saber por que nunca me mostraram os livros e já percebi porquê. Só há três livros para cegos, não é verdade?

_ É verdade – admite Pingnier

O adolescente fica desatinado.

_ O senhor mentiu-me. Não há nenhuma biblioteca gigante!

_ Aqui não há tempo para livros! – Responde o diretor – Volta para o dormitório! Amanhã continuarás a fazer os chinelos, tal como os outros rapazes.

_ Eu não estou aqui para fazer chinelos, mas para aprender a ler e a escrever!

_ Basta de insolências e vai dormir se não quiseres passar o resto da semana trancado a pão e água.

Louis Braille sente-se encurralado. Não pode sequer escolher outra escola porque não há mais nenhuma para crianças cegas.

Dufau é um tirano do piorio, mas Pingnier não é como ele, embora se sinta impotente. Fazer livros para cegos é uma tarefa quase impossível. A única maneira, pouco eficaz, consiste em imprimir páginas inteiras com letras gigantes em relevo.

Um livro com 100 páginas, por exemplo, deverá ter 500 ou mais páginas e a pesar 10 ou 20 quilos para os cegos conseguirem ler. Quem estaria disposto a gastar tanto dinheiro para imprimi-los?

_ Estás a ver o problema não estás? – Perguntou Pingnet a Louis – o ideal é encontrar um sistema menos dispendioso e mais útil para os estudantes cegos.

Uma luzinha no horizonte

Louis Braille

O método usado por militares surge como uma esperança para as crianças cegas.

Nenhuma tentativa para alfabetizar cegos resultou até à data, mas os alunos andam entusiasmados com as notícias que Pingnet trouxe da cidade. Parece que há um novo método revolucionário usado entre os militares que pode mudar tudo.

Charles Barbier de La Serre foi à escola apresentar a sua invenção. O capitão de Artilharia do Exército de Luís XIII engendrou um código rudimentar de leitura a que chamou de escrita noturna, uma série de pontos e traços em relevo que pode ser lido com a ponta dos dedos.

_ Estava a ter muita dificuldade em enviar mensagens às minhas tropas durante a noite. As mensagens eram simples como por exemplo, avançar, retirar, aguardar, esse género de instruções necessárias num campo de batalha e que não podem atrair a atenção do inimigo. Foi então que tive a ideia de fazer sinais que pudessem ser lidos no escuro com simples toques dos dedos. Não foi algo que tenha inventado para as pessoas cegas, mas agora que estou aqui acho que é uma ótima ferramenta para aprender a ler e a escrever.

Os estudantes ficam calados, é difícil perceber a utilidade do invento sem uma demonstração prática.

_ Queira desculpar, capitão Barbier – interrompe Pingnier – posso sugerir que um dos nossos alunos teste a sua invenção durante alguns dias e depois dê a sua opinião antes de tomarmos uma decisão?

_ Porquê? Os alunos dizem ao diretor o que fazer e pensar? – Pergunta o capitão, desafiando Dufau, mas antes que ele respondesse, Pignier retoma a palavra.

_ Acreditamos que as pessoas cegas sabem avaliar melhor do que nós o que lhes é mais útil. Proponho que esse aluno seja Louis Braille. Ele é muito inteligente e estou certo de que daria conta do recado.

Barbier fica furioso. Como se atrevem a pedir a um fedelho de 13 anos para avaliar o meu sistema? – Pensou ele. A decisão, no entanto, está tomada e Louis Braille passa os dias seguintes a testar o modelo, reportando as suas conclusões ao capitão na semana seguinte.

_ O seu método de usar pontos e traços em relevo é exatamente o que precisamos capitão. Mas há muitos problemas que precisam ser resolvidos.

_ Muitos? – Pergunta Barbier abespinhado.

_ Não me leve a mal, capitão, acho que a sua invenção é um grande avanço, mas oito ou 10 pontos para representar uma letra é muito para memorizar e para tatear com apenas um dedo.

_ E o que propões?

_ Acho que precisa de algumas alterações, como por exemplo, pontuação, números ou um sistema que permita aprender a soletrar, coisas que não existem no seu sistema porque os pontos e traços apenas representam sons.

_ E por que raio um cego quereria aprender a soletrar? Não é suficiente aprender as regras básicas para ler e a escrever?

_ Nós precisamos de saber soletrar para escrever corretamente, tal como qualquer outra pessoa que vê, capitão!

Barbier levanta-se furioso e aproxima-se de Louis Braille com os olhos fumegantes de raiva.

_ Como as pessoas que veem?

_ Sim capitão. Uma criança cega terá de usar a gramática, como qualquer outra criança, e seu sistema não tem isso. O senhor não entende isso porque o senhor…

_ Porque vejo! Sim, eu sei! Por isso mesmo consigo ajudar. E se tu tivesses alguma gratidão agradecer-me-ias até ao fim dos teus dias.

Magnífico trabalho, Louis Braille!

O método que Louis desenvolve é imediatamente apreendido pelas crianças cegas, mas…

Barbier é mais caprichoso que uma criança birrenta, mas Louis Braille não desiste. Nos dois anos seguintes, dedica toda a energia a tentar encontrar um sistema mais eficaz. Quando está quase a terminar, volta à aldeia para visitar os pais, mas ninguém lhe põe a vista em cima de tão ocupado que está na oficina do pai a trabalhar no seu novo método.

Passa horas a furar folhas de papel com uma sovela, picotando combinações variadas de pontos, até reduzir no máximo a seis símbolos para cada letra, a quantidade certa para ser possível tatear com apenas um toque de dedo.

Louis Braille apresenta o resultado do trabalho ao pai, demonstrando como é a letra A no seu código.

_ Isto é um A? – Pergunta o pai maravilhado – e como é um B?

Louis mostra-lhe o alfabeto inteiro e ainda os números e a pontuação. O pai ajuda-o a construir uma prancha de madeira que prende as folhas e a régua usada para perfurar pontos.

Louis leva o trabalho para escola. Sem grandes trabalheiras, os colegas acham o modelo muito fácil. Pingnet, contudo, não perceber o alcance do método, mas o rapaz propõe um exercício.

_ Importa-se de pegar no jornal e ditar um pedaço de texto para eu transcrever?

Pignet agarra no jornal e começa a ler o primeiro texto que encontra.

_ Exilado, na ilha de Santa Helena, Napoleão encontra-se cada vez mais debilitado, recusando-se a ser assistido por médicos ingleses.

_ Pode ler mais depressa senhor Pingnet – interrompe Louis enquanto vai perfurando uma folha de papel.

_ Nos últimos meses, já nem se levanta do seu leito, dedicando os derradeiros esforços a redigir o seu testamento.

Louis termina a transcrição ao fim de alguns segundos. Pousa o alfinete, vira a folha ao contrário e começa a ler à medida que passa o dedo indicador sobre o picotado.

_ Exilado, na ilha de Santa Helena, Napoleão encontra-se cada vez mais debilitado, recusando-se a ser assistido por médicos ingleses. Nos últimos meses, já nem se levanta do seu leito, dedicando os derradeiros esforços a redigir o seu testamento.

Pingnet vai lendo o jornal, confirmando ao mesmo tempo que o rapaz consegue traduzir sem qualquer dificuldade o trecho que acabara de ler.

_ Tu conseguiste rapaz! Conseguiste!

_ Bem… A ideia original foi do capitão Barbier, eu só fiz alguns ajustes.

_ E que ajustes! Magnífico trabalho, não é senhor Dufau?

O diretor, não responde. Vira as costas e vai-se embora.

O sistema de Louis Braille é uma oportunidade única para os cegos, mas Dufau não quer saber disso. Proíbe o seu uso na escola e queima todas as transcrições que o rapaz fez de livros, castigando ainda qualquer aluno apanhado a usar o seu método para ler.

Se o sistema fosse adotado oficialmente, pensou ele, os professores iriam perder os seus empregos e os cegos seriam capazes de ensinar a eles próprios. Nunca iria permitir tal ousadia.

Mas Louis continua a transcrever às escondidas os livros de que mais gosta, entregando o trabalho a Pingnet para que ele possa mostrá-lo fora da escola. A manobra de bastidores entre os dois dá resultado e, ao fim de algumas semanas é, mais uma vez, a marquesa de Orvilliers a interessar-se pela proeza de Louis Braille.

_ Fui contactado por uma benfeitora do instituto que quer saber mais sobre o teu sistema, Louis. Caso ele se revele eficaz, está disposta a fazer uma boa doação ao instituto para adotarmos este modelo – diz Pingnet ao diretor.

Como o senhor Dufau só pensa em dinheiro, nem sequer hesita em atender ao pedido, muito embora imponha algumas condições. Desde logo, insiste em chamar também o capitão Barbier para mostrar o seu método. A ideia é que os dois compitam frente a frente para o conselho de administração do instituto decidir qual o mais indicado.

_ A nossa benfeitora parece estar certa que o teu sistema é o melhor, mas isso é algo que terá de ser demonstrado – pensa Dufau.

Um duelo pontilhado

Louis Braille

Braille e Barbier encontram-se de novo para cada um tentar provar que o seu método é o melhor.

A reunião acontece na semana seguinte e Louis Braille é o primeiro a apresentar o seu modelo. Entrega uma folha com um texto transcrito para o seu código a um aluno cego que, sem dificuldade, lê três ou quatro frases de uma assentada. O conselho fica boquiaberto e aplaude com entusiasmo.

_ Vamos lá acabar com esta farsa! – Interrompe o capitão Barbier – Claramente que este estudante teve de antemão acesso ao trecho para o memorizar e debitar agora como se estivesse a ler.

Louis levanta-se do seu lugar, respira fundo e desafia o capitão para um duelo entre os dois métodos.

_ Capitão Barbier, faça o favor de escolher qualquer aluno desta sala e qualquer trecho de qualquer livro para repetirmos a experiência seguindo as suas regras.

_ Pois é isso mesmo que vou fazer e demonstrar como este teu método não passa de uma intrujice!

Barbier escolhe dois alunos cegos que aguardam fora da sala enquanto ambos transcrevem uma passagem da Bíblia para o seu código.

Barbier usa uma quadrícula sobre uma folha cheia de buraquinhos que vai perfurando apressadamente, mas Louis Braille, com uma simples régua com traços e orifícios, consegue terminar a tarefa primeiro do que ele. O capitão acelera a transcrição, terminando uns minutinhos depois.

O primeiro aluno entra na sala, por coincidência, até é conhece muito bem o método de Barbier, pois não é a primeira vez que testa a metodologia. Ainda assim, não o suficiente para ler uma passagem cheia de palavras difíceis e frases longas. O rapazito atrapalha-se, não conseguindo sequer terminar as primeiras palavras.

_ Peço imensa desculpa, não consigo ler porque há demasiados pontos.

Barbier está furibundo, mas não tem outro remédio senão deixá-lo ir sem completar a leitura.

_ Louis Braille, faça o favor de avançar com a sua demonstração – ordena Dufau.

O segundo aluno entra na sala e começa, ainda hesitante, mas rapidamente apanha o ritmo e desengata o código sem dificuldade.

A marquesa aplaude de pé e todos os outros juntam-se a ela, exceto Barbier que agarra na sua invenção e sai da sala.

Tanto tempo perdido!

Louis Braille

Apesar de eficaz, o código de Louis Braille só é oficialmente reconhecido após a sua morte.

Poder-se-ia pensar que a partir de agora não haverá mais obstáculos a impedir o sistema de Louis Braille de entrar no ensino. Mas não. Muita gente resiste à mudança e o seu código acaba apenas a ser usado na Escola Real dos Jovens Cegos, em Paris, onde anos mais tarde Louis se torna professor.

Só muito tempo depois é que o sistema de Louis Braille teve um impacto enorme na vida dos cegos em todo o mundo. Ele nunca soube disso. Aos 26 anos ficou doente com tuberculose e morreu a 6 de janeiro de 1852, com 42 anos.

O reconhecimento oficial do seu trabalho chegou apenas um século depois da sua morte, quando os seus restos mortais foram transferidos o Panthéon de Paris. Por essa altura, o seu sistema já é amplamente conhecido em todo o mundo. Em 1854, dois anos após a sua morte, o código é oficialmente reconhecido como o melhor para ensinar crianças cegas a ler e a escrever. Pouco tempo depois, os livros em Louis Braille começam a ser impressos.

A internacionalização do Braille

Louis Braille

O código de Louis é hoje usado nos computadores, smartphones, relógios ou brinquedos.

A partir daí, o código é adotado no congresso de Paris, em 1878, como o modelo internacional para cegos. Um ano mais tarde, os alemães fazem o mesmo, acrescentando mais algumas letras ao alfabeto como o w e o trema colocado nas vogais ä, ö, ü (que representam, os fonemas: ae, oe, ue) e ainda o beta grego ß (que substitui em algumas palavras o “SS”).

O código ganha tanta visibilidade internacional que, nos finais do século XIX, surgem as primeiras máquinas de escrever para cegos e tipografias para livros em Braille.

Nos dias de hoje, a invenção de Louis pode até ser usada no computador, que imprime páginas e traduz do Braille e para o Braille. Mais espantoso, ainda, é o software que reconhece a voz e traduz para o Braille tudo o que se vê no monitor. Há muitas outras aplicações que usam o modelo de Louis como relógios, telemóveis ou brinquedos para montar e desmontar.

O Braille é hoje um sistema usado em dezenas de línguas, em inglês, em hindu, em árabe, em chinês ou em hebraico. É o código para qualquer cego ler e escrever em qualquer parte do mundo. E tudo graças a um rapaz que sempre acreditou que, não é por se ser cego, que se tem de viver na escuridão.

 3 perguntas a Louis Braille

👨🏿‍🦯Como funciona o teu código?

O Braille é um método de escrita e de leitura assente em 63 sinais em relevo. Os símbolos são dispostos em combinações variadas a não ultrapassar os seis pontos por célula. Cada sinal gráfico é apresentado num molde de 2 colunas e 3 linhas, formando uma casa ou uma célula. Só há duas formas de representar os pontos em relevo: levantados ou achatados. Estes pontos são saliências no papel com um espaço muito pequeno entre eles, para que os caracteres ocupem um espaço ínfimo, mas afastados o suficiente para serem facilmente tateados.

Como é feita a leitura?👨🏿‍🦯

A leitura é feita ao toque de um ou dois dedos indicadores ao mesmo tempo, embora haja quem use outros dedos. Para uma leitura sem paragens, o método de Braille exige ambas as mãos.

  • O dedo da mão direita deve seguir a linha até ao fim, começando do lado esquerdo e acabando na extremidade direita.
  • O indicador esquerdo deve descer para linha seguinte e começar a ler antes que a outra mão termine a linha anterior.
  • A mão direita vem depois ao encontro da esquerda e prossegue a partir do ponto em que esta parou.

O código prevê combinações de pontos para todas as letras e para a pontuação da maioria dos alfabetos. Quanto mais prática, maior a velocidade de leitura, podendo as pessoas cegas ler até 200 palavras por minuto.

Que materiais são precisos para escrever em Braille?

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A escrita Braille necessita de uma folha mais grossa que o normal, uma placa plástica ou metálica com várias linhas e células (pauta Braille) e um punção, uma espécie de estilete com a ponta arredondada, usado para perfurar o papel. A folha é colocada em cima dessa placa e com o estilete perfura-se o papel, seguindo as linhas e as células da pauta. O papel é marcado da direita para a esquerda. Ao terminar, vira-se a folha do avesso e passa-se o dedo por cima do picotado, lendo da direita para a esquerda.

Fontes consultadas:Ligue Braille | Snof | Associação de Cegos Louis Braille |

Não percas, também, a homenagem do Bicho-que-Morde a um grande homem da música: As nove sinfonias de Beethoven.